COTIDIANO

Glicério e a imigração

  • 11/04/2019 04:56
  • José Renato Nalini

O campineiro Francisco Glicério não tem sido lembrado com a intensidade e devotamento compatíveis com sua importância na história do Brasil. Instituições culturais desta notável urbe, que hoje sedia a mais qualificada universidade pública paulista, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), deveriam realizar semanas de estudo e debates para recordar às novas gerações como é que se praticava a política nos primórdios da República. Há inúmeras facetas a serem exploradas na trajetória desse republicano hoje praticamente esquecido, embora eternizado em vias públicas de todo o Brasil. Uma delas, que encontra conotação com situações emergentes em todo o planeta, inclusive no Brasil, é o seu papel na República neófita, aberta à imigração europeia.

Glicério não quis ser ministro logo que se formou o Governo Provisório. Em reunião na casa de Aristides Lobo, ele e Quintino Bocaiúva distribuíram as Pastas. Os dois queriam que ele fosse o ministro da Agricultura, mas Glicério considerou que era necessário contemplar um gaúcho. Mencionou Demétrio Ribeiro, enquanto os demais indicavam Júlio de Castilhos ou Assis Brasil. Preponderou a opinião de Glicério. Mas Demétrio Ribeiro logo se desentendeu com o Marechal Deodoro e se tornou demissionário. Glicério teve de assumir o Ministério da Agricultura. Foi a única função que exerceu no Governo, seja na esfera federal, seja na estadual.

O novo ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas elaborou um relatório ao Presidente em 1890, documento eloquente de seu zelo com o tema imigração no Brasil, além de preocupar-se com a via férrea e navegação. Sua concepção sobre o imigrante precisaria inspirar os atuais responsáveis pela acolhida aos que fogem de seus países pelos mais variados motivos. O momento era outro. Os imigrantes substituiriam o braço escravo, recém-libertado. Para Glicério, “a alta influência econômica no suprimento de homens pela imigração estrangeira” é questão das mais sérias. “Não há problema mais vasto, mais complicado, mais cheio de interesse para a grandeza nacional”.

Reconhecia a imprescindibilidade de trabalho estrangeiro para o desenvolvimento do Brasil “encaminhada para o nosso país avultada corrente imigratória, que nos coadjuve eficazmente na utilização das nossas portentosas riquezas naturais, teremos louvado as bases de incalculável prosperidade. Este é o instrumento mais poderoso com que podemos preparar o futuro”. Sua visão sobre o significado de ingresso de uma legião de seres humanos no Brasil pós-Império e pós-Abolição é extremamente atual: “Não lhe bastam liberdade religiosa, instituições livres, direitos políticos leis e tribunais, para que a sua atividade lhe proporcione condições de bem-estar. É ainda preciso, é indispensável, que ele ache auxílios e facilidades de outra natureza, que o habilitem a colocar-se de pronto, já nas indústrias fabris, já na agricultura, segundo sua aptidão e seu desejo”.

Tal compreensão sensata e humanista em relação ao braço trabalhador era incompatível com a parcela de proprietários rurais que não viam o imigrante senão como um “escravo com salário”. Considerava o setor agrícola como o mais relevante para o Brasil, preocupava-se com o seu futuro, não só porque o presente parecia “cheio de sombras”, mas porque as novas gerações, na maior parte afeiçoadas “às comodidades que lhes advêm da carreira agrícola”, poderiam se descuidar de investir na modernização da lavoura.

Se a República tivesse atendido a Glicério, não teríamos sepultado a ferrovia em favor do automóvel, transporte egoísta e movido a combustível fóssil, responsável pela poluição e pelo aquecimento global. No mesmo relatório, o Ministro campineiro observava: “os 9.500 km de vias férreas que aproximadamente contamos em tráfego, ainda que não pouco estejam contribuindo para a atividade econômica e para a expansão da vida social por todos os seus aspectos, estão mui longe de satisfazer as necessidades de comunicação impostas pela vastidão do nosso território”. Não teve condições de implementar o plano geral de viação férrea e fluvial que ligaria entre si todos os Estados da União. Só esteve ministro por menos de um ano: de 31.1.1890 a 22.1.1891. E suas ideias, infelizmente, não vingaram.

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José Renato Nalini

José Renato Nalini

José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e presidente da Academia Paulista de Letras .

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