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O DR. DA BOLA

“O dia que conheci Sócrates”

  • 01/12/2019 06:30
  • Persio Isaac

Dia de Finados. O calor que está fazendo na nossa querida aldeia prudentina nos coloca, sem medo de errar, na honrosa posição de estarmos entre os 10 lugares mais quentes desse Planeta. Que sensação insuportável. Ligo o ventilador e o ar-condicionado no meu quarto ao mesmo tempo. Não adianta, o sol está sentado ao meu lado. Só me resta recorrer ao que Einstein disse: “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação cerca o mundo”. Monto nas grandes asas da minha imaginação e peço: Me leve ao lugar mais frio do mundo. Ela em poucos segundos pousa suas asas na Sibéria. Einstein tem razão. O que seria de nós sem a imaginação?

Nesse dia de Finados uma pausa de mil compassos cairia bem.  Um samba de Paulinho da Viola chega de mansinho: "Quem sabe de tudo não fale/ quem não sabe nada se cale/ se for preciso eu repito/ porque hoje eu vou fazer/ ao meu jeito eu vou fazer/ um samba sobre o infinito". A saudade se torna a principal protagonista nesse dia. Meu pai está enterrado em meu coração. A saudade sempre deixa um caminho para voltar. Nesse momento estou só. Penso: A vida nunca pareceu vazia para mim.

Detesto o moralismo, a hipocrisia e o cinismo. Um samba de Wilson Batista diz tudo: “Tenho pena daqueles que se arrastam até o chão, por dinheiro ou por posição”...  O mistério da vida tem beleza, a bondade tem sentido, a verdade é o caminho.  Estou sempre questionando tudo, procurando a minha verdade. Não existe verdades absolutas. Quem fala muito do futuro, está infeliz no presente. Não quero apenas ver o rabo do leão. Não quero enxergar a realidade como um caolho. Amar e mudar as coisas me interessam mais( Belchior).

Uma linda lembrança senta ao meu lado nesse dia de Finados. Ela se chama: O dia em que conheci Sócrates, o Dr. da Bola. O acaso é curioso, ele provoca coisas e o destino sempre nos surpreende. E foi por acaso que o destino me surpreendeu. Meu querido amigo Wladimir, o maior lateral esquerdo da história do meu Todo Poderoso Timão, fazia aniversário. Por acaso estava em São Paulo, não perderia por nada nesse mundo o aniversário dessa lenda do nosso futebol. Fui com meus dois amigos-irmãos, o Tocá e o Niltão (in memorian), amigos de infância de Wladimir. Foi através deles que conheci esse craque. Chegamos lá de surpresa. Wladimir nos viu e abriu um sorriso tamanho do mundo. Nos abraçamos e desejei a ele saúde e paz. Fora do campo ele é mais craque ainda. Grande alma. A casa estava cheia de jogadores de futebol, alguns amigos da imprensa esportiva e familiares.

Quando eu olho, uma grande surpresa, vejo Sócrates, sentado batendo papo descontraído com um copo de chopp na mão. Gelei. Tocá que torce para o São Paulo, Niltão que torcia para o Palmeiras gelam junto comigo. Olho para o Wladimir com o coração corintiano e pergunto: É o Magrão? Wladimir me pega dizendo: Vem conhecer o Magrão. Mas... Vem, Persio ele é super simples. Um ídolo para qualquer torcedor é como um Deus. Sou apresentado como um querido amigo. Sento perto dele e continuo gelado e em silêncio. Só tinha fera nessa roda de bambas. Sócrates estava falando de política. Ali estava um dos criadores da democracia corintiana junto com Casagrande e Wladimir. Ali estava não somente um jogador de futebol, mas um idealista, um sonhador. Aos poucos fui me soltando, entrando nesse papo tão complexo.

A minha idolatria pelo meu ídolo foi se transformando em sentimentos mais reais. Realmente o Wladimir tinha razão. O Dr. da Bola, era um cara super simples, humilde, culto, com uma visão de mundo romântica, de muita personalidade, se tivesse exercido a medicina seria um médico que iria atender o mundo dos esquecidos.

Seu grande amor pelo Todo Poderoso era latente. Pediu uma quantia de dinheiro exageradamente alta para a Fiorentina com intenção de não sair do Corinthians A Fiorentina para a sua surpresa disse sim e ele teve que ir embora. Os jogadores à sua volta contavam sua experiência de como foi jogar ao lado do Magrão: Wladimir fala que foi o jogador mais inteligente tanto dentro do campo como fora dele. Diziam: Pô quando o jogo estava duro alguém gritava apavorado: Joga no Magrão. Sócrates sorri dizendo: É por isso que hoje tenho hérnia de disco. Todos sorriem. Não esconde o seu gostoso e cruel vício: “Quando eu morrer quero ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas num barril de chopp”. Mais risadas. Que desejo hilariante. Explica com simplicidade, tentando negar sua genialidade, a origem dos seus passes mágicos de calcanhar: É que eu era grande e até eu virar o corpo... Interrompi dizendo: Não Dr, você é um gênio. Eu já me sentia à vontade.

Conversamos sobre a fatídica derrota para a Itália na Copa de 1982. Aquele gol que você fez onde a bola passou entre a trave e o Zoffi? O que é que tem? Pô Magrão aquele gol foi uma pintura de Renoir. Ele achou engraçado a comparação e sorveu mais um gole de choop. A noite foi passando e o papo ia ficando cada vez mais livre. Perguntei: Como foi depois da derrota? O que sentiu? Sabe Persio a gente vive com a adrenalina a mil. A tristeza foi muito dura, a frustração de não chegar a um título mundial foi mais dura ainda. Iria coroar uma geração de ouro, o futebol arte. Fiquei dias sem dormir direito, e foi me contando o drama daquela derrota. A vida de qualquer artista é como um falso brilhante. Me deu a impressão que ele sentia que não iria ficar muito tempo nesse mundo. Continuei perguntando: Como foi jogar ao lado de Zico, Falcão e Cerezo? Me deu uma resposta poética: “ERA COMO JOGASSE AO LADO DE ANJOS”. Nos despedimos com palavras dos versos da música de Toquinho: “SER CORINTHIANO É IR ALÉM, É SER TAMBÉM, UM POUCO MAIS BRASILEIRO”. Valeu Dr. da Bola.

 

 

Persio Isaac

Persio Isaac

Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

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