Neurotecnologias ou neuroparanóias?

  • 02/05/2019 07:10
  • José Renato Nalini

Crianças hiperativas são mantidas sob controle com medicamentos. A falta de concentração também é alvo de atenção e substâncias específicas são ministradas aos alunos que têm necessidade de submissão aos árduos testes para a obtenção de vagas em estabelecimentos de renome.

Aqui no Brasil, diagnostica-se patologia mental com certa celeridade, pois é difícil fazer crer que os seres humanos são heterogêneos, singulares, irrepetíveis. É científica a constatação de que os ritmos de aprendizagem são distintos e que um pouco de paciência, empenho e devotamento, podem solucionar questões aparentemente insolúveis. Já o carimbo lançado ao educando, qualificando-o como doente, pode ser um estigma irremovível.

A sociedade competitiva impõe automatismo ao ser humano, que já não dispõe de tempo – nem quer – meditar, refletir, pensar sobre o sentido da vida e tentar responder àquelas questões irrespondíveis: por que nasci? O que estou fazendo aqui? Haverá vida após minha partida? Ou tudo acabará na minha volta ao pó, do qual provim?

A ciência é inflexível em suas descobertas. Para Oliver Oullier, presidente da Emotiv, nos Estados Unidos, “a categoria neurotecnologias descreve um amplo conjunto de abordagens que oferecem poderosos insights sobre o funcionamento do cérebro humano, que nos permitem extrair informações, expandir nossos sentidos, alterar comportamentos e interagir com o mundo”. Poderia parecer ficção científica, mas não é.

Não é novidade enxertar chips no cérebro ou eletrodos no crânio, dispositivos de eletroencefalograma não invasivos que monitoram as ondas cerebrais e os sinais elétricos do exterior do crânio. Já não é impossível detectar e interpretar pensamentos e intenções mediante a emissão de sinais físicos e movimentos corporais.

Nem tudo o que é possível, todavia, seria eticamente desejável. O ser humano é um complexo de corpo e espírito, um repositório de sentimentos que vão da satisfação ao desprazer, da alegria à tristeza, da calma ao desespero, da sensação de bem-estar à mais profunda angústia.

A neurotecnologia nos ajudará a recuperar a fé, a esperança e o amor? Se ela não atender também a tais finalidades, poder-se-á perquirir se vale a pena investir vultosos recursos financeiros em pesquisas, enquanto seres humanos continuam a morrer de fome ou por falta de assistência médica.

O mundo avança em sofisticação científica, mas nem sempre isso vai se refletir no incremento da solidariedade, do espírito fraterno, do respeito à dignidade do semelhante, muito embora este seja o princípio norteador do ordenamento brasileiro hoje vigente.

 

 

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José Renato Nalini

José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e presidente da Academia Paulista de Letras .

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