COTIDIANO

Escola domiciliar

  • 16/04/2019 04:12
  • Arlette Piai

Canadá, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, após décadas de lutas, conseguiram a legalização da escola domiciliar, onde pais assumem a responsabilidade de ensinar seus filhos desde a alfabetização até o fim do segundo grau, ou seja, assumem toda responsabilidade da escolaridade dos seus filhos.  No Brasil, alguns raros pais aderiam a essa prática, e por ser ilegal, entraram com petição na justiça para fazê-lo. Os adeptos dessa modalidade consideram as escolas engessadas, inibem a criatividade, não formam pessoas pensantes, desestimulam o interesse de aprender, não oferecem método de estudo, nem estimula a reflexão. Por outro lado, o resultado da aprendizagem dos filhos das famílias que optaram pela educação domiciliar tem sido excelente em todo o mundo. Nas avaliações eles superam os melhores alunos das melhores escolas convencionais. 

Como disse um professor da Universidade de Harvard: “As pessoas mais interessadas na educação de uma criança são os pais dela. Se você tira as decisões educacionais das mãos do Estado ou de uma professora desconhecida, e as coloca nas mãos dos maiores interessados, é muito provável que os resultados serão excelentes”. E, de fato, fatos provam resultados mesmo excepcionais dessa nova modalidade de ensino. No Brasil, as famílias que assumiram a escola domiciliar tiveram que recorrer à solicitação judicial dado não haver legalização dessa nova modalidade.

É notório que só o ato de os pais recorrerem para ter licença para fazer da sua própria casa a escola dos seus filhos mostra o ideal de quem propõe. Também possibilita às autoridades da educação uma análise apurada das condições desses pais em termos de tempo disponível para assumir a escolaridade dos filhos, da condição cultural que possibilite fazê-lo e fiscalização rigorosa da rotina desse desempenho. Glória aos resultados: têm superado as expectativas.

Entretanto, o risco parece estar na prematura legalização da escola domiciliar no nosso país.  Quantos pais muito pobres, sob essa égide, poderão retirar os filhos da escola para ajudar a ganhar o pão de cada dia. Quantos pais têm condição para alfabetizar? Quantos pais conhecem muito bem todas as disciplinas do colegial: matemática, física, química, biologia, etc., para ensinar seus filhos? Ademais, no Brasil, as crianças e jovens serão avaliados pelas escolas convencionais, daí, qual a liberdade de os pais  se eles terão que ensinar, por exemplo, o que é dígrafo para crianças de 7 anos e outras estapafúrdias que ocorrem em algumas escolas?

Não obstante, está comprovado que a escola domiciliar conduz a uma economia estratosférica para o Estado. Mas é preciso pensar: a que preço? A iniciativa do presidente da República, liderada pela ministra da Mulher, da Família, e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves, precisa ser estudada com muita cautela, para que não caiamos em engodo. A escola domiciliar nasceu de um sonho que se fez - o aprender pelo prazer de aprender. Mas com a legalização e “abertura das portas” em todo Brasil esse sonho se faz? Essa decisão, hoje, está “nas mãos” do STF (Supremo Tribunal Federal) e que Deus os ilumine. Como disse Ruben Alves: “Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja ao menos fragmento de futuro em que a alegria seja servida em escolas outras, para que crianças e jovens aprendam que o mundo pode se melhor”.

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Arlette Piai

Arlette Piai é professora e escritora.

Contato: lingua.brasileira@terra.com.br

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