Paulo Miguel - Renato Júnior da Silva, de 36 anos, é diretor geral da clinica de reabilitação Acaiah, em Pirapozinho

Foto: Paulo Miguel - Renato Júnior da Silva, de 36 anos, é diretor geral da clinica de reabilitação Acaiah, em Pirapozinho

REABILITAÇÃO

Ex-usuário se dedica ao apoio a dependentes

História de Renato Júnior da Silva, de 36 anos, diretor geral da clinica de reabilitação Acaiah, em Pirapozinho, inspira ex-dependentes

  • 01/09/2019 06:32
  • MARCO VINICIUS ROPELLI - Especial para O Imparcial

São notórias as grandes dificuldades que permeiam os caminhos de um dependente químico reabilitado. A reintegração deste na sociedade continua rodeada de entraves e desconfianças. Agora, imagine um reabilitado que decide se dedicar aos cuidados e promoção de uma nova vida à dependentes químicos. Essa é a história de Renato Júnior da Silva, de 36 anos, diretor geral da clinica de reabilitação Acaiah, em Pirapozinho.

“Eu nasci em Pirapozinho, saí daqui com 17 anos, fui para São Paulo, fui trabalhar, morei em repúblicas, trabalhei muito em multinacionais, e acabei conhecendo clínicas em São Paulo. Tive internações por lá, em minha primeira internação eu lembro que fui involuntária e nessa ida eu comentei com um dos socorristas que tinha vontade de um dia cuidar de pessoas que tem problema com droga. Um deles deu risada, ele falou que muitos falam, mas poucos fazem”, recorda Renato, sentado em sua mesa de trabalho na quarta clínica que dirige.

Em todas as unidades, o diretor aplicou um método de trabalho que, segundo ele, é diferente de muitas clínicas, inspirado principalmente pelas experiências de maus tratos que viveu enquanto dependente. Para Renato, o respeito e carinho, aliado aos tratamentos psicoterápicos e participação em grupos de apoio, faz total diferença.

O paciente

Quem vê o paciente Sidnei Monteiro, de 34 anos, não imagina a situação que ele esteve. Depois de quatro meses de tratamento ele conversa com tranquilidade, demonstrando firmeza e convicções, características importantes para um adicto. “Eu vim para a clínica com ajuda da minha irmã. Eu estava na rua, jogado, usando crack, maconha, cocaína e álcool. Minha irmã me ajudou, entrou em contato com a clínica. Minha mãe, minha família já tinha ‘largado de mão’, eu perdi minha namorada, meu emprego”, relata Sidney.

Ele diz, se sentir bem agora, útil. Trabalha na cozinha da clínica e traça projetos para o futuro como quem descobriu a própria vocação. “Eu tenho planos de estudar, fazer faculdade de Gastronomia ou Arquitetura, gosto também de desenhar. Não sei se meus planos são os planos de Deus”, enfatiza o adicto.

O Tratamento

“Nossa equipe é composta por psicólogos, terapeuta holístico, enfermeiro, médico psiquiatra, para dar um suporte para esse indivíduo”, informa a psicóloga Renata Beltrame, de 24 anos. Para ela, o tratamento deve ser pensado, principalmente, para o retorno do paciente ao convívio social, de modo que este tenha equilíbrio emocional suficiente para não render-se à recaídas. “Eles saem daqui achando que estão prontos, que eles podem tudo. Que podem frequentar os lugares de antes, ter as mesmas companhias, e não. A gente precisa mudar os lugares, as companhias, mudar toda essa rotina, essa dinâmica que eles tinham todos os dias, e muitos não entendem. Então a gente propõe pra que eles continuem fazendo a terapia individual, frequentem os grupos de apoio que muitas cidades têm, tanto para os familiares, porque eles adoecem juntos por serem codependentes. E para o indivíduo estar sempre em reparação do dano que foi causado pela droga”, completa Renata.

A clínica Acaiah não é uma entidade filantrópica, entretanto oferece vagas sociais. “Eu me sinto mais ser humano. Lá fora ninguém dá valor a um ex-drogado, ninguém confia, ninguém dá oportunidade. Aqui eles dão esse voto de confiança”, destaca Sidnei com um sorriso no rosto.