Pianista faz uma viagem ao tempo relembrando sua trajetória na música

Cida Bottoso, dirigente do Conservatório Maestro Julião, 86 anos de vida, mais de 60 dedicados à arte; aqui representa todas as mulheres artistas da cidade e região

OSLAINE SILVA - Da Redação • 08/03/2018 12:31:20

. Foto: José Reis, O toque dos dedos firmes de Maria Apparecida Memari Bottoso, tão ágeis e que, ao mesmo tempo, parecem flutuar além das teclas do piano

Quanta vida se revela no toque de dedos firmes, ágeis e que ao mesmo tempo parecem flutuar além das teclas do piano, tirando sons que emocionam até o mais leigo dos leigos em música! Assim se apresenta a pianista prudentina, professora Maria Apparecida Memari Bottoso, dirigente do Conservatório Musical Maestro Julião. Licenciada pela Escola Superior de Música da USP (Universidade de São Paulo), dos seus 86 anos de vida, mais de 60 ela tem dedicado, literalmente, à música e ao compartilhamento de aprendizado e ensinamento a milhares de alunos em sua escola. Esta é a mulher que hoje ilustra o caderno de cultura deste jornal impresso, representando todas as artistas de Presidente prudente e região, no Dia Internacional da Mulher.

“Mesmo não lidando com a arte, nós mulheres somos artistas de natureza: temos que lidar com marido, filhos, casa, trabalho fora do lar... a vida para nós é um filme, temos que parar o que sentimos... Mas, tudo sempre dá certo! Basta manter a calma, porque tudo se resolve com calma. Não precisa erguer a voz. Só acho que as mulheres precisam se valorizar mais e se colocarem em seus lugares que é tão valioso”, deseja dona Cida neste 8 de março.

Pianistas geralmente praticam escalas por horas, repetem frases de músicas inúmeras vezes, buscando a perfeição. Dizem os estudiosos que em razão das possibilidades técnicas, de todos os instrumentos, o piano é o que se pode classificar como completo. Seu efeito sonoro harmonioso compreende registros dos mais graves aos mais agudos. Basta pesquisar e inúmeros artigos revelam que este é o instrumento favorito de muitos compositores para o momento de suas criações musicais. E dona Cida é um exemplo de determinação, coragem, amor e fé, desde que decidiu que a música seria seu oxigênio. Surpreendentemente, ela não abre mão de ministrar suas dez aulas todos os dias aos seus alunos.

Feliz da vida, ela fala com uma alegria imensa deles. “Olha que nestas mais de seis décadas, são milhares de alunos e eles vêm me visitar, você morre de rir. Esta semana recebi duas alunas, uma se formou há 40 e a outra há 30 anos. Na semana passada, me emocionei com uma que chegou chorando e perguntei o motivo. Ela então olhou para o piano e disse que ele ficava do outro lado [risos]. Esse ambiente chama as pessoas. A música que é muito poderosa em tudo!”, exclama a professora.

 

Brincadeira de roda

Dona Cida conta que esse amor pela música já existia lá nas brincadeiras de roda, quando ela tinha entre 5 a 6 aninhos de idade. “Tinha uma brincadeira que se perguntava ‘o que você quer ser quando crescer?” E eu dizia: ‘uma pianista!’. Então, mamãe foi observando e percebendo que aquilo era real, até que decidi que iria estudar em São Paulo onde fiquei por dez anos. Pensa na situação. Naquele tempo, a ideia de uma filha sair de sua cidade para estudar fora era um absurdo. Mas, eu fui”, pontua a determinada Maria!

Na capital, ela fez vários conservatórios estaduais e federais para abranger todo conhecimento possível, como na USP onde fez Musicoterapia. Ela comenta sobre a diferença que era naquela época, em questão de complexidade das coisas.

Dona Cida ressalta que teve pais maravilhosos. “A hora que falei para papai que queria fazer música, ele tomou um susto! Me perguntou por que não uma faculdade de Filosofia, Psicologia, mas Música? Aí, ele comprou esse piano, que está comigo há 70 anos. Acho que ele não acreditava muito, mas quando viu a nota que tirei, fiquei em segundo lugar com 8,5 ele disse: ‘Não filha, você está certa. Estará fazendo o que gosta!’”, lembra.

A pianista se alegra pela honra e prazer em ter aprendido com grandes mestres como o maestro João Baptista Julião, qual deu origem ao nome de seu conservatório musical. Foi regida por ele, assim como por Heitor Villa-Lobos, pelo maestro Eleazar de Carvalho, Samuel Arcanjo, estudou com Magdalena Maria Yvonne Tagliaferro, mais conhecida como Magda Tagliaferro, uma pianista brasileira e francesa, considerada uma das grandes celebridades do século 20.

“E o meu incrível professor alemão, a quem devo tudo que sei, Karl Heim. Tive a sorte de estudar em uma época muito boa, onde o contato era diferente. Veja bem, eu estudava oito horas por dia! Não é brincadeira não [risos]. Era uma vida inteira. Hoje é um sistema diferente, eu brinco que estou em outro mundo, onde é tudo tão light, não é mesmo? [risos]. Essa tecnologia de celulares modernos, por exemplo, a gente tem que controlar senão eles [alunos] ficam nele o tempo todo. Não se conversa mais. Pais de um lado, mães e filhos do outro cada um com um celular. Mas, temos que acompanhar a evolução”, entende a professora.

 

Poder transformador

A professora garante que a música é responsável por muita coisa boa na vida das pessoas. Ela diz que tem alunos que comentam que chegam à escola carregados, pesados e dizem sair de lá leves. A reportagem teve o privilégio de ser presenteada durante a entrevista com um trechinho de um tango, que segundo ela, é a música dela e do seu amado José Bottosso.

“Sou uma pessoa muito feliz. Deus me deu tudo! Pode ser pela força da religião. Sou muito católica, criada no Colégio Cristo Rei, com as irmãs alemãs, que são rígidas. Meus alunos costumam dizer que passo uma paz a eles. Uma tranquilidade. Acho tão bonitinho. Tenho alunos de 4 a 80 anos. E tem um deles, de Rancharia, esse de 80, que diz que nem que seja para vir e não tocar nada, só de conversar comigo já faz tão bem [risos]”, agradece.

Dona Cida se recorda de quando tocou pela primeira vez o seu compositor preferido, Johann Sebastian Bach,  para o seu enérgico professor alemão. “Exibida, estava achando que tinha sido a tal ele disse: ‘menina, mas que bela porcaria você tocou’ [gargalha]. Papai ficou furioso, queira que fossemos embora. Mas, eu disse a ele, calma eu vou mostrar a ele que posso papai. E fui uma das melhores alunas. Eu toco, ainda estudo porque a hora que o aluno precisa de mim eu não vou mandar fazer, preciso mostrar como se faz. Eles gravam, dizem que vão trazer igualzinho como toco. Eu amo meus alunos!”, exclama dona Cida.

 

Para sempre ao meu lado!

A pianista afirma que a música é muito comunicativa, hereditária. E recorda que dois de seus tios não aprenderam música em escola nenhuma, mas tinham o dom. Um talento nato. Segundo ela, eles diziam que aprendiam ouvindo e lindamente tocavam violino e piano. Já sua mãe adorava cantar enquanto cumpria com seus afazeres, em casa.

Com todo amor e carinho ela acentua que a arte da música é um bálsamo que a faz suportar a dor da ausência do seu amor, o artista plástico José Bottosso (que faleceu em 7 de abril 2012). “A música é minha vida e depois que o meu eterno namorado faleceu, se não fosse por isso, pelo conservatório eu acho que não suportaria a morte dele. Ele me faz tanta falta! Porque ele foi uma pessoa muito presente, não me largava, estava sempre segurando com sua mãozinha, a minha, em todo lugar. Nós falávamos a mesma língua”, exclama com saudades a apaixonante pianista que diz que Bottosso estará para sempre ao seu lado!

Dona Cida sorri ao lembrar que tinha 13 para 14 anos quando se apaixonaram. O marido levou 5 anos atrás até poder chegar perto dela para conversar. “Meu pai e a mamãe e eu na frente do cinema e ele ficava lá atrás [risos]. Estudamos os dois no Colégio São Paulo, lá tinha o pavilhão dos meninos e o das meninas. Ah... se misturasse. Quando casamos, ele falava assim: ‘nossa nem acredito que a gente se casou. Tanta luta’... por isso era tão gostoso”, recorda, saudosa, dona Cidda!

Ambos artistas tiveram duas filhas, uma delas bailarina, a Ana Bottosso, que está acertando um trabalho na Coreia do Sul. Rosa Amélia, qual sua filha, Janine, também faz balé e fez a mesma faculdade do avô, Belas Artes. “Parece que não, mas é hereditário. Desde a barriga quando o neném ouve a música ele a percebe e depois a reconhece. E minhas filhas, elas acompanharam tudo isso. Elas são maravilhosas, tão presentes. Me ligam todas as noites. Eu não tenho do que reclamar. Apenas agradecer de joelhos a Deus que sempre foi tão maravilhoso comigo”, pontua.

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