Em regra, somos vários

  • 29/08/2019 03:33
  • José Renato Nalini

Não deve chocar a notícia de que alguém considerado acima de qualquer suspeita tenha descoberto um lado obscuro. É que o ser humano surpreende. É feito de matéria-prima miserável. Não tem garantia absoluta. Nem ostenta integridade inflexível. Todos pretendemos ser “um”, mas, na verdade, somos “vários”. Mário de Andrade já multiplicou esses vários e chegou a centenas...

Essa a miséria ou a surpreendente exuberância da espécie racional. O livre-arbítrio prepondera, mas as escolhas são feitas ao sabor de impulsos. O instinto é mais forte do que a razão. Todos sabemos disso.

É possível e empiricamente comprovável que na mesma personalidade residam vários biótipos. Cada tom tem a sua característica e elas convivem num mosaico simultâneo de contradições. Compreensão, magnanimidade e respeito pela dignidade humana devem prevalecer, antes de julgamentos definitivos e açoites morais impregnados de crueldade.

Personalidades brasileiras tidas como paradigmas em alguns aspectos, se vasculhadas com lupa, terão momentos de fragilidade que deslustraria sua história hagiográfica. Há inúmeros exemplos. Rui Barbosa é emblemático. Um dos mais eruditos brasileiros, nossa “Águia de Haia”, foi voz altissonante contra a vacina que Oswaldo Cruz conseguiu tornar obrigatória num Rio de Janeiro que vitimava milhares de vítimas a cada ano. Não acreditava que a febre amarela pudesse derivar de uma picada de mosquito. Vociferou, com sua eloquência, contra a medida salutar. Sustentava que “a lei da vacina obrigatória é uma lei morta” e que sua sanção trouxera ao governo e ao país “irreparáveis dissabores, esparzindo no seio da população malignos germes de intranquilidade e ressentimento”.

Relata Afonso Arinos que suas afirmativas contra a vacina são inacreditáveis, partindo de um homem de sua estatura intelectual. Rui nunca fora positivista, mas junta-se aos discípulos mais retrógrados de Augusto Comte, ao declarar a vacina “um atentado à liberdade de consciência”, numa frase que hoje soa ridícula: “assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”. E ruge contra a imposição: “Logo não tem nome, na categoria dos crimes do poder a temeridade, a violência, a tirania, a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução, no meu sangue, de um vírus, em cuja influência existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia, ou da morte”.

E conclui sua peroração no Congresso: “O Estado mata, em nome da lei, os grandes criminosos. Mas não pode em nome da saúde pública, impor o suicídio aos inocentes!”. Isto, em pleno Senado, em 16.11.1904, no alvorecer do Século 20.

Incrível que, por ignorância científica, tenha inclusive legitimado a resistência armada, incitando a população a reagir com violência à lei da vacina, inspirada no intuito de assegurar vida e vida de qualidade a todos os seres humanos. Mas foi a proposta de Rui Barbosa: “Justa é a resistência popular, a reação revolucionária, toda vez que, esgotados os meios legais, os meios constitucionais, cerradas todas as válvulas de respiro à liberdade, já se não ofereça aos que a defendem outro recurso, além do apelo às armas”.

Se Rui Barbosa chegou a paroxismo tal, o que não se dirá de pessoas que sequer se aproximam de sua erudição, de sua clarividência, de seu descortino?

Sejamos prudentes nos julgamentos. Sejamos piedosos para com as falhas dos semelhantes. Quem é que tem condições morais de “atirar a primeira pedra?”.

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