O brincar e a realidade

  • 27/09/2019 04:16
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

A criança, fruto da contemporaneidade, está passando por um momento de extrema instabilidade emocional. O que presenciamos de forma efetiva é que algumas famílias possuem em sua dinâmica, grande intolerância às frustrações. A esperança está muito ausente na constituição familiar. O narcisismo normal e natural que possuímos no início de vida é benéfico até um determinado momento. Observamos uma insistente continuidade, já sendo exacerbada ou até nociva, estendendo-se até a vida adulta. Acredito ser uma das razões, muito evidente da dissolução instantânea dos casamentos, cujo resultado é a separação.

É a criança que está pagando “o pato”. São elas que mais sofrem com as constantes desavenças, conflitos explícitos, agressões físicas e verbais entre os pais. As crianças, desde a mais tenra infância, têm percepção de tudo que esta acontecendo ao seu redor. Pais imaginam muitas vezes, que elas não entendem nada e que são muito pequenas para ver e entender “coisas”. Ledo engano. Ela é perspicaz, perceptiva e absorve tudo. Adultos quando estão passando por problemas emocionais, buscam acolhimento, compreensão, autoconhecimento, vínculo afetivo e um consequente fortalecimento psíquico nos consultórios dos psicoterapeutas ou psicanalistas.

Comunicam-se através da fala, verbalizando seu sofrimento de alguma forma, ou seja, associando livremente. A criança é diferente. Muitas vezes, não consegue explicitar a sua dor falando. Sua expressão psíquica é através do brincar com o psicoterapeuta. É brincando que ela nos “conta tudo”. O atendimento à criança chama-se ludoterapia. É através do universo lúdico, que temos acesso ao universo inconsciente da criança. Ela comunica e expressa o sofrimento que está experienciando na pele, através dos desenhos, pinturas, jogos, brinquedos, etc. Brincando, conta-nos a sua realidade. Se estiver sofrendo porque os pais estão se separando, expressa essa vivência em seus desenhos, em sua forma de brincar e, na maioria das vezes, psicossomatizando.

A criança adoece, usando algum órgão do corpo para manifestar a sua dor. De alguma forma vai tentar chamar atenção: vomitando, febre, magreza patológica ou obesidade, insônia, agressividade na escola, baixo desempenho escolar, queda de atenção e dificuldade de concentração. Aqui é importante salientar, o fato sobre o precoce diagnóstico da criança com TDAH (transtorno de atenção e hiperatividade). É frequente encontrarmos crianças, já rotuladas e medicadas com a Ritalina (metilfenidato).

Rotular crianças poderá trazer grandes malefícios para seu futuro. Crianças mal diagnosticadas, não desenvolverão, tampouco evoluirão em sua construção de vida. É preciso saber discernir e reconhecer quando as crianças estão fragilizadas e desestabilizadas devido aos problemas emocionais vivenciados junto à família. Seu comportamento modifica e muito.

Em ludoterapia, as crianças poderão expressar de alguma forma seus problemas, seus traumas e sintomas, como: ansiedade, depressão, fobias, tiques, conflito edípico, os abusos sexuais pelos quais estão vivenciando. Precisam extravasar suas angústias. Necessitam de um espaço, de acolhimento, de compreensão, interpretação de seu problema; alguém precisa fazer uma leitura de seu sofrimento.

Os psicoterapeutas absorvem o problema da criança, considerados por elas como um terror sem nome ou aniquilador, e devolvem para elas, transformado e suavizado. Caso contrário, o problema vira uma bola de neve que vai tornando-se muito grande. Vão somando-se todos os problemas da infância, pré-adolescência, adolescência, e a consequência são as dificuldades para amadurecer e assumir os reais papéis da vida adulta. Então se repete tudo, porque nada foi elaborado.

Em síntese, se a criança com muitos problemas na infância não conseguir obter um espaço de acolhimento e compreensão, para elaboração de suas angústias, será o adulto que atenderemos no futuro. Teremos então, que tratar a criança que habita o adulto e que não o deixa alcançar a sua maturidade.

Certa vez, uma criança em atendimento, pedia-me socorro. Expressou-se através do desenho. Ela se desenhou bem pequenininha sentada em uma gigantesca poltrona. A sala era enorme. Dizia ser a sua casa, do seu lado um gatinho. Também desenhou uma lâmpada que iluminava tudo, que a pintou de dourado.

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