O doce da vida

  • 19/09/2019 05:33
  • Jair Rodrigues Garcia Júnior

Recupere em sua memória aquele doce preferido da infância que sua mãe, tia ou avó faziam. Certamente se lembrou de algum. O fato é que, desde criança, somos apresentados ao sabor doce e isso estabelece um vínculo definitivo com funções do sistema nervoso central (SNC) e seus neurotransmissores (NTM).

NTM dopamina

A dopamina tem sua produção e liberação aumentadas quando experimentamos uma sensação de gratificação e recompensa. Obviamente essas sensações estão relacionadas ao prazer, por isso buscamos sempre repetir a experiência. Comer doces, dançar e fazer sexo, por exemplo.

NTM serotonina

A serotonina está relacionada com a fome, saciedade e estados de humor. A ingestão de alimentos aumenta a produção desse NTM e estimula a saciedade (alvo dos medicamentos anorexígenos - inibidores do apetite). Por outro lado, a restrição de alimentos diminui a serotonina, podendo causar ansiedade, agressividade e depressão. Dietas muito restritivas, por exemplo.

Fator liberador de corticotrofina (CRF)

Hormônio liberado pelo hipotálamo e relacionado às situações de estresse, fome e saciedade e, com estados emocionais negativos, como a ansiedade. Uma situação que estimula a produção e liberação do CRF é a retirada dos alimentos palatáveis da dieta. A consequência da maior liberação de CRF é o aumento da ansiedade e da compulsão por alimentos “gostosos”, em detrimento de opções mais saudáveis. Causada pela proibição de doces e alimentos gordurosos.

Homeostase energética

Diz respeito à manutenção das reservas energéticas corporais, principalmente de gordura. Assim, se você tem 10 kg de gordura (quantidade média normal para adultos) e mantém esse estoque por alguns anos, esse é seu valor de referência para o hipotálamo no SNC. Com 30 kg de gordura mantidos já há alguns anos, esse passa a ser o valor de referência para o equilíbrio de energia. Como seu SNC trabalha para preservar a homeostase energética, essa é uma dificuldade adicional para perda de peso.

Abstinência de bolo de chocolate

Um doce ou um prato salgado podem causar dependência assim como cigarro e drogas. Isso é possível em razão da neuroquímica do SNC resumida e simplificada acima. A repetição da experiência de gratificação e prazer com alimentos palatáveis durante anos acaba por sobrepujar os sinais de saciedade e fome. Isto é, comer deixa de ser uma necessidade fisiológica caracterizada pela fome, e passa a representar uma experiência de satisfação. Nesta condição, o consumo é fatalmente excessivo, levando ao acúmulo gradativo de gordura e à obesidade.

Dieta (semi)restritiva

A busca pela dieta “perfeita, eficiente, rápida e definitiva” continuará pelo resto da vida e sempre haverá novos “serial dieters”, aqueles que se submetem às dietas da moda, e as abandonam após um período, pois a restrição aos alimentos palatáveis se torna insuportável (abstinência). Em pouco tempo, repetem a tentativa com nova dieta, fazendo isso em série. Restrições absolutas de alguns alimentos estão entre as principais dificuldades para essas pessoas.

Mantenha o doce da vida

Mesmo que esteja empenhado em uma dieta, não deixe de aguçar as papilas gustativas da boca com aquele doce preferido da infância ou outro degustado já na idade adulta. Dieta com “dia do lixo” é uma bobagem, pois mantém as restrições absolutas, a ansiedade e mau humor na semana toda. Melhor seria se permitir pequenas “doses de prazer” todos os dias, seja na forma de uma fatia fina de pudim, de um brigadeiro ou de um saboroso café com chantilly.

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Jair Rodrigues Garcia Júnior

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Professor universitário e coordenador de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Unoeste.

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