Mostra fotográfica coloca em discussão padrão de beleza

"White Face And Blonde Hair" produzida em 2012 na famosa Rua Oscar Freire, na capital paulista, é da artista visual Renata Felinto e está à disposição para ser visitada no Sesi do Furquim

OSLAINE SILVA • 27/02/2018 12:39:31

. Foto: Divulgação/Crioulla Oliveira, "Atores negros não fazem isso em relação, então farei", pensou Renata

"White Face and Blonde Hair", uma exposição fotográfica que coloca em discussão o padrão de beleza caucasiano e nórdico adotado pela sociedade brasileira, ainda que metade de sua população se autodeclare afrodescendente, e traz à tona as histórias e hoje esquecidas tentativas de branqueamento da população, -

poderá ser apreciada pelo público em geral até 29 de março no Sesi do Furquim em Presidente Prudente. A entrada é gratuita. A mostra faz parte do projeto Exposições Itinerantes do Sesi-SP. A visitação é gratuita e pode ser vista de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h30, e aos sábados, das 9h às 12h30.

Travestida com uma peruca loira e o rosto pintado de branco a própria artista visual, Renata Felinto, é quem aparece nas imagens. Segundo ela, este trabalho foi produzido em 2012 como uma crítica em resposta aos vários personagens de humor presentes tanto na televisão quanto no teatro, interpretados por atores e atrizes de cor branca que se pintavam de preto, para se caracterizar como se fossem uma pessoa negra.

“O problema é que esses personagens, geralmente, estão em programas humorísticos satirizando a população negra a partir de estereótipos que o outro, o branco, colonizador, pessoa num lugar hegemônico, lugar dominante na sociedade imputou a nós negros como se fossem características próprias biologicamente do ser negro. Então, esses personagens usam os recursos como o jeito de andar, de falar, de sorrir no teatro chamado blackface, ou seja, cara preta, que é um tipo de máscara tradicional dessa arte, geralmente satiriza a população negra nos colocando em uma situação ridícula”, pontua Renata.

Segundo ela, na época, o “Zorra Total” da Rede Globo exibia uma personagem chamada Adelaide que ia aos vagões do metro perguntando por seu filho desaparecido. Ela não tinha dentes e demonstrava ser uma pessoa bem pobre que, inclusive pedia dinheiro. E no Pânico na Band tinha outro personagem, o Africano.

Isso lhe chamou a atenção naquele ano de 2012, humoristas, pessoas brancas, que faziam uso desse recurso em rede nacional para fazer rir, pelo simples fato de ser negro ou ser africano. “Foi quando pensei, engraçado atores e atrizes negras não fazem isso em relação ao branco, então vou fazer. Então pensei no que seria em nossa sociedade, o ápice do ser branca, loira, alta, magra, fútil, afetada, rica e pouco inteligente e caracterizada dessa forma com o white face, o rosto branco, fui tomar café, ver roupas em lojas na rua mais rica do Brasil, a Oscar Freire”, enfatiza a artista.

 

Bons olhos

Renata destaca que esse trabalho é uma crítica ácida a esse recurso que tem sido largamente empregado para estigmatizar a população negra. E ressalta que a recepção do mesmo é sempre bem positiva no sentido das pessoas pensarem nessa inversão de estereótipos. Ao mesmo tempo o trabalho manipula outras questões como padrões de beleza, de consumo, social, socioeconômico que são colocados em discussão.

Ela menciona que a exposição já passou por vários lugares, como os últimos no Itaú Cultural que fica na Avenida Paulista e no Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro. “Esse trabalho de circulação do Sesi por diversas cidades do interior paulista é maravilhoso. Espero que os prudentinos gostem. Minha produção de arte fala muito sobre o que me incomoda socialmente e de forma geral esses meus incômodos são pelo fato de eu ser uma mulher negra, do Brasil e mãe. Então chamam a atenção por essas questões que passam pela noção de identidade, sociabilidade, de estética, de beleza. Trabalhos feitos com o intuito de fazer a pessoa que observa refletir um pouco sobre sua própria condição ou ter um olhar mais sensível para a condição do outro, que muitas vezes pode ser o oposto que é essa pessoa, se pensarmos em um homem branco olhando meu trabalho”, acentua.

Renata diz que gosta muito de cor, brilho, e o afro retrato é um trabalho de pintura e técnica mista que envolve muito a experimentação de materiais, mas ultimamente ela tem trabalhado muito com fotografia e performance, como esta exposição e outras como “Danço na terra em que piso” e também com várias composições de notas fiscais, um trabalho chamado “Embalando Matheus”, que fez agora.

 

Reflexões

De acordo com Hilda Pereira de Sousa, agente de atividades socioculturais da unidade prudentina do Sesi, a proposta leva a diversas leituras, a várias reflexões, como: a questão do padrão de beleza, a mulher tem que seguir um padrão? Em relação ao preconceito, ao racismo. Ainda existe isso no Brasil? Às vezes a pessoa pensa em mudar para ser aceita pela sociedade. No mês da mulher, a proposta bem apropriada para a ocasião.

Ela vai narrando o que vê nas fotos sequenciais: imagens de Renata clareando a pele, depois fazendo uma maquiagem bem elaborada, colocando uma peruca loira, usando roupas elegantes, colar, leque, óculos de sol da moda. Ou seja, a artista vai se colocando na posição das “consumidoras da Oscar Freire”. Tem uma imagem que ela diz achar muito interessante em que é perceptível que a artista está sendo admirada. Em outra ela está tomando um café em um lugar muito chique. Lendo uma revista. Caminhando com muito charme pela rua famosa. Bem, uma mulher linda maravilhosa, loira, branca.

“Essa é a proposta do ensaio fotográfico que Renata fez: esse é o padrão de beleza que a mulher brasileira deve ter? Ela tem que ser alta, magra e loira? Penso que podemos interpretar que todas as pessoas possuem beleza natural, interior. E que para a felicidade plena, primeiramente precisa estar feliz com você mesma para que os outros enxerguem isso. Entendo que a beleza é de dentro para fora. Se você está bem, automaticamente se cuida melhor. Convido todas as pessoas para apreciarem esse trabalho e poderem refletir sobre essas questões da mulher: a mulher esposa, a mulher mãe, a mulher que trabalha fora, etc. E o Sesi mostrando a diversidade brasileira, a fotografia enquanto arte e instrumento de reflexão”, convida a agente cultural.

 

Dom da arte visual e escrita

Renata Felinto (1978) é bacharel, mestra e doutoranda em Artes Visuais pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) em São Paulo. Trabalha há 11 anos com arte e educação em museus e espaços culturais. De 2004 a 2011 atuou no Museu Afro Brasil como coordenadora do Núcleo de Educação. Publicou e organizou diversos artigos e livros; planejou e ministrou cursos, eventos e palestras; organizou e participou de diversas exposições. Desenvolve instalações e objetos e trabalhos em fotografia, pintura e desenho. Expôs no Brasil e no exterior; em 2012 recebeu o Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Cultural Palmares pelo desenvolvimento da série Afro Retratos.

Coordenadora do curso, hoje ela é professora na Urca (Universidade Regional do Cariri). Ela comenta que desde sua formatura tem procurado equilibrar a produção de artes visuais com a escrita. Pois, para ela é como se uma complementasse a outra. Algo meio global em que a pesquisa alimenta o que ela cria. Ou vice versa. “Acho a arte uma área do conhecimento fundamental ao ser humano. Dizem que a Medicina é que salva vidas, mas acho que a arte fundamentalmente trata a sociedade, na medida que ela aciona outros sentidos e nos proporciona outras formas de aprendizagem, observação e reflexão, e mesmo apreciação do mundo no qual nós vivemos”, frisa.

Renata diz saber que muitos artistas falam de questões mais formais, estéticas, sobre cor, fundo, plano, mas para ela a arte é sim uma área que mobiliza o cidadão comum a pensar sobre si e o mundo em qual está inserido.

“Acredito na arte como produção de pesquisa e criação que se restringe a academia e eu tenho feito esforços para cada vez mais escrever de uma maneira para que quem esteja na sala de aula, na academia ou vai ler em um jornal possa compreender o que quero dizer. Como também tenho feito trabalhos que expressem um anseio que não seja só meu, mas que sem dúvida passam por mim. Como pessoa negra e socialmente faço parte de um segmento étnico racial que por muito tempo não é contemplado por uma série de demandas e necessidades públicas, acho fundamental que a arte seja um lugar onde eu possa falar disso com segurança, com liberdade, afim de que outras pessoas possam se sensibilizar a essas questões”, completa a artista visual brasileira, negra e mãe.

 

Serviço

“White Face and Blonde Hair”

Local: Sesi – Avenida Ibraim Nobre, 585 Parque Furquim

Datas e horários: até 29 de março – segunda a sexta, das 8h às 19h30h, e aos sábados das 9h às 12h30.

Informações: (18) 3901-8119

Entrada gratuita

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