Buscar ajuda pode significar alívio e bem-estar

  • 30/08/2019 03:28
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Estava essa semana passada, em um anfiteatro, esperando o início de uma cerimônia. Havia um silêncio. As pessoas aos poucos chegando com suas famílias, alguns sentando, outros de pé e crianças curiosas olhando todos os movimentos. No meio a um silêncio, entre murmúrios e rumores, um latido. Um latido sincronizado com um tempo que só ele sabia. Não havia cães no recinto.

Era uma criança de mais ou menos sete anos, que grunhia de tempo em tempo, sem conseguir controlar. Fazia repetidamente e bem alto esse movimento. Seus pais estavam constrangidos pelo barulho que o filho provocava, em meio a um silêncio natural do local.  Muitas vezes, observamos pessoas fazendo gestos, movimentos ou barulhos que nos parecem estranhos e sem propósito.

Eles podem aparecer como parte do comportamento normal ou como gestos estranhos. Ocorrem de forma súbita e repetitiva, tem duração curta, na maioria das vezes de apenas alguns segundos. Podem variar em intensidade e força e podem ocorrer em salvas ou com períodos curtos entre eles. Movimentos com essas características são chamados de tiques. Os tiques podem ser motores ou vocais. Os tiques motores podem variar desde movimentos simples e abruptos, como piscar os olhos, virar a cabeça ou rodar os ombros, até comportamentos mais complexos, que parecem ter um propósito, como expressões faciais ou gestos com as mãos ou cabeça. Em alguns casos, esses movimentos podem ser obscenos ou autoagressivos (nos quais a pessoa pode se beliscar ou se bater).

Tiques vocais e/ou fônicos podem variar desde um simples pigarrear até sons mais complexos, como palavras e frases. Outro tique vocal complexo pode ser mudanças bruscas no ritmo ou volume da fala. Em casos mais graves, os tiques podem ser palavras ou expressões obscenas. Quando tiques ocorrem com uma determinada frequência, incomodam ou trazem sofrimento ou, ainda, tem um impacto social e emocional na vida da pessoa, dizemos que este tem um transtorno de tiques. Síndrome de Gilles de La Tourette é o transtorno de tiques mais característico.

Para receber o diagnóstico desta síndrome é necessária a presença de tiques vocais e motores durante a evolução da doença, que deve durar pelo menos um ano e ter um impacto importante na vida da pessoa. Geralmente esse transtorno começa na infância, com algumas salvas de tiques motores e simples nos olhos, na face ou cabeça, frequentemente progredindo para ombros, tronco e extremidades.

Os sintomas podem aumentar de intensidade com estresse e ansiedade. A associação entre tiques e TOC (transtorno obsessivo compulsivo) foi descrita pela primeira vez em 1885, quando o neurologista Gilles de La Tourette relatou o caso de uma paciente que tinha tiques motores e vocais e pensamentos obsessivos. Obsessões são pensamentos, ideias, medos, dúvidas ou imagens mentais recorrentes (vão e voltam) e persistentes (surgem mesmo que a pessoa não queira mais pensar sobre aquele assunto).

As obsessões são vivenciadas como intrusivas e sem significado particular para o indivíduo. Exemplos de obsessões: imaginar cenas de acidentes ou pessoas mutiladas, medo de ferir outra pessoa, medo de dizer sacrilégios, imagens de comportamento sexual desrespeitoso, preocupação excessiva com o alinhamento correto de livros, medo de pegar germes sentando em cadeiras ou cumprimentando alguém, etc.

Compulsões são movimentos ou comportamentos repetitivos, geralmente realizados com o objetivo de diminuir, aliviar ou eliminar o incômodo ou sofrimento causado pelas obsessões. As compulsões vêm com uma intensidade e uma frequência que ultrapassam a livre escolha da pessoa, ou seja, ele se sente obrigado a fazer o ritual compulsivo. Exemplos: verificação e checagem, religiosos, arranjo, simetria e ordenação, contagem, lavagem e limpeza, colecionismo, etc. Ao identificar alguns desses sintomas, não fique sozinho, busque ajuda especializada. Será um alívio.

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Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani é psicóloga clínica, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Contato: angelicabongiovani@stetnet.com.br

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