Não, mas

  • 17/11/2019 04:31
  • Sandro Rogério dos Santos

Com os direitos humanos muito questionados, a truculência tomando cada vez mais espaço entre nós, aproveito a efeméride do Dia da Consciência Negra [20/11] para abordar superficialmente o tema do racismo partindo de alguns eventos.

Meu avô materno - descendente de escravos - nasceu em finais do século 19. Um baita negro. Viveu mais de 90 anos. Conta-se em ambiente familiar que uma de suas filhas (ele teve 24 filhos) não gostava de negro. Ele dizia-lhe: “você vai pagar a sua língua”. A tia se casou com um negro e gerou lindos filhos negros. Nem pensar que essa tia seja racista!

A senhorinha descendente italiana não era muito contente do filho ter-se separado da esposa. Menos ainda de ter arranjado uma nova companheira. Com o tempo acostumou-se. Dizia de sua nova nora: “é uma pessoa muito boa, só não é muito clarinha”. Longe de nós pensar que a nonna fosse racista.

O falecido jornalista Paulo Henrique Amorim foi condenado por injúria racial após dizer que Heraldo Pereira – primeiro jornalista negro a apresentar o “Jornal Nacional” – era um “negro de alma branca”. Por isso, subiu na carreira. Amorim dizia-se não racista.

O ator Paulo Betti foi acionado na Justiça pelo também ator Milton Gonçalves por ter manifestado via WhatsApp uma ideia racista: “A atual diretora do sindicato está lá há muito tempo e tem uma forte representação negra com Jorge Coutinho e o grande Milton Gonçalves, além do querido Cosme. Isso complica bastante a luta, pois pode confundir as coisas”. Betti afirma não ser racista.

Nossa sociedade foi construída por meio da escravidão e o racismo é infelizmente um dos grandes problemas

Dois torcedores do Atlético-MG  - os irmãos Adrierre (37) e Natan Siqueira Silva (28) - acusados de cometerem crime de racismo contra um segurança do Mineirão, no Deoesp (Departamento de Operações Especiais) da polícia mineira, tentaram se defender: “De forma alguma, tanto é que eu tenho irmão negro, tenho pessoas que cortam o meu cabelo há dez anos que são negras, amigos que são negros. Isso não foi da minha índole, pelo contrário”. Não são racistas.

No Dia da Consciência Negra, podemos tomar consciência do racismo que nos cerca e nos posicionar por mudanças e um país mais justo. Nossa sociedade foi construída por meio da escravidão e o racismo é infelizmente um dos grandes problemas da sociedade brasileira. Talvez esteja mais presente em nós do que gostaríamos de aceitar.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

 

 

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Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos é pároco do Santuário Diocesano Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, situado no Jardim Maracanã, em Presidente Prudente.

Contato: padre@santuariosantateresinha.com

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