O Feirão da Vida

  • 01/09/2019 04:59
  • Persio Isaac

Nossa aldeia, Presidente Prudente, possui um cotidiano rico e peculiar no sentido especial, próprio da sua origem. Hoje, vivi um cotidiano que teve um tempo no passado e outro no presente. Meu irmão Teco passou em casa para me levar a encontrar com o querido amigo, Valdomiro, o popular Jacaré que queria me ver. Um amigo especial, dotado de uma agudeza de espírito, vivendo a vida abraçada no seu bom humor. Sabe brincar com todos, sem usar de maldade. Digo isso porque ele tem uma maneira única de se referir a mim e aos meus irmãos que é muito engraçada: “Como estão as ‘irmãs’ Isaac”? Só ele mesmo. Mas é só ele que pode brincar dessa maneira, afinal somos descendentes de árabes. Voltando ao passado, estávamos discutindo com o Jacaré e com outro amigo sagaz, Ildo “Dean Martin” Menucci, que na nossa raça não tinha gays. Juravam que tinha. Essa discussão durou anos. Um dia num desfile de rua no carnaval prudentino a casa caiu: Um turcão forte, bem peludo, estava desfilando fantasiado de Borboleta Real, batendo as asas felizes da liberdade. Jacaré nos olha com um olhar de vencedor e diz: “Não falei?”. É a vida. Voltando ao presente, chegamos à loja de carro do Nagib, no Parque do Povo, onde iríamos encontrar o Jacaré. Sem falar nada começamos a rir. Ele veio vestido de gozação: Trouxe a “irmã escritora”? Não tem jeito de não rir. Lembramos-nos de várias passagens hilariantes, de personagens que só a nossa aldeia tem. O Nagib mostra um vídeo no celular de um drone assaltando uma pessoa, super engraçado. Brasileiro desmoraliza tudo né, nem o VAR dá certo aqui. Os vendedores de carro dão nó em cortina de fumaça disse o Nagib, vou te levar ali no Feirão do Parque do Povo disse o Teco. Vamos lá, você que está escrevendo e olha o cotidiano de uma maneira diferente, vai gostar e aprender. Ok, vamos lá. Era quase meio-dia quando encostamos o carro no pátio onde fica o Feirão de carros usados. Teco manda chamar o Abel. Saio do carro e começo a ser apresentado para os “picaretas” do Feirão. Abel é um senhor negro, na casa dos seus quase 70 anos e, na conversa, vai me falando da sua dura rotina: Oh seu Persio, chego aqui as 8h da manhã e saio às 20h. Trago tudo de casa no porta-malas do carro: garrafas de água, prato, garfo, comida e a Bíblia. Bíblia? Sim, a gente reza antes de começar nosso trabalho. Onde o senhor mora? Moro no bairro tal. A casa é do senhor? É, adquiri naqueles lançamentos do governo. Fui escutando a rotina daquele homem que ri da própria situação financeira: Olha seu Persio eu ponho R$ 10 de álcool pra ir e voltar. Vou desligando o carro no caminho aproveitando as descidas para economizar combustível, se o dia foi ruim eu racho a marmita com minha esposa. Quanto que o senhor consegue ganhar? Pensou um pouco e disse: R$ 1.200. Luto diariamente por qualquer quantia, seja R$ 10 ou outro valor mais alto. O senhor é aposentado? Não consegui ainda, não tive condição de pagar o INSS. O Teco chega brincando dizendo: Oh Abel conta pro meu irmão das mentiras comerciais. Ah seu Persio esse seu irmão é gozador, a gente tem que mentir um pouco pra tentar vender, sabe como é uma mentirinha ajuda né. Eu sei seu Abel, faz parte. O Valdemir na qual o Teco colocou o apelido nele de Rei, sorri. Esses homens ainda acalentam e alimentam seus sonhos, vivendo o dia a dia dos aflitos, continua na esperança que um dia tudo pode ser diferente, uma vida sem desilusão.  Aqueles homens trouxeram o passado de volta. Lembrei-me do “Bar da Pedra” na Rua Barão do Rio Branco, ponto famoso dos picaretas nos anos 60, 70. Ali se vendia de tudo: fazendas, carros, imóveis, ouro e até sonhos impossíveis. Tudo que podia vender esses homens sem profissão conseguiam, para o sustento das suas famílias. Meu pai foi um deles. Lembrei-me de alguns lendários como, Marcelino Novaes, um dos maiores picaretas de vender fazendas, Belindo que vendia carros, Geraldo Cavalo Preto, Milton Veneno, Jair Cavaleiro, Cidão Moreira, Jorginho União, Sarkis, vou parar por aqui, senão terei que escrever um livro só com os personagens que passaram pelo “Bar da Pedra”. Expliquei a esses trabalhadores que escrevo crônicas, todos os domingos no jornal O Imparcial e pedi permissão a eles para contar suas histórias.  Sentiram-se honrados, seu Abel me olhou dizendo que ninguém dava muito atenção a eles. A realidade para muitos é penosa, dura, injusta. Pude sentir que apesar daquela vida dura, eles mantinham o sorriso. Cada um ia contando um caso engraçado. Homens sem estudo, judiados, mal tratados pela frieza da realidade, tendo que jogar nas regras do duro jogo da sobrevivência. O Feirão é uma faculdade da vida. Agradeci a todos, abracei seu Abel, Valdemir o Rei, cumprimentei um por um e pedi para tirar uma foto e registrar esse encontro. “Para acabar essa crônica, encerro com um comentário bem humorado do Claudio ‘Pato Duro’: Eu não quero sair na foto senão o SPC pode me achar”. Mais risadas. Assim voltei pra casa com as lições do Feirão da Vida cantando um samba do Paulinho da Viola: E a vida continua\ Esse é um dito que todo mundo proclama, o consolo dos aflitos e a desilusão de quem ama...

 

 

 

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