Não quero lhe falar meu grande amor

  • 25/08/2019 06:04
  • Persio Isaac

"Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe falar como eu vivi, e tudo que aconteceu comigo..." - Belchior.

Estava sentado sozinho no Teatro Bandeirantes em São Paulo, ansioso para assistir o show “Falso Brilhante”, com Elis Regina e o pianista, arranjador, maestro, Cesar Camargo Mariano e os músicos: Nenê na bateria, Natan e Crispin na guitarra e violão e o baixista Wilson Gomes.

Eu tinha 22 anos, era estudante de Psicologia. Meu professor de sociologia nas suas aulas falava de socialismo usando sapatos de cromo alemão. Eu não era muito ligado em política. O samba de Paulinho da Viola era mais verdadeiro.

O teatro estava lotado, o ano era 1976, o cenário era circense, os músicos fantasiados de palhaços, o nome desse histórico show foi tirado do bolero composto por João Bosco e Aldir Blanc:

- “Dois pra lá, Dois pra cá”. Elis quebrou paradigmas nesse show, apresentando compositores novos, arranjos diferentes, músicas de letras reflexivas; e sua voz de mezzo soprano era o orgulho de Deus.

Quando ela começou a cantar esses versos de um compositor cearense, meus ouvidos foram seduzidos:

- “Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos”...

Esse compositor de nome Belchior retratava a realidade de uma juventude que ainda vivia como nossos pais. Sua visão de mundo era amiga da realidade, “viver é melhor que sonhar”, dizia um dos versos dessa música emblemática.

Fiquei pensativo. Elis cantava com a alma, sentindo demais essa canção, como um grito de alerta que acordou meu coração sonhador. A minha apatia estava com medo de ser descartada pela indignação que estava nascendo em cada verso dessa canção. Gracias a la vida que tanto tem me dado.

Saí do show sentindo que tinha muitos irmãos na América do Sul, cheio de solidariedade, cada um com seus sonhos, cada um com seus trabalhos. Gente de mãos quentes, com a esperança adiante e as lembranças pra trás. Uma irmã, menina moça, que se chamava Libertad, me incentivou, me fez acreditar na existência dourada do sol. Uma nova mudança em mim estava para acontecer. A velha roupa colorida já não me servia mais.

Nesse mesmo ano, Belchior lança seu LP, “Alucinação” e o magnífico sucesso que sua música “Como Nossos Pais” estava fazendo conquistou a juventude na voz de Elis Regina e impulsionou sua carreira como uma potente locomotiva. A genialidade de Belchior, sua poesia, seu estilo próprio, seu talento, suas músicas, sua história, sua coragem, tornou-se um símbolo para a minha geração: Era o poeta de uma geração desiludida, amarga, que tinham depositado seus sonhos nos Beatles e nos Rolling Stones, esquecendo que um samba vai bem melhor que um blue. Éramos omissos rapazes latinos americanos, sem dinheiro no bolso, sem parentes importante e vindo do interior.

Comecei questionar meu professor de sapatos de cromo alemão. O sonho tinha acabado? Então vamos sonhar novos sonhos? Vamos cantar novas canções? Vamos amar e mudar as coisas? Vamos ter que gostar de política? Por que não? Ela é essencial nas nossas vidas:

- “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...” (Vandré)

Não vamos olhar somente para a cruz, os vivos sempre governaram os menos vivos. Vamos tomar cuidado com as ideologias mentirosas, gente sem ética, sem moralidade vão se esconder atrás de discursos sonhadores embaladas em palavras doces, nos iludindo com falsas esperanças. A traição virá, não saberemos quando, mas ela virá. Não vamos defender corruptos como se eles fossem ídolos do nosso time do coração. Vamos pegar o açoite e varrer os insensatos que se julgam e sentem “deuses” vestidos em longas togas pretas envergonhando a justiça, se vendendo como prostitutas nos porões da ganância. Não se esqueçam:

- Que democracia é essa?

Os anos se passaram e o destino me presenteou, o poeta da minha geração, Belchior, estava em Prudente para um show no Teatro César Cava. Fui um dos patrocinadores. Agradeço ao André Coelho. Ele sabia que eu era um grande fã desse gênio. O André tinha um projeto musical, “Acorde para Ouvir”, conseguimos trazer o Belchior para a nossa aldeia.

Lá estava eu novamente ouvindo e cantando a canção “Como nossos pais”. Fomos jantar no Tachino Restaurante depois do show, ficamos até de madrugada conversando. Conheci um homem sereno, humilde, culto, filósofo, que recitou o poema “Via Láctea”, de Olavo Bilac, seu poeta preferido, com todos os seus 35 sonetos, para o delírio do amigo Tiago Marcondes.

Um homem que não estava interessado em nenhuma teoria, nem em fantasias, nem no algo mais, sua alucinação era retratar o dia a dia do cotidiano brasileiro, suas experiências eram com coisas reais. A vida para ele era uma divina comédia humana onde nada é eterno, nada é misterioso, nada é secreto. Acreditava na paixão, na filosofia e na pintura.

Nós nos despedimos com um abraço sob a luz pálida da lua, na madrugada, dessa noite memorável. Agradeci dizendo: “Não estou mais angustiado como um goleiro na hora de um gol”. Belchior sorriu. Muitos anos depois, Belchior morreu dormindo ouvindo música clássica, deixando seu legado cultural, artístico para o mundo.

 

 

Persio Isaac

Persio Isaac

Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

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