COTIDIANO

Ética e pensamento a longo prazo

  • 28/05/2019 04:09
  • Arlette Piai

Até hoje os seres humanos são definidos ou caracterizados como animais racionais. Mas será mesmo que é a razão que nos faz humanos? O que caracteriza o animal são os instintos, ou seja: a necessidade de aquisição de alimentos, segurança para não ser abatido, procriação e a propriedade privada, como o caso dos leões, por exemplo. O ser humano também é dotado de instintos para salvaguardar a sobrevivência individual e da espécie. Mas a racionalidade não garante que sejamos humanos, ou seja, diferenciado dos demais animais. A razão associada à satisfação exclusiva dos instintos é uma arma terrível, torna o homem o pior dos predadores. O que, de fato, diferencia o ser humano dos demais animais é a ética e o pensamento a longo prazo. 

O paisagista Roberto Marx trouxe da Ásia a palmeira talipot, que florescem uma única vez na vida. E cerca de 50 anos depois de plantadas produzem cerca de uma tonelada de sementes. Quando Roberto Marx plantou-a, um visitante disse: “Por que tanta abnegação nesse serviço, se elas levam tanto tempo para florir e o senhor não estará mais aqui para ver”. O paisagista, então com mais de 60 anos, respondeu: “Assim como alguém plantou para o meu deleite, estou plantando para que outros também possam contemplá-la”.

Onde não há pensamento de longo prazo, a solidariedade tem pouca chance de brotar, fincar raízes e os relacionamentos se tornam frágeis e superficiais. Hoje a cultura do compartilhamento está doente. Deixamos de nos reconhecer na obrigação de viver em nome de qualquer coisa que não nós mesmos. Roberto Marx plantou a palmeira, não para seu próprio deleite, mas para o dos outros. Em contraposição, o mundo atual escolhe viver o oposto. 

Parece que na sociedade atual o instinto animal é a alavanca que conduz a vida, a ambição é que dirige vidas. Ocorre assim a degradação do meio ambiente, com a consequente degradação do próprio homem. Deixamos de nos reconhecer na obrigação de viver em nome de qualquer coisa que não nós mesmos. O pensamento a longo prazo e a ética são descartados em prol da exigência dos fortuitos instintos que acabam por reger a vida. Funciona como se as pessoas estivessem dentro de uma cápsula, em um mundo exclusivo e nada mais fora dos interesses particulares. Assim, o homem plantou o mundo em que ele vive, mas não gosta dele, um mundo sem laços, sem segurança. Possamos assim afirmar que o bípede que não está todo coberto por pelos é mais animal ou homem?

É necessário ter consciência de que a sociedade e até o mundo funciona como um grande organismo, se um ou mais órgãos estiverem doentes, comprometerão todo o organismo. Assim, se o mal assola grande parte da população, não há dúvida, atingirá a todos de todas as classes socioeconômicas. Só quando mudar ações e atitudes, não só de políticos, mas de cada cidadão, o rumo da vida será mudado. Garantir a sobrevivência? Indispensável, mas cada um lembrar, sempre, do dever ético de se plantar a palmeira talipot.

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