Orgulho e felicidade

  • 16/08/2019 02:12
  • Guilherme Marconi Germer

Onde achar a felicidade em tempos de coquetéis de remédios, estagnação e polarização? Terá o homem desistido de seu principal ideal, sedento pelo controle técnico e administrado da natureza externa e interna? Estará mais certo do que nunca, em nossos tempos, Schopenhauer quando afirma que: “A felicidade repousa sempre no futuro, ou em todo caso no passado, e o presente pode ser comparado a uma pequena nuvem negra conduzida pelo vento sobre uma planície ensolarada: atrás e na frente dela tudo é brilhante, apenas que abaixo dela sempre há sombra” (O mundo como vontade e representação, Tomo II).

Nietzsche quiçá nos dê uma boa bússola para nossa procura da felicidade: vivemos em uma era marcada, como nenhuma outra, pela comparação. Isso é bom e ruim, afirma o autor: é bom porque podemos escutar e aprender, sem sair de casa, qualquer língua, ter acesso a informações de qualquer país, visitar qualquer museu (visitações em 3D e em alta definição já são oferecidas gratuitamente em sites oficiais na internet), etc.

Porém, isso é também ruim, pois padecemos da depressão do Facebook e afins: a foto, a viagem, o sorriso do vizinho está sempre melhor do que o nosso. Isso atordoa a nossa vaidade.  

Pela análise de Nietzsche: o fato de vivermos um uma era como essa, da comparação, traz nosso principal orgulho e sofrimento. Em suas eruditas palavras: “Quanto menos os homens estiverem ligados pela tradição, tanto maior será o movimento interior dos motivos, e tanto maior, correspondentemente, o desassossego exterior, a interpenetração dos homens, a polifonia dos esforços. Para quem ainda existe, atualmente, a rígida obrigação de ligar a si e a seus descendentes a um lugar?” (Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo C., de Souza, Cia das Letras).

Nietzsche quer dizer, com essas palavras, que hoje não é mais como antigamente, em que as pessoas se conectavam com extrema clareza a uma só região e geração. Hoje, podemos ser tudo: qualquer pessoa, fictícia ou real, de qualquer tempo, lugar e propósito. Mas isso não é uma maravilha? De fato: “Não tenhamos medo disso!” – afirma o filósofo. “Vamos, isto sim, compreender tão grandemente quanto possível a tarefa que nos é imposta pela era”, de realizar a melhor síntese possível de tudo o que desabrocha para nós.

Porém, precisamos aprender a lidar com o que Kierkegaard chamou de angústia da liberdade. Ele comparou a liberdade à vertigem de olhar para baixo em um abismo: se tudo é possível para nós, isso inclui também as piores possibilidades, ou até a ausência de decisões (é sempre mais cômodo deixar que os outros decidam por nós né... – quer dizer, por eles...).

Virtude, amor, sabedoria e originalidade, os remédios mais recomendados pelos filósofos contra o sofrimento da era da comparação. Quanto ao orgulho ante a mesma – Paul Rée recomenda cuidado para que não evolua para a petulância. E melhor ainda é converter o orgulho em humildade. O que são esses termos? Eis a explicação do sábio: “O orgulho nasce quando alguém compara suas qualidades e realizações com as qualidades e realizações dos outros homens, acha as suas melhores, e conecta à imagem de si a ideia de um homem destacado e distinto dos demais (...) Quando essa pessoa expressa em seu comportamento essa consciência de seus méritos, será chamada de orgulhosa (quando, em sua conduta, já não exprime isso, será denominada de modesta; e se sua opinião de si próprio for maior do que seus méritos, e isso se evidenciar em seu comportamento, será predicada de petulante. A origem dos sentimentos morais, §5).

O melhor antídoto contra o orgulho, segundo Nietzsche e Montaigne, é o auto-riso, isto é, a prática de rir de si próprio: quem aplicar esse medicamento em si próprio ao menos duas vezes por dia terá boas relações sociais e estará no caminho da felicidade.

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