A própria cabeça

  • 04/01/2020 04:13
  • Rogério Quintanilha

Quando eu era adolescente, meu pai sempre me dava o mesmo conselho: pense com a própria cabeça. Ele se preocupava em que eu mantivesse algum julgamento nos momentos em que isso falta a qualquer adolescente e nem imaginava que essa “autonomia do pensamento” pudesse ser levada tão erradamente ao extremo que causaria uma epidemia de sarampo em Samoa. Explico: há um movimento entre jovens, alguns nem tão jovens, oriundos do YouTube e de outros sanatórios virtuais, que declaradamente tem desprezado a ciência e o conhecimento produzido pela humanidade nos últimos milhares de anos em prol de temas que já estavam, ou deveriam estar, completamente superados há muito tempo.

A viagem normalmente começa em criacionismo, passa por revisionismo histórico, negação do racismo e do aquecimento global e pode acabar levando ao terraplanismo, a hipótese amalucada de que o planeta Terra seja plano como uma pizza, e não, como sabemos que é, um globo. Como qualquer pessoa que já tenha usado uma carta solar sabe que a Terra é uma esfera mais lisa e perfeita do que uma bola de bilhar, não vou aqui discutir os argumentos, mas a forma de pensar desses seres e de porque a forma como se comportam é nova e preocupante.

É evidente que a negação da ciência, ou a aceitação de fenômenos sem nenhum embasamento científico, as chamadas pseudociências, sempre existiu e em algum lugar próximo a essa coluna deve haver um horóscopo para provar. A própria religião, me desculpem, não é uma ciência, e sempre se comportou assim, como uma questão de fé, não de ciência. O que muda na pseudociência do século XXI é que o terraplanista não quer professar uma fé, mas ser um cientista de verdade.

Quer enfrentar um astrônomo no campo dele e elaborar um experimento científico que prove que ele está certo e o astrônomo errado. Para isso, se aproveita de alguns pilares da ciência moderna, os que interessam, deturpa outros e chuta na arquibancada os incômodos. O princípio que incorporam é o argumento de autoridade, o que quer dizer que, em ciência, ninguém pode fazer uma afirmação baseado apenas na sua autoridade, ou prestígio, por exemplo.

Teoricamente, um astrônomo da Nasa não pode fazer valer sua opinião apenas por seu cargo, a famosa carteirada, mas precisa fundamentar suas afirmações em dados tanto quanto um jovem pesquisador. A ousadia terraplanista em enfrentar um cientista de carreira em questões de ciência básica vem daí: cientificamente, quaisquer debatedores começam um debate no mesmo nível e devem convencer pela força dos argumentos e não pelo apelo a autoridade.

Pensar com a própria cabeça não significa refazer sozinho todo o caminho que a ciência humana fez em séculos ou, menos ainda, imaginar que, seja lá qual for o tema, você tem o direito a ter a sua opinião. Aprender e respeitar que alguém que se dedique a estudar algo há muito tempo tenha algo importante a dizer não é um exercício de doutrinação, mas de humildade e respeito pela trajetória do outro.

Ademais, se o terraplanismo parece uma anedota um pouco triste, mas um pouco engraçada, saiba que ele ajuda a difundir outros obscurantismos como o movimento antivacina que faz com que a ilha de Samoa, por exemplo, esteja sendo atacada por uma epidemia de sarampo capaz de causar mortes, fechar escolas, sabotar a economia e atingir 2% da população, o que é muita gente. Não é uma brincadeira inocente. É um assunto sério. 

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Rogério Quintanilha

Rogério Quintanilha

Rogério Quintanilha é arquiteto e urbanista, doutor em urbanismo pela USP (Universidade de São Paulo), professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista) e da FCT/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista) em Presidente Prudente e editor do site e podcast Cidades Visíveis, sobre cidades e urbanismo.

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