A manjedoura e o Natal comercial

  • 24/12/2019 04:56
  • Norma Sueli Padilha

O que houve com o Natal, com a expectativa de uma noite tão especial? Com a alegria da comemoração de uma data única e cheia de espiritualidade, na qual os desacertos, os desacordos, os mal entendidos, as mágoas e ressentimentos deveriam ser esquecidos e descartados, em rituais religiosos de perdão mútuo e fraternidade?

O que houve com o clima de celebração que unia a todos no mesmo espírito natalino, de exaltação ao presépio, da visita à manjedoura, da adoração ao “Menino Jesus”, da oração a “Maria”, uma mulher santificada no “sim” que permitiu que este momento único na história da humanidade acontecesse para todo o sempre?

Por que tudo se transformou em correria, no stress do supermercado para garantir comida e bebida, dos shoppings para compras sem fim, das estradas com excesso de veículos, aeroportos e rodoviárias lotadas de pessoas ansiosas, todos com pressa para uma noite de comemoração, como tantas outras quaisquer, e que passa tão depressa que mal dá para identificar a razão da comemoração?

Onde colocamos o nosso olhar, o nosso cuidado, o nosso bem estar? Na manjedoura, ele já não mais está! Não nos basta mais aquela visão simples e delicada, de um casal pobre, acolhido em um estábulo e cercado de animais e pastores, onde sobre o feno, sem lençóis ou tecidos caros, depositaram seu pequeno menino, recém-nascido, porque ninguém na cidade os quis acolher. Não havia lugar para eles entre os que como nós estavam ocupados com suas próprias ocupações, preocupações e histórias pessoais.

Refletir com saudades sobre os “Natais” de décadas atrás, do clima especial que envolvia as famílias, da centralidade em uma espiritualidade que exaltava a “cena de um presépio” e a oração defronte a uma pequena “manjedoura”, contrasta enormemente com a atual comercialização da data.

O “Natal” virou produto? Seus símbolos apropriados pelo comércio, tudo tem custo e preço, e seu sentido virou presente, pacote, embrulho. Sua identificação não é mais de um “Menino” envolto em faixas, mas de um “velho” de barbas brancas e roupas quentes, que só traz um grande volume pleno de desejos materiais.  A razão dos encontros se resume mais na gastronomia de uma data comemorativa, que todo ano chega tão depressa que mal dá tempo de recolocar os enfeites, do que na singela expectativa de encontros fraternos em uma comemoração que já foi única no calendário anual.

Talvez por substituir a “espiritualidade” por desejos materiais identificados em produtos de marketing é que pareça que já nem aja mais “Natal”, mas apenas uma outra data comercial.

Se esta data já não traz o mesmo clima tão encantador, tão fraterno, que exigia de todos um olhar para o outro, a prática da caridade e do acolhimento, o repensar o egoísmo e exercitar o perdão, um agir como cristão, talvez, então, não tenha sido os tempos que mudaram, mas o quanto nos tempos atuais, a sociedade investe na espiritualidade, na crença de que houve um momento único e especial, quando uma Mulher, dentre todas as mulheres, foi considerada digna e disse “sim aos Céus”, na convicção de que aquele pequeno “menininho” acolhido numa manjedoura tão simples, envolto em faixas e cercado por animais e pastores, é um “sinal”, o sinal do olhar de “Deus” e da benevolência Divina para com toda a humanidade.

Encontrar com o olhar do coração um “recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” é que representa todo o sentido do “Natal”, e do por que comemorar esta noite de forma tão diferenciada e especial.

Pois só o que está no coração, na convicção de que o “Natal” representa uma “boa nova”, e que é para todo o sempre uma “esperança” que traz sentido a existência humana, é que justifica a adoração e exaltação no Natal a cena do presépio, a este “menininho”, que ao nascer para a humanidade, representa o verdadeiro presente, a dádiva, a benção que em si concentra toda a essência da crença de que  todos são irmãos e filhos de um único e mesmo “Pai”!

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