O vento de Deus

  • 22/09/2019 04:15
  • Persio Isaac

A guerra é um palco dos horrores. Como disse o filósofo inglês, Thomas Hobbes na sua célebre frase: "O homem é o lobo do homem". Ele se transfigura sendo capaz de grandes atrocidades e barbaridades contra a sua própria espécie. Seus atores desempenham papéis cruéis, num teatro sem cor, sem luz, sem aplausos. A diretora desse espetáculo desumano é a insensatez. Os corações se transformam em urnas frias, os olhares são de pedra e a misericórdia é lançada no abismo mais profundo. A fome da violência vai engolindo cada pedaço, sem mastigar, sem saborear o gosto da inocência.  

Na guerra, todos sabem que só tem um pensamento: “É matar ou morrer”. No século 13, em 1281 um tufão altamente destrutivo acabou salvando o Japão da invasão do conquistador mongol Kublai Khan, neto do lendário Gêngis Khan. Os japoneses deram o nome a esse tufão de “Kamikase”: "Kami significa Deus e Kase significa vento". Na grande e importante batalha naval de Midway, na guerra contra os Estados Unidos, o Japão perdeu quatros importantes porta-aviões e muitos pilotos experientes.

Em 1944, na batalha de Saipan, onde os japoneses foram derrotados, a glória da vitória foi se tornando um desejo cada vez mais distante de uma nação Imperial. Numa atitude de desespero o Vice-Almirante Takijiro Onishi convence o alto comando militar do Japão que era preciso tomar medidas extremas para tentar reverter os rumos da guerra. Referindo-se ao acontecimento de 1281, o Vice-Almirante Onishi coloca todas as esperanças num método de ataques suicidas, nascendo assim os “Kamikazes”, uma alusão ao tufão que salvou o Japão da invasão do exército mongol de Kublai Khan.

Com a grande perda de pilotos experientes na Batalha de Midway, os japoneses tiveram que recorrer a treinar jovens, recrutados nas Universidades. Recebiam um treinamento de 40 a 50 horas de voo. O normal para preparar um piloto teria de ser de 500 horas de voo. Puro desespero.

Os pilotos kamikazes tinham em média 20 anos. Amavam seu país, sua família e eram fieis ao Imperador. A maioria deles desejava que esse método suicida pudesse abreviar e terminar com a guerra.

Na filosofia japonesa é necessário ter um propósito nobre para morrer. A honra e o caráter são os castelos de um guerreiro, assim ensina o Bushido, os mandamentos de um samurai, morrer com honra. Um menino cujo sonho era ser um professor de ciências se alista para ser um Kamikase.

Nascido em Tokushima, fica perto de Osaka. Sua família tinha uma fazenda de arroz, com criação de bicho-da-seda, produzia o fio de seda. Estudava em período integral, praticava esporte, aulas de danças e música. Adorava ver os aviões Zero, o caça mais veloz do mundo nessa época, passar pela sua cidade rumo à glória. Assim era a vida do menino, Yokio Seki.

Aos 18 anos disse aos seus pais: “Vou ser um Vento de Deus”. Seus pais choraram, mas resignados, aceitaram perder seu filho para salvar o Japão. Sua religião era o xintoísmo e acreditava que os kamikazes eram os guardiões da pátria. No dia 25 de outubro de 1944, as 10:47 da manhã, Yokio Seki estava sentado no cockpit do avião Zero Nakajima Ki43 Hayabusa. Olhou e viu jovens meninas japonesas segurando galhos com flores de cerejeiras, comumentemente associada aos kamikazes, pois uma vez que brilhavam e mostravam sua beleza, caiam em direção ao chão, nunca mais voltando para o tronco da árvore.

Levantou voo aos gritos de “Banzai”. Tinha a fé que desse inferno iria para o céu com honras de um samurai. Mergulhou com 250 quilos de explosivos em direção ao porta-avião USS St. LO. Uma forte explosão aconteceu, Yokio Seki se tornou um “Vento de Deus”.

Persio Isaac

Persio Isaac

Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

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