Imprudência ou irresponsabilidade?

  • 01/10/2019 04:32
  • José Renato Nalini

Uma das poucas coisas de que o Brasil pode se orgulhar é a seriedade com que tentou cuidar das finanças públicas. Compreende-se que um Estado provedor, que se compromete a satisfazer todas as necessidades de seu povo, fica em situação difícil numa era em que os direitos são abundantes e os deveres escassos. É regra comum da economia que os desejos se reproduzem e se sofisticam, à medida em que são satisfeitos. Não há limites para os anseios coletivos, quando se cuida de exigir do governo o suprimento de todas as carências.

Só que um país que só gasta e não investe, chega um dia não consegue pagar a conta. Se existe algum espaço para a profunda reforma estrutural deste país desgovernado é o do funcionalismo público. A administração direta é ineficiente, dispendiosa e sobre ela paira a suspeita de corrupção. Mas é corrupção a ineficiência, a lentidão, o descompromisso, as faltas sem avisar, os horários que não são cumpridos, a falta de polidez ao atender ao patrão: o povo.

Lamentável que a tradição de permissividade no manejo das finanças públicas tenha voltado. O que mais cresceu entre 1995 e 2016, neste sacrificado território abençoado, mas punido com a falta de seriedade de seus políticos profissionais, foi a quantidade de servidores públicos. Em milhões, eram 0,95 funcionários públicos federais em 1995 e hoje são 1,2 milhão. No âmbito estadual, eram 2,9, hoje são 3,7. Em 1995, nos municípios, havia 2,4 milhões de servidores. Em 2016, são 6,5 milhões.

Não há Estado que consiga funcionar com esse excesso de funcionalismo. O argumento de que se utilizou o Parlamento para permitir que os gastos com pessoal ultrapassem os 60%, que já são um excesso, foi a queda de arrecadação. Mas esta é apenas um sintoma de algo muito mais grave: o Brasil não acompanhou a rapidez com que as tecnologias mudaram o mundo.

Não se sabe se foi imprudência, irresponsabilidade ou se já não há mais aquela criança que enxergue a nudez do Brasil e reponha as consciências a cuidarem com seriedade de um país que precisa recuperar vergonha, para responder aos desafios do amanhã.

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