Cena familiar

  • 26/01/2020 05:00
  • Sandro Rogério dos Santos

Família é bênção e desafio. Uma fonte de constantes alegrias e sofrimentos. Não vive em paz quem se desvincula dos laços familiares básicos. Em geral, a época atual é de grandes avanços em várias áreas do conhecimento. Graças aos quais vive-se muito mais tempo e com mais qualidade. Tirando frases de efeito, clichês e o medo de aceitação da realidade, sobre a vida restam desafios sempre sinceros e urgentes, como os da história de uma cena familiar, a seguir:

“Fui ficando velha e quase nem me dei conta. Vou completar oitenta e cinco anos. A cabeça está boa, relativamente boa. Há esses tremores nas pernas, nas mãos e essa artrose de todas as mulheres. Moro com minha filha e sua gente. Não sou exigente. Ao contrário, procuro ajudar nas coisas da casa. Evito de me imiscuir na vida do casal. Mas não posso me tornar invisível. Preciso comer, sentar à mesa, usar o banheiro. Não é cômodo morar com os outros. Tenho a nítida impressão de que estou sobrando. Claro, não posso ter a pretensão de que eles me mantenham a par de todas as suas decisões e resoluções. A casa é deles e a vida é deles. Pensei que eles fossem fazer uma reforma na casa. Há muitas coisas que se foram deteriorando. Agora soube que vão morar num apartamento pequeno. Devem estar decidindo o que vão fazer com essa velha de oitenta e cinco anos, forte, disposta e cheia de saúde, difícil para morrer. Será que vai haver lugar para mim? Muito provavelmente vão me colocar numa dessas casas de idosos. Normal que assim pensem e que assim o façam. Talvez estejam para me comunicar essa decisão. Pode ser que minha aposentadoria seja suficiente para o pagamento do aluguel, mas há os remédios e outras despesas. Dependo da boa vontade da família de minha filha. Sou uma dependente. Quando a gente envelhece vai se tornando um peso para os outros. Não tenho ninguém para conversar a respeito dessas coisas. Nem quero. Não quero que as pessoas pensem que estou aqui... por caridade. Há receios e temores que atravessam minha cabeça. Em todo caso quero mais uma vez eliminar coisas que vou ajuntando. Pode ser que a qualquer momento seja preciso colocar camisolas, saias e blusas, radinho, terço e bíblia nas malas e bolsas que estão no armário velho que está no quarto desativado da empregada. Talvez o Senhor me chame antes de ser preciso ir morar num asilo de... num asilo de velhos. Fui ficando velha e quase não me dei conta.”

 

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos

Sandro Rogério dos Santos é pároco do Santuário Diocesano Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, situado no Jardim Maracanã, em Presidente Prudente.

Contato: padre@santuariosantateresinha.com

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