José Reis - Recém-chegada a Prudente, família estrangeira não tem planos de voltar para a Venezuela

Foto: José Reis - Recém-chegada a Prudente, família estrangeira não tem planos de voltar para a Venezuela

POR UMA VIDA MELHOR

Família venezuelana tenta recomeço em Prudente

Para fugir da crise no país de origem, Darwins, María Fernanda e seus três filhos atravessaram as trincheiras no final de março e conseguiram moradia na cidade

  • 13/04/2019 08:00
  • ANDRÉ ESTEVES - Da Reportagem Local

“Por muito tempo, não pensamos em sair da Venezuela, mas quando descobrimos que o Brasil poderia nos oferecer um lugar seguro, não hesitamos”, relata o agente ferroviário Darwins Suarez, 34 anos, cuja família recorreu ao fluxo migratório para o país vizinho a fim de escapar da crise econômica e política que afeta a vida da população venezuelana. Com o apoio de entidades sociais de Presidente Prudente, ele, a esposa e os três filhos, de 2, 3 e 8 anos, conseguiram se estabelecer em um imóvel do município, que, mesmo com móveis escassos, representa a esperança de recomeço após um período conturbado na nação de origem. Apesar da resistência inicial em buscar o refúgio, agora o casal não faz planos de voltar para casa – é em Prudente que os dois pretendem educar seus filhos e garantir um futuro promissor para eles. Ainda que estremecido, o orgulho pela antiga pátria perdura e pode ser entrevisto no papel de parede do celular de Darwins, no qual um brasão do país ocupa a tela inicial.

Empenhados em tornar a língua nativa compreensiva à reportagem, Darwins e sua esposa, a professora María Fernanda García, 35 anos, relembram o árduo caminho que precisaram percorrer até alcançar o novo destino. Com apenas as roupas do corpo e os documentos mais essenciais, a família deixou Caracas, capital da Venezuela, no final de março e iniciou a travessia para Boa Vista (RR), onde seria acolhida pela rede de voluntários que trabalha na área.

Uma vez que a fronteira entre a Venezuela e o Brasil foi selada pelo governo local, as crianças e seus pais tiveram que adotar rotinas alternativas – as chamadas trincheiras. Mesmo com as dificuldades, o trajeto foi bem-sucedido. Na capital de Roraima, foram submetidos ao processo de triagem e, em contato com um voluntário prudentino, conseguiram o auxílio do Projeto Esperança e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos membros destinaram uma casa para a família até que o casal se estabilize e tenha condições de arcar com o aluguel.

Escapando de Maduro

Darwins e María Fernanda contam que estavam bem na Venezuela, mas encontravam dificuldades para adquirir alimentos e conciliar o baixo salário do marido com o alto custo de vida oferecido pelo país. “Eu era profissional ferroviário e trabalhava no metrô de Caracas, mas minha remuneração não era suficiente para acudir todas as necessidades, como saúde, alimentação, transporte. Esta foi a principal razão que nos fez imigrar para cá”, afirma o patriarca. O espírito hospitaleiro da comunidade surpreendeu a família, que está lisonjeada com a atenção que as pessoas lhe voltaram e, inclusive, com o fato dos prudentinos usarem as palavras comedidamente para que consigam entendê-los.

A respeito das diferenças culturais observadas entre os dois países, o casal ficou fascinado com a limpeza das ruas e com o serviço de policiamento da cidade. “É um ótimo lugar para nossos filhos crescerem em segurança e terem um bom futuro, pois acredito que não encontrariam muito progresso na Venezuela. Não que lá não seja possível, mas o caminho é mais difícil”, avalia María Fernanda. Darwins acredita que a Venezuela é um país “com muitas possibilidades”, no entanto, lamenta que, em função do atual sistema econômico e político, sua cultura tenha se perdido e se desvalorizado. “Cremos que, em algum momento, a situação há de melhorar, mas, por ora, estamos felizes de estar aqui. Sentimo-nos em casa, tranquilos e com boas expectativas”, completa Darwins.

 

AJUDA HUMANITÁRIA

Entidades recebem donativos para refugiados

 

Refugiada da Venezuela, a família Suarez conseguiu um teto em Presidente Prudente por meio da parceria entre duas entidades que se reuniram para acolher imigrantes recém-chegados ao município. De acordo com o diretor do Projeto Esperança, Junior Baldez, o objetivo é auxiliar essas pessoas a encontrarem uma moradia e itens necessários para a sua subsistência, como roupas, eletrodomésticos, móveis e alimentos. “Queremos ajudá-las a reconquistar sua qualidade de vida, porque se tratam de indivíduos que tinham tudo na Venezuela, mas precisaram deixar para trás por conta do cenário socioeconômico do país”, expõe.

Junior explica que as instituições parceiras têm conhecimento das famílias que estão a caminho de Prudente, pois estas passaram por um processo de triagem em Roraima. “A comunidade não precisa ter medo desses imigrantes, pois são pessoas trabalhadoras e que estão apenas tentando reconstruir suas vidas”, comenta. O conselheiro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Élio Santelo, aponta que os voluntários contribuirão com o maior número de refugiados possível, conforme a necessidade e disponibilidade. Para ele, é importante que os brasileiros se unam neste ato de solidariedade, uma vez que diz respeito a seres humanos em situação de vulnerabilidade. “Nos preocupamos muito com essas pessoas. Alguém tem de acolhê-las e a igreja está pronta para isso. Toda a população é bem-vinda para cooperar”, convida.

Troca de culturas

Já instalados em uma casa do bairro Cecap, o agente ferroviário Darwins Suarez, 34 anos, e a professora María Fernanda García, 35 anos, agora vão atrás de incluir seus três filhos na rede municipal de Educação. Eles contam que procurarão uma escola das imediações para saber o que é necessário a fim de dar andamento às matrículas. Sobre esse assunto, a Seduc (Secretaria Municipal de Educação) informa que as crianças estrangeiras são atendidas pela rede mediante a solicitação feita por pais e responsáveis. O processo de adaptação e acolhimento é guiado pela pasta por meio de documentos orientadores enviados a todas as escolas municipais. Assim que o aluno chega a uma das unidades, o professor faz uma entrevista com o intuito de conhecê-lo e diagnosticar as suas necessidades pessoais e educacionais.

A secretaria informa que, além disso, há o processo de alfabetização na Língua Portuguesa e um trabalho junto aos demais estudantes com o intuito de promover a socialização e a troca de conhecimento entre os pares. A pasta complementa que a Escola Municipal João Sebastião Lisboa possui dois alunos advindos da Venezuela. Segundo a diretora da unidade, Adriana Agostinha Munhoz, ocorre ali uma “rica experiência para a troca de culturas e conhecimentos acerca de uma nova língua”. “Os alunos prudentinos relacionam-se bem com os venezuelanos e, muitas vezes, ajudam-lhes a conhecer novas palavras em português e a conhecer a nossa cultura”, pontua.

Assistência a postos

Também procurada, a SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) explica que não recebeu a procura de imigrantes venezuelanos até o momento. No entanto, informa que qualquer cidadão que esteja de passagem e não tenha onde ficar pode procurar o Centro de Acolhimento ao Migrante e População de Rua (antiga Casa de Passagem). Caso a família já tenha se estabelecido na cidade, também pode receber acompanhamento socioassistencial por parte das equipes dos Cras (Centros de Referência de Assistência Social).

 

COMO AJUDAR AS ENTIDADES NO ACOLHIMENTO DE VENEZUELANOS

Para doar móveis, eletrodomésticos, vestuários, alimentos, entre outros itens básicos, a população deve procurar os seguintes endereços:

- Escritório do Projeto Esperança, no Parque do Povo: Avenida Onze de Maio, 1.619.

- Sede do Projeto Esperança, no Jardim Guanabara: Rua Alberto Marochio, 563.

- Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: Rua Barão do Rio Branco, 1.173.