Caneta azul, azul caneta

  • 08/11/2019 04:39
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

A música “Caneta Azul” de Manoel Gomes viralizou e contagiou a todos. Quem não canta, levanta a mão? O refrão é assim: “Caneta azul, azul caneta. Caneta azul tá marcada com minhas letra. Caneta azul, azul caneta. Caneta azul tá marcada com minhas letra”. Virou sucesso! Reproduzo com fidedignidade a letra. Tom Jobim, Nelson Gonçalves, João Gilberto e Baden Power, etc., devem estar revirando a “cova”!

Considero justa toda forma de expressão artística. Aproveito a melodia para abordá-la por outro viés. Refletindo sobre o contagiante sucesso, ocorre-me o retrato de uma realidade em que estamos vivendo atualmente. A política da procura pela realização de desejo imediato e compulsivo. “Caneta azul, azul caneta” pronto e basta. Para que pensar os pensamentos que ocorrem em nossas mentes? Rápido, delivery e atuado, bem assim. Recusamos pensar. Um insight ocorre nesse momento e sonho as grandes obras de arte de Tarsila do Amaral, Abaporu (1928) e Candido Portinari, Retirantes (1944).

Pensar os pensamentos considero miserável juntamente com a incapacidade pela arte da espera. Desaprendemos observar. Queremos algo que atenda o agora, como fast food. Tudo está indigesto. Vamos em direção da realização de um prazer incerto, pois somos incertos e desconhecidos aos nossos próprios territórios do self ou nossa própria identidade. Não pensem que é o da digital. Você tem fome do que? Não toleramos o intolerável. O impulso vem marcado por imediatismo, excesso, intolerância, incapacidade para significar, sentir, perceber ou simbolizar.

Resultando num direcionamento imediato para a ação (acting-out). Tarsila reproduz em sua arte, num contexto da época, o homem com cabeça minúscula e seu corpo gigante, proibição pelo direito ao conhecimento. E sim, restrição ao trabalho braçal. Hoje a política é pelo corpo sarado e bombado e “cabeça pequena”. Atrofia do pensar.

Candido Portinari, inspirado, reproduz a miséria advinda do sertão nordestino. Considero que somos retirantes de um universo pensante rumo à robotização, mecanicismo, concretude e incapacidade para sonhar. Rumo ao abandono da terra mãe. Não cultivamos a sensibilidade, inspiração, percepção, generosidade e gratidão. Na banalização, nossas exigências pelo preenchimento de um vazio inerente e próprio (por estar vivo), pisamos no acelerador e a velocidade cada vez aumenta mais.

 

 

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