Cotidiano

Jornalistas influentes exaltam o papel da imprensa na atualidade

A imprensa é uma instituição social. Vista dessa forma, pode ser entendida como resultante dos processos pelos quais a sociedade civil dialoga consigo mesma em relação ao poder, “tematizando o poder, lançando pontes que permitem a interlocução da sociedade com o próprio poder, geralmente cristalizado no comando do Estado”. A opinião é do jornalista Eugênio Bucci, formado também em Direito, ambos pela USP (Universidade de São Paulo), onde obteve o doutorado e é livre-docente. Foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007, e é autor de livros sobre jornalismo, além de articulista. Em entrevista

  • 20/10/2018 06:11
  • Contexto Paulista

Jornalistas influentes exaltam

o papel da imprensa na atualidade

A imprensa é uma instituição social. Vista dessa forma, pode ser entendida como resultante dos processos pelos quais a sociedade civil dialoga consigo mesma em relação ao poder, “tematizando o poder, lançando pontes que permitem a interlocução da sociedade com o próprio poder, geralmente cristalizado no comando do Estado”. A opinião é do jornalista Eugênio Bucci, formado também em Direito, ambos pela USP (Universidade de São Paulo), onde obteve o doutorado e é livre-docente. Foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007, e é autor de livros sobre jornalismo, além de articulista. Em entrevista à ANJ (Associação Nacional de Jornais), Bucci adverte contra a tendência de exclusão do jornalismo do debate político.

 

Mediação na sociedade

Bucci acredita que na imprensa, a objetividade é produzida pelo diálogo (e não apenas pelo embate) das várias versões, dos vários critérios, das várias leituras possíveis dos fatos de domínio comum. “A intermediação, aí, é imprescindível e insubstituível. Essa intermediação precisa passar por instâncias relativamente independentes em relação aos grupos que disputam diretamente o poder. Aí é que entra o papel essencial da imprensa. Só ela pode proporcionar esse tipo de mediação. Não que ela seja o critério final da verdade. Não é. Ela é apenas indispensável para a qualidade do debate público. Sem ela, não há democracia”.

 

Regulação pelo mercado

Bucci também se posicionou sobre o conceito de regulação da imprensa. O mercado em que atuam os meios de comunicação não apenas pode, como deve e precisa de regulação. “É assim nas grandes democracias que aí estão. É assim há muito tempo nos Estados Unidos, na França, no Reino Unido, etc.”, afirma. Regular o mercado, para Bucci, não é regular o conteúdo. Regular o mercado é proteger o conteúdo contra interferências estatais nos conteúdos. “No Brasil, por exemplo, como o Estado pode ser anunciante, e como não há limites para o que o Estado anuncia, muitas vezes a autoridade pública tenta cooptar editores com base em pressões típicas de anunciantes. Isso é a selva. Isso não é democracia”.

 

Independência

“A imprensa pode ser independente na exata medida em que não depende, para existir, dos favores, das permissões ou da sustentação financeira vinda do Estado”, afirma Bucci. “A imprensa é mais independente quando a sua sustentação provém diretamente dos cidadãos que compõem a sociedade”.

 

Frase

“A democracia precisa suportar a mais radical liberdade de expressão. A democracia deve assegurar esse direito. Tudo pode depois ser discutido na Justiça, é claro. Mas nunca a violência deve ser admitida como limitadora, como um “mas”, diante desse valor supremo que é a liberdade de expressão”. (Eugênio Bucci).

 

Qualidade melhorou

Tom Rosenstiel, do Instituto Americano de Imprensa, é um veterano jornalista e pesquisador das tendências da imprensa. Ele co-editou o livro A nova ética do jornalismo, que examina o estado atual da imprensa e as perspectivas que estão surgindo. Em entrevista ao jornalista Luis Fernando Silva Pinto para o programa Milênio, na Globonews, ele defende a ideia de que o meio ambiente jornalístico passou de informativo para informativo e participativo. “O jornalismo é uma disciplina de verificação. A coisa mais importante que o jornalismo nos dá é uma base de fatos precisos. Eu atribuo meu próprio significado à notícia, mas preciso saber o que de fato aconteceu”.

 

Ética e cidadania

“Acredito firmemente que os cidadãos continuam querendo as mesmas coisas do jornalismo”, afirmou Rosenstiel. “Portanto, as responsabilidades que os jornalistas têm para com eles são as mesmas. Em outras palavras, eu quero que você me diga a verdade. Eu preciso saber que você verificou os fatos e que eles são precisos, não apenas literalmente, mas que você os contextualizou, que eles são verdadeiros. Quero que você seja independente, quero saber que não é um agente secreto para um determinado partido político, que, se disser que acha tal coisa, que realmente ache, e que você esteja fundamentalmente do meu lado, do lado do seu público, acima de qualquer outra filiação”.

 

Otimismo

O jornalista americano acredita que seus colegas “estão melhores” em relação a décadas passadas, assim como as ferramentas. “Nossa capacidade de explicar é muito melhor”. Segundo ele, “se fizermos nosso jornalismo não para jornalistas, mas sim um produto que ajude as pessoas a melhorarem de vida, que lhes dê mais poder, que as torne mais informadas, o jornalismo vai melhorar e as pessoas vão dar um jeito de pagar por ele”. Ele projeta uma imprensa “muito mais responsiva e que perceba”. Por isso, ele aposta que a qualidade do jornalismo nacional que os países terão vai melhorar. E projeta: “Haverá uma guerra entre cidadãos que querem usar a tecnologia para aprender e instituições poderosas que querem usar a mesma tecnologia para persuadir. Essa é uma outra forma através da qual os cidadãos vão salvar o jornalismo, por causa da forma como pessoas muito jovens e também os pobres, os mais carentes, os imigrantes, pessoas que não têm poder, vão querer usar essa tecnologia para se erguer”.

 

Íntegra

As duas entrevistas podem ser lidas na íntegra no site da APJ (Associação Paulista de Jornais) - www.apj.inf.br