A nossa memória tem que ser afetiva

  • 28/07/2019 07:00
  • Persio Isaac

“O mundo é grande e cabe nessa janela sobre o mar.  O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe num breve espaço de beijar”- Carlos Drummond de Andrade.

Enquanto eu tiver  espaço, tempo, corpo, alma, vou escrevendo  sobre história, pessoas da minha cidade. Lembro do famoso locutor de Rodeios Asa Branca, que quando por aqui esteve abrilhantando essa grande festa popular, exclamava dois bordões guardados na parede da minha memória: “Eh chão quente, terra boa é Prudente”. A outra era: “Eh quem tem amorrr tem sardade”.  Esse forte sotaque interiorano faz parte da nossa personalidade, uma marca registrada fruto da nossa origem.

Os sons das patas dos cavalos ainda continuam cavalgando nas ruas empoeiradas dos nossos corações. Não poderia deixar de citar dois queridos amigos, Guilherme Prata e Baiano que foram vitimados por um acidente aéreo anos atrás. O Guilherme, eu o conhecia desde criança, pois ele era amigo do meu irmão caçula “Ilenzinho” frequentando a minha casa regularmente. Sempre perguntava da minha mãe: como está Dona Mariana? se tornou um pecuarista muito respeitado, um líder do seu segmento, personalidade forte e muito competente. A gente costumava chamar um ao outro carinhosamente de “Batera” por eu tocar bateria.

O Baiano que também o conhecia desde criança se chamava Geraldo Ribeiro, era filho do lendário pecuarista Geraldinho Ribeiro, como era conhecido. Seu pai ficou reconhecido nacionalmente como o Rei do Nelore Mocho, ganhando vários prêmios na pecuária se tornando uma referência. O Baiano foi uma das pessoas mais afetuosas que conheci, sempre que me via, não só eu mas também meus irmãos ele dizia: “O turco, vem aqui dar um beijo no preto”, era a sua maneira de mostrar carinho com a minha família. Os lendários Vaqueiros sob o comando do Guilherme Prata promoviam o Rodeio dos Campeões, grandiosa festa que colocou Presidente Prudente no calendário nacional e mundial desse importante segmento. Somos frutos de gente pioneira, valente, corajosa que por aqui chegou à busca de novos sonhos. A esperança ainda continuará sendo o sentimento mais forte que move a humanidade.

Uma longa caminhada rumo ao desconhecido trouxeram nossos antepassados a esse chão quente. Não vieram em busca de aventuras, vieram  sonhar novos sonhos, cantar novas canções, novos desafios em busca de um futuro, iluminados por lamparinas na escuridão desse sertão da Alta Sorocabana. Primeiro vieram as vilas, depois os vilarejos e, enfim, a cidade de Presidente Prudente. “Nascemos desse entusiasmo, sofrimento e desse espírito desbravador, colocando o coração nesse chão abençoado”. As cidades são como as pessoas:  nascem, crescem, transformam-se e multiplicam-se”.

Uma definição feliz do Professor Flávio Alberto Cesário. O esquecimento é o pior sentimento que um ser humano pode sentir, por isso vamos sempre lembrar do nosso hino composto pelo poeta Cesar Cava que em um dos seus poéticos versos diz: “Rasgando os sertões sorocabanos, valentes corajosos soberanos, tão brava gente, plantou a semente e assim nasceu Prudente. Temos que cultivar essa honrosa memória do nosso passado, temos que viver o presente com coragem, temos que construir um futuro promissor para as gerações futuras como os nossos antepassados fizeram.

A nossa memória tem que ser afetiva. Voltando ao tempo, mais de 100 anos atrás, andarilhos, viajantes, cavalheiros, depois de longas viagens paravam na Vila dos Tropeiros onde descansavam seus sonhos sobre a sombra de uma belíssima Figueira branca. Lá estavam os Coronéis Goulart e Marcondes comandando essa colonização. Nascemos da determinação, da coragem, do amor de homens e mulheres destemidos e destemidas. O dinamismo, o inconformismo, a ambição, são sentimentos que fazem parte de qualquer natureza de mudanças significativas no mundo. Homens sonhadores é que transformam a realidade.  Ninguém muda nada se estiver abraçado no conformismo, na apatia, na covardia, na preguiça, no egoísmo de achar que o mundo lhe pertence. Quem perdeu alguma coisa na vida seja de qualquer origem sabe que a vida é injusta. Quem nunca perdeu nada pensa que o mundo é só dele. Viemos de homens e mulheres  indignadas que tinham um espirito diferente, queriam mudanças, não queriam ser esquecidos, sonhavam com uma vida melhor, ouviam o chamado do querer mais e sentiam o poder da sua própria insatisfação.

Somos uma cidade jovem, a rebeldia, a perseverança de homens empreendedores que quiseram mudar as coisas, não vieram para cá perguntar o que estava acontecendo e sim fazer acontecer. Não nascemos para sermos simples coadjuvantes e sim protagonistas da nossa história de ousadia. “Vamos olhar pra trás, a fim de seguir em frente”. 

 

 

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Persio Melem Isaac, empresário e cronista aos domingos em O Imparcial. Contato: persiomisaac@gmail.com

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