Os 160 quilômetros de Maria

  • 02/06/2019 08:04
  • Sandro Rogério dos Santos

Dia 31 de maio foi comemorada a festa da Visitação de Nossa Senhora. A Virgem Maria visita sua prima Santa Isabel, ambas grávidas por graça divina. Apressada, partiu Maria para servir à idosa parenta. Aproveitando a data litúrgica, com argumentação de texto divulgado pela arquidiocese de Madri, poderíamos dizer que os homens e as mulheres deste século não complicam muito suas vidas quando, por exemplo, precisam parabenizar pais de primeira viagem. Enviam uma mensagem de WhatsApp com emotions diversos e assunto encerrado. Nós nos tornamos pessoas sumárias. O teólogo Enzo Bianchi diz que o homem contemporâneo tem uma relação patológica com o tempo.

Por outro lado, você que lê estas linhas sabe que seus avós falavam da época cujo tempo era vivido nas situações ordinárias. A tarde foi passada na casa dos Martinez, que perderam um filho afogado no rio; ficavam juntos até o início da noite, pois precisavam de companhia e cuidados. A agricultura ajudava ditando um sossegado ritmo no trabalho. Trabalho e tempo eram assim humanizados. Com a ausência de lentidão também desapareceu a reflexão, o comando da própria existência e a alegria. Restou o frenético estado de desmesura em tudo.

Quando Maria fica sabendo que sua prima está grávida, ela reage: alegra-se e coloca-se a caminho. Não parou na simples emoção do milagre realizado em Isabel, mas colocou-se a caminho. E não estamos falando de uma visita à casa ao lado ou a um bairro próximo. A distância entre Nazaré e Ain Karem, a cidade de Isabel, é de cento e sessenta quilômetros. Para lá havia três possíveis caminhos: o mais próximo, pelo mar, perigoso, pois passava pela terra dos gentios; o que margeava o Jordão, o mais usado por Jesus em sua vida pública; e o do centro, atravessando as montanhas da Judéia e cruzando a Samaria – os judeus odiavam os samaritanos – conforme o evangelho, a Virgem “partiu para a região montanhosa”, isto é, caminhou pelo terceiro caminho, o mais direto e difícil. Se quisermos conhecer mais a fundo a Mãe de Jesus (e nossa), convém ter tudo isso em conta para com ela atravessarmos o Evangelho de seu Filho.

Há pouco, recebi no celular a mensagem de uma jovem que faz alguns dias está saindo com um garoto e gostaria de manter um relacionamento estável. Pergunta-me se estaria preparada e não precipitando as coisas. Um conselho é aproximar-se da Virgem cuja vida denota qualidades de análise certeira e de determinação. A Virgem é a imprescindível padroeira das decisões especialmente num mundo onde andamos pisando em ovos com medo e mais prudentes que uma idosa em pista de patinação no gelo.

No encontro das duas mulheres manifesta-se o dom do Espírito que faz saltar a criança no seio de Isabel. A Boa Nova de Deus revela sua presença numa das coisas mais corriqueiras da vida humana: duas donas de casa visitam-se e se ajudam. Visita, alegria, gravidez, crianças, ajuda mútua, casa, família: aqui, Lucas quer que as comunidades de ontem e de hoje percebam e descubram a presença do Reino de Deus. Eis um maravilhoso ensinamento de nossa mãe e bastante útil ao nosso tempo, como acertadamente nos recorda o magistério da igreja. Temos que, por isso, estar muito alegres!

 

 

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Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos é pároco do Santuário Diocesano Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, situado no Jardim Maracanã, em Presidente Prudente.

Contato: padre@santuariosantateresinha.com

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