Arquivo pessoal: André Luís Patrício diz que oportunidades como ator não surgem, é preciso correr atrás

Foto: Arquivo pessoal: André Luís Patrício diz que oportunidades como ator não surgem, é preciso correr atrás

ESTREIA EM OUTUBRO

Ator prudentino participa de série “Segunda Chamada”

André Luís Patrício interpreta Glauco, um homem agressivo que vive um relacionamento violento com Aline, interpretada pela atriz Ingrid Gaigher

  • 26/09/2019 06:21
  • ANDRÉ ESTEVES - Da Redação

Um rosto genuinamente prudentino poderá ser visto em “Segunda Chamada”, nova série da Globo, em produção com a O2 Filmes, cuja estreia está prevista para outubro. Na trama, que aborda a rotina de professores e alunos do ensino noturno para jovens e adultos, o ator André Luís Patrício interpreta Glauco, um homem agressivo que vive um relacionamento violento com Aline, interpretada pela atriz Ingrid Gaigher. Embora a participação seja curta, o artista tomou o cuidado de construir uma história para sua personagem, a fim de emprestar a ela um contexto e, com isso, conseguir entrar na pele da sua criação.

Na composição de André, Glauco vem de um lar disfuncional, onde a mãe já apanhava do pai. A violência doméstica se apresentou como algo tão natural durante a sua infância que ele passou a reproduzi-la durante a idade adulta. O ator tem referências na própria vida real. Em 1984, sua mãe foi vítima de feminicídio em Presidente Prudente. “Assim como a minha mãe, outras mulheres são mortas porque não quiseram ceder aos desejos dos homens e ter seus próprios direitos confiscados”, relata.

Além de “Segunda Chamada”, o ator prudentino de 47 anos também faz uma ponta no filme “Morto Não Fala”, de Dennison Ramalho, com estreia agendada para o dia 10 de outubro, além de colecionar papéis nos longas “Os 12 Trabalhos”, de 2006; “Um Dia com Jerusa”, de 2016; e “Prisioneiro da Liberdade”, ainda sem data de lançamento definida. Em séries, conta com participações no episódio “Ela faz cinema” de “Amor em 4 Atos”, da Globo, e “Sintonia”, da Netflix.

Tais oportunidades nunca surgiram, foi André que precisou correr atrás. Ele diz não ter amigos importantes e, adaptando o famoso verso de Belchior, afirma ser apenas um homem negro vindo do interior. “No caso de ‘Segunda Chamada’, fiquei sabendo da proposta e fui atrás de me fazer interessante para a produtora. Na sequência, rolou o teste na Globo, participei de uma dinâmica dentro da O2, entrei para os workshops e consegui o Glauco”, relembra. O caminho traçado até a conquista pode ser resumido facilmente, mas isso não quer dizer que seja isento de dificuldades, sobretudo para um homem negro. “É uma luta corporal constante”, expõe.

No dia a dia, a fim de se manter em atividade na carreira artística, André precisa mandar inúmeros e-mails se quiser ter um respondido. “Para você conseguir ter chances nesse círculo tão fechado que é o de produção de elenco, é preciso acordar cedo, ir para a biblioteca, ler colunas sociais e cadernos de Cultura, ver o que está sendo produzido, procurar o diretor em um buscador, deixar mensagem nas suas redes sociais, insistir até encontrar pessoas que possam te dar uma oportunidade”, elenca. “A coisa é cruel para quem é pobre e negro, então temos que nos fazer aceitos”, completa.

Das ruas aos palcos e telas

André se dedica à arte de atuar desde 1988, quando fazia teatro em Prudente. Junto ao grupo nomeado “Os Sadomasoquistas”, ele seguia para a Praça do Bacarin e realizava apresentações voltadas à conscientização sobre ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Em 2001, o ator resolveu ampliar seus horizontes e tentar a vida em São Paulo. A cidade dos sonhos, no entanto, o recebeu com pesadelos. Durante três anos, viveu em situação de rua, situação que começa a mudar quando conquista um emprego dentro da antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor).

“Geralmente, as personagens que faço estão no contexto da minha cor e da minha classe e eu sinto que preciso entendê-las”

André Luís Patrício,

ator

Nesse período, mesmo com todas as adversidades, André conta que nunca deixou de investir no teatro, no cinema e nos estudos, tanto que chegou até mesmo a fazer licenciatura em Ciências Sociais. “Sou um ator pesquisador”, define-se. “Para mim, era importante trazer a sociologia para dentro da prática teatral. Geralmente, as personagens que faço estão no contexto da minha cor e da minha classe e eu sinto que preciso entendê-las”, comenta.

André não esconde o seu desejo de voltar para casa. Fruto da população de baixa renda de Prudente, o ator anseia investir em projetos culturais no município que lhe serviu de berço. “Fui diretor cultural da Associação de Moradores do Brasil Novo e quero ainda poder fazer algo por esse bairro”, pontua.