COTIDIANO

Adolescência: um diálogo na fronteira

  • 24/05/2019 05:32
  • Maria Angélica Amoriello Bongiovani

A atualidade estampa turbulências em seus diferentes vértices. Um deles diz respeito à adolescência. Não há turbulência maior do que trafegar pelo adolescer. E, na maioria das vezes, a velocidade dessa travessia, entre infância e adolescência, impede o espaço para diálogos. Em alto mar, encontramos o farol para nortear nossa direção. Tratando da adolescência, muitas vezes tanto o adolescente como a família são invadidos por nevoeiros, impedindo assim, a capacidade para enxergar, ouvir, sentir e perceber necessidades básicas fundamentais para o seu desenvolvimento.

A falta de sensibilidade, respeito, acolhimento e afeto poderá levar o adolescente a trilhar por além dos limites da fronteira. Intolerância à frustração, ausência de limites, realização do prazer imediato, são gatilhos em direção à ultrapassagem de fronteiras da realidade. Pensar sobre a melhor forma de viver a experiência do adolescer é fundamental. O adolescente de hoje será o adulto de amanhã. Adolescência provoca, muitas vezes, um terror indescritível relativo às mudanças púberes e hormonais, sociais e psíquicas. É fundamental um tempo de espera ou decantação para assimilação dessa turbulência.

Autossuficiência, autonomia, independência, reconhecimento, inclusão, identidade e subjetividade são metas e desejos tanto do próprio adolescente como da família e certa exigência implícita e explícita da sociedade em que o jovem está inserido. Demandas tanto internas como externas de um psiquismo em construção, cobranças, superego severo, levam a paralisações e confusões durante o desenvolvimento, provocando distúrbio de aprendizagem, conflitos na escolha de profissão ou amizades, delinquência, transtornos de ansiedade, depressão, suicídio, enfim, problemas que dificultam o desenvolvimento.

Estamos vivenciando atualmente modelos, padrões, valores e estereótipos que incitam e excitam o jovem adolescente à superficialidade e robotização caracterizando assim, grande incapacidade para o pensamento. O adolescente em fase de desenvolvimento é uma presa fácil em direção à “anencefalia psicológica”, e as redes sociais desempenham bem esse papel. Ainda em formação, adentram pela tela do computador ou celulares, realizando viagens onde muitas vezes não voltam para o planeta terra. Em orbita, e o dialogo na fronteira, não processam mais os significados dos símbolos havendo ausência do pensar.

Há impulso sem pensamento, e direção imediata para a ação. Observamos atuações tóxicas e muito perversas no nosso dia a dia. Vamos abrir de forma preventiva espaços para o diálogo em busca de estímulo à capacidade para o pensamento. A psicanálise poderá, diante do nevoeiro em alto mar, inerente ao processo de cesura entre a infância e adolescência, navegar em conjunção, adentrando nesse movimento do desconhecido e proporcionar alívio e abrandamento em direção ao farol objetivando controle e norte, desse mar em fúria.

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Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani

Maria Angélica Amoriello Bongiovani é psicóloga clínica, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Contato: angelicabongiovani@stetnet.com.br

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