Lembranças dos anos dourados

  • 18/08/2019 05:55
  • Persio Isaac

Tem gente que pensa que tem mil coisas, todo o bem ou todo mal do mundo.

Eu só tive você. Não te perderei, não te deixarei, nem procurarei novas aventuras...

Gosto muito desses versos poéticos da música italiana, “Io Che Amo Solo Te”, do cantor e compositor, Sergio Endrigo. Estava escutando essa belíssima canção, quando as lembranças de um tempo distante chegaram acariciando meu coração, tocaram em minhas mãos, estavam trêmulas, estavam sentindo saudades. Não gostam do esquecimento. Quem é que gosta? Não serem recordadas, é como jogá-las nas noites frias do deserto da solidão. Me levaram ao um grande salão de recordações. Olhei os vários quadros de lembranças pregadas na parede da minha memória. Escolhi os anos 60, os anos dourados. Assim que toquei nesse quadro, várias lembranças, sentimentos que senti, sonhos que sonhei, desejos saíram, trazendo de volta minha juventude. Estou com 18 anos? Que mágica é essa? A saudade sempre deixa um caminho para voltar e eu voltei. Vocês não acreditam, estou trajando uma calça azul de tergal feita no seu Garrido alfaiate, boca de sino, sapato preto com saltos plataforma, camisa branca de manga comprida com o colarinho largo e longo chegando até os ombros. kkkk, que baiano, cafona, que moda era essa? Mas na época era o tchan. Bom, como nem tudo são flores, uma lembrança vem se aproximando na qual não gosto. Tentei por diversas e inúmeras vezes esquecê-la, mas ela é dura na queda: A ditadura dos cabelos lisos. A gente andava sempre em turma, a moda era uma só, os costumes estavam mudando, amávamos os Beatles e os Rolling Stones e os cabelos tinham que ser lisos de nascença, infelizmente para mim. O símbolo maior dos cabelos lisos era Ronnie Von. Galã dos Galãs, cabelos pretos, compridos e lisíssimos. Aquele movimento que ele fazia, quando cantava os versos da música “Meu Bem”, todos se lembram? Maldito, quantas vezes tentei fazer os meus cabelos se sentirem livres, soltos, iguais passarinhos e nenhum fio se mexia. Quase quebrei o pescoço tentando  jogar os cabelos para os lados imitando esse galã de outras galáxias. Ah meu bem! Meu bem! Queria o que? És um cabelo ruim. Deus não foi generoso, me condenou a ser um escravo no uso da insuportável “touca”. Horas e horas com aquele castigo na cabeça, movimentos circulares se escondendo no banheiro, no quarto escuro debaixo da cama, esperando o milagre chegar. Coitada da minha mãe, tentava me dar esperança dizendo: Filho como seu cabelo ficou liso, parece até do Ronnie Von. Doce mentira. Tinha medo que eu me jogasse debaixo do primeiro ônibus que passasse da empresa Brasília. Meu cabelo parecia que tinha sido passado por um ferro quente de passar roupa. Isso sim que era tortura. Uma chama de revolta queimava os corações dos queridos amigos, Alceu Macuco e Nelito. Resolvemos nos rebelar criando o lendário conjunto musical, os Cabelos Ruins. A estreia e o fim desse injustiçado conjunto foi no aniversário do Ricardo Peretti, outro símbolo prudentino dos cabelos lisos. Que inocência a nossa, estrear na casa de um cabelo liso. O único momento especial foi quando a Silvia Helena (in memorian), a Marylin Monroe prudentina, entrou no porão da casa do Alceu, onde os revoltados cabelos ruins ensaiavam e pediu pra cantar “The look of Love”. O Alceu ficou gago, eu mudo e o Nelito surdo. Começamos a acompanhá-la vidrados na sua sensualidade. Ela com uma voz pra lá de sensual, num tom intimista, começou a cantar: “The Look of love/ is in your eyes”... Que momento sublime né Alceu e Nelito, naquele instante mágico o infinito teve um fim. Ela era muito especial, uma musa inspiradora. Bom, agora está na hora de você ir embora, lembrança puxa saco dos cabelos lisos. Opa, as brincadeiras dançantes da Apea vão começar. Os Sombras de Pelezinho começam a tocar, Reflexions of my live: “Oh, my sorrows/sad tomorrws/ take me back/ tom my own home... Todos estão à espera do José Luiz e da Nancy Escoboza. Eles que abriam o espetáculo. Zé Luiz, nosso Fred Astaire. Como era legal ver os dois dançarem, pareciam que dançavam nas nuvens. Que elegância. Rapaz, olha os bonitões chegaram: Celso Oishi, Rodrigo Arteiro conhecido como The Hammer, Vado Leal, Marco Antonio, conhecido como Cebola, José Roberto Marcondes e Marcos “Brad Pitt” Ceravolo, todos queridos amigos. Agora vocês imaginem um cabelo ruim andando com essas feras, não sobrava nada kkkkk. Cadê a Cristina Miranda? Será que a Eliane Ceravolo chegou? Ih, o Marco Júnior tirou a Cristina pra dançar. Agora é só sábado que vem. Esse cara parece um maratonista de salão, roda o salão inteiro por dias e não cansa. O pior é que todas as meninas adoravam dançar o quadradinho com ele. Uma linda lembrança chega, é a linda música composta pelo guitarrista dos Sombras, Júlio Júnior. Vamos cantar junto com a voz rara de Pelezinho, a Anna Maria Rotta adora: “Olha a menina/veja como é lindo/ o céu cheio de estrelas/ nesse mar sorrindo.... Bela lembrança. Palmas eternas para os Sombras. Gente, aconteceu um milagre, a Cristina está sentada na cadeira. O que será que aconteceu? Será que maratonista de salão foi ao banheiro? Vou ter que ser mais rápido que o Usain Bolt. Mas que sorte, essa lembrança foi muito generosa, chegou na hora certa, a música que a Cristina mais gosta está tocando, “Roberta”, de Peppino de Cappri. Chego ofegante e peço para a Cristina me dar o prazer de dançar. Ela sorri. Assim vou deixando a minha mocidade e um grande pedaço do meu coração nesse salão de recordações dos anos dourados:

Roberta ascoltami

ritorna ancor ti prego

Con te

ogni istante

era felicità...

 

Persio Isaac

Persio Isaac

Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

PUBLICIDADE