Foto: Luiza Boguszewski: No ano que marca os 25 anos, pesquisadora esteve com ruandeses e fotógrafo alemão

Foto: Foto: Luiza Boguszewski: No ano que marca os 25 anos, pesquisadora esteve com ruandeses e fotógrafo alemão

CONHECIMENTO

Pesquisadora vai a Ruanda estudar genocídio de 1994

Ligia Maria Lario Fructuozo é advogada e docente, mora em Presidente Prudente, e visitou o país para se aprofundar no massacre que vitimou mais de um milhão de pessoas

  • 26/04/2019 06:30
  • GABRIEL BUOSI - Da Redação

Todo jovem, ao entrar em uma universidade, se depara com o fato de que ao término do curso deverá desenvolver uma pesquisa e que, além de colocar em prática o que foi aprendido, tem ainda a intenção de trazer bons frutos à sociedade. Neste contexto, há alguns anos e inicialmente de forma despretensiosa, a advogada, docente e pesquisadora, Ligia Maria Lario Fructuozo, até então aluna de Direito da Toledo Prudente Centro Universitário - instituição que atualmente é docente -, iniciou um estudo sobre o genocídio ocorrido em 1994, em Ruanda, na África, experiência que hoje visa levar informação sobre o evento que massacrou mais de um milhão de pessoas em cerca de cem dias, e que, inclusive, poderá se transformar em livro, palestras e fomentar novos estudos sobre o caso. A experiência já contou até com uma viagem ao país, neste ano, com a intenção de vivenciar a história que completou 25 anos. Ela esteve em Ruanda por 11 dias, no início de abril.

O interesse teve início no fim de 2008, quando a jovem assistiu de forma despretensiosa em um fim de semana o filme intitulado “Hotel Ruanda” e que retrata o genocídio de 1994. Ao término do longa, ela comenta que o que mais passava pela sua cabeça era o fato de nunca ter ouvido falar sobre algo tão marcante quanto este assunto, o motivo pelo qual as instituições de ensino não tratavam do assunto, e em que momento a ONU (Organização das Nações Unidas) havia se envolvido ou não.

“Foi então que me dei conta de que era possível aprofundar nesse genocídio, o que veio de encontro com minha monografia da graduação, já que eu buscava algo que pudesse se debater as causas, consequências jurídicas e transformar em uma pesquisa”, lembra. Na ocasião, no entanto, a falta de informações sobre o caso foi o primeiro e talvez o principal obstáculo enfrentado ao longo dos anos, o que não a impediu de continuar tentando e, futuramente, se “apaixonar pelo tema”.

A partir de então, já com informações em mãos, a jovem descobriu que o genocídio se tratava de um massacre em Ruanda, por parte de extremistas étnicos hutus, que vitimaram membros da comunidade minoritária, tutsi, assim como seus adversários políticos, independentemente da sua origem étnica. “Existe uma frase lá, que vê o genocídio como algo sobrenatural, e de fato o é. Chega a ser difícil colocar em palavras, algo que a mente não consegue compreender”. Isso porque, os ataques vieram de pessoas “normais”, como vizinhos, pessoas da mesma comunidade, professores, padres, cantores e todos com um objetivo em comum: o poder e extermínio dos tutsis.

“Existe uma frase lá, que vê o genocídio como algo sobrenatural, e de fato é. Chega a ser difícil classificar em palavras, algo que a mente não consegue compreender”

Ligia Maria Lario Fructuozo,

advogada, docente e pesquisadora

“Ruanda foi formada por dois povos de regiões diferentes da África, mas que eram um só povo, pois tinham a mesma cultura, língua e religião. Quando os belgas colonizaram o país, perceberam a diferença entre as pessoas, principalmente a econômica, mas também em relação a algo que acreditavam ser superior: os tutsis tinham traços mais europeus, com boca e nariz mais finos, mais altos e pele mais clara, então resolveram dar o poder para eles, mesmo sendo a minoria”, expõe. Ocorre que anos depois, a Bélgica mudou de lado, já que na década de 60 a ONU pressionava para que a independência fosse dada aos países africanos, o que fez com que os colonizadores apoiassem os hutus, que eram maioria, mesmo com menos condições, mas que poderiam se organizar para eleições e se elegerem democraticamente. Em 62 ocorreu a independência, e a situação piorou. 

Início do massacre

Após receber apoio, os hutus passaram a perseguir a população que se tornara adversária, conforme a pesquisadora, e criar leis como a que impedia ambos os povos se misturarem e terem o mesmo acesso a cargos públicos e escolas. “Isso foi crescendo, até que muitos optaram por mudar de país. Mas, em 1993, o presidente da época, Juvénal Habyarimana, assinou um acordo de paz entre os dois povos, incentivando que todos regressassem ao país, ação que foi vista de forma negativa pelos hutus, momento em que teve início uma divulgação de extermínio contra a população rival, de forma ampla e aberta”. Na ocasião, ocorreu uma importação de armas, principalmente facões. Em 6 de abril de 1994, os hutus derrubam o avião do presidente, culparam os tutsis, como uma forma de ter justificativa para atacar esse povo, e iniciaram uma perseguição com matanças, de forma que aqueles que não estivesse ao lado deles, também morreriam.

“Há cinco anos eu tive contato com o material que falava das celebrações que marcaram os 20 anos do genocídio, foi quando coloquei uma meta de que quando ele completasse 25 anos, eu deveria estar pessoalmente no país, o que ocorreu neste ano em uma viagem de 11 dias. Queria poder falar sobre toda essa pesquisa em primeira pessoa e foi incrível”. No local, ela afirma ter percebido o quanto o massacre mexeu com a vida da população, já que não é difícil encontrar pessoas que possuem uma história para contar sobre o fato que é tão recente. “No entanto, há muito receio deles sobre expor o que sabem ou o que vivenciaram. Meu contato ocorria na maioria das vezes de forma privada e tudo em um tom de voz baixo, o que demonstrava a preocupação”.

A pesquisadora finaliza o mestrado neste ano, pretende se aprofundar no caso futuramente em um doutorado, visitar mais vezes o país e diz que, inclusive, está em fase de elaboração de uma palestra para levar a crianças, jovens e adultos de todas as áreas, não só a história do genocídio ocorrido em 1994, mas também como esse país se reconstruiu de maneira única após este fato.


Foto: Luiza Boguszewski: Monumento em homenagem ao exército tutsi que trabalhava para salvar vítimas

 

Fotos: Arquivo pessoal

 

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