Arquivo Pessoal - Para profissional, prevenção na África deve ser promovida desde a infância

Foto: Arquivo Pessoal - Para profissional, prevenção na África deve ser promovida desde a infância

ENTREVISTA

“Sempre tive o desejo de servir ao próximo e a melhor forma que achei foi por meio do voluntariado”

Ubirajara Pita Queiroz Monteiro - MÉDICO E RESIDENTE EM PEDIATRIA

  • 18/08/2019 07:11
  • ANDRÉ ESTEVES - Da Redação

Uma adaptação da poesia de Fernando Pessoa, escrita pelo autor Celmo Celeno Porto, recomenda que, para ser médico, é preciso ser inteiro, sem excluir o consciente, o inconsciente, o racional e o emocional. O residente em Pediatria, Ubirajara Pita Queiroz Monteiro, transformou os versos em seu lema de profissão. Com o objetivo de exercer a atividade em prol dos que mais necessitam e, ao mesmo tempo, contribuir para a construção de um mundo mais humano e digno, ele embarcou em uma viagem, custeada com recursos próprios, para o continente africano, onde aterrissou em Sumbe, na Angola.

Durante dez dias, o médico participou de uma caravana por diferentes regiões carentes da cidade, a fim de prestar orientações em saúde básica para uma população que nunca teve acesso a saneamento básico. Os mesmos versos aqui mencionados servem de epígrafe para o livro eletrônico “Memórias da Expedição Africana”, publicado pela Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), no qual Ubirajara registra o que viu e viveu durante esse período. Em entrevista concedida a O Imparcial, o profissional avalia as deficiências da rede de saúde daquele país e a importância da união de esforços na tentativa de levar dignidade para uma população muitas vezes privada do direito mais básico: a vida.

O Imparcial: Como surgiu o interesse de embarcar para a África e ajudar a população por meio do trabalho voluntário?

Ubirajara: A ideia surgiu no processo da minha formação como médico. Sempre tive o desejo de servir ao próximo e a melhor maneira que encontrei foi por meio do voluntariado. Eu não precisaria atravessar o oceano para fazer isso, poderia ser aqui mesmo. No entanto, após assistir a uma palestra ministrada pelo missionário Marcelo Satiro, que já frequentou 46 estados da África, falei sobre a minha formação e ele me respondeu que o continente africano precisava de médicos. O religioso me apresentou a ONG [organização não governamental] Amigos da África Internacional, com sede em Campinas [SP], me dispus a viajar para lá, arquei com todas as despesas e embarquei para a Angola em 10 de fevereiro de 2018, permanecendo no país por dez dias.

Durante os dez dias em que esteve na África, qual foi o cenário observado?

Observei pobreza, carência, muitas patologias decorrentes da falta de saneamento básico e de orientação em saúde básica, como doenças de pele, cólera, Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida), além da prevalência de mortalidade infantil. A cada dez crianças, quatro não chegam ao quinto ano de idade. A expectativa de vida de um angolano é de 45 anos. Durante a minha passagem, não vi um único angolano de cabelo branco. Isso porque o país não conta com infraestrutura e nem oferta as mínimas condições de saúde básica para a população, que não tem acesso a alimento e emprego. É uma miséria muito grande. Uma catástrofe. Eles estão 500 anos atrasados. É como se eu retornasse para o Brasil de 500 anos atrás, com casas de bloco, pedra e barro, sem estrutura nenhuma. Para o abastecimento de água, os cidadãos utilizam cisternas, onde a água fica parada e sujeita a doenças. Os banheiros são externos, com um furo na terra onde despejam suas necessidades, por isso a prevalência de cólera e problemas gastrointestinais. Além disso, o país tem uma taxa elevada de desnutrição, porque o alimento mais comum é o milho com água e sal. Como não têm dinheiro para comprar a proteína, os cidadãos mais carentes consomem a carne de cabrito, que é o animal capaz de sobreviver em meio às condições geográficas e climáticas do local.

Quais foram os trabalhos desenvolvidos pelo senhor durante este período?

Fiquei instalado na cidade de Sumbe, que dispõe de uma infraestrutura boa. Dali, nos locomovíamos para os distritos próximos, onde residia a população mais carente. Junto a enfermeiros e professores da área da educação, abordávamos aquelas pessoas que estavam doentes e ofertávamos medicamentos e orientações de saúde básica. Buscávamos atender a necessidade imediata do paciente, como doenças de pele e infecções secundárias. Doenças de caráter crônico, por sua vez, estavam fora do nosso alcance, porque o tratamento precisaria ser feito a longo prazo e receber acompanhamento rotineiro. Sendo assim, o nosso trabalho era conectar o paciente ao agente de saúde da região, que teria que ficar responsável por retornar ao local e garantir a assistência necessária.

O que pode explicar a dificuldade de acesso aos serviços de saúde básica?

É um acúmulo de fatores. A equipe médica faz o que pode com o que pode. O sistema de saúde local não possui o contingente de profissionais necessário para chegar aos distritos, onde a demanda por atendimento médico é muito alta, considerando que cada família tem, em média, de três a quatro filhos. Como as visitas domiciliares dificilmente ocorrem, as pessoas padecem da falta de conhecimento de saúde básica, como a importância de tomar banho, lavar as mãos e os alimentos, ferver a água antes do consumo, entre outras informações. Essa cultura já está enraizada no estilo de vida da população. Para eles, é normal viver na precariedade e miséria, porque é uma mazela que atravessa séculos. Isso me causou tristeza e revolta ao mesmo tempo, porque é tão fácil você abordar aquela população por meio da saúde básica, mas nem disso eles dispõem.

Por que o médico não consegue estar presente nas regiões mais pobres?

O médico africano pode até chegar aos locais mais carentes, mas é um processo demorado. Eu conheci lugares onde os moradores nunca receberam a visita de um profissional da saúde. Normalmente, a população tem que se mover do seu distrito até uma cidade-satélite, onde há a figura do médico estabelecida. Em regiões pobres, contudo, as pessoas não têm meios para se deslocar e precisariam percorrer até trinta quilômetros a pé. Isso acontece principalmente porque, diferente do que vemos no Brasil, não há o médico da Estratégia Saúde da Família. Quando estive lá, realizei justamente este papel: atender a demanda a domicílio, orientando as mães sobre as necessidades das crianças, uma vez que a prevenção deve ser promovida desde a infância. É preciso cuidar da saúde delas com o objetivo de aumentar a expectativa de vida dos cidadãos. Comparado com a rede de saúde da África, pode-se dizer que a do Brasil é de primeiro mundo, porque temos acesso a todas as especialidades médicas. Por conta da alta demanda que existe no SUS [Sistema Único de Saúde], os atendimentos nem sempre são imediatos, mas ocorrem. No final da consulta, o paciente sai com um receituário em mãos e consegue o medicamento gratuitamente em uma Farmácia Popular. Na África, as pessoas mais carentes sequer têm acesso a um médico. O SUS não é perfeito, mas funciona.

Dez dias foi um período curto ou suficiente para a realização deste trabalho?

Foi um tempo necessário. Neste período, conseguimos fazer um diagnóstico das doenças mais prevalentes, orientar profissionais da saúde, abordar a população local e auxiliar os cidadãos adoecidos com medicamentos e informação. A intenção desta ONG é, a cada semestre, enviar um médico voluntário. Se a entidade conseguir constantemente profissionais interessados na causa, será possível realizar uma triagem melhor da situação na África, educar a população cada vez mais e obter resultados ainda maiores e melhores, pois o trabalho será contínuo.

 

Em sua opinião, os avanços em saúde básica na África ainda levarão muito tempo?

Os distritos que visitei não dispõem de água encanada nem local adequado para as pessoas dispensarem suas necessidades fisiológicas, por exemplo. Então, os avanços deverão levar tempo para ocorrer. Eu não digo que demorarão 500 anos, mas é um trabalho árduo e que precisa ser executado constantemente por pessoas realmente preocupadas com a população e as suas necessidades. O primeiro passo seria a informação, que é a base de tudo. Enquanto não houver informação, não será possível desenvolver as demandas daquele povo nem utilizar recursos para que o objetivo seja alcançado.

Quando e como surgiu a ideia de registrar a sua experiência em um livro?

O livro foi algo muito especial. Inicialmente, eu não tinha interesse em divulgar a minha passagem pela África, principalmente porque as pessoas não enxergam com bons olhos a divulgação de trabalho voluntário e usam isso como artifício para sugerir que você está tentando se promover. No entanto, um professor me encorajou a publicar o livro, defendendo que eu não podia guardar a experiência só para mim e nem me preocupar com o que os outros diriam. Segundo ele, isso serviria de incentivo e impulso para que outros médicos também fizessem um trabalho semelhante, sem necessariamente atravessar o oceano. Há muitos lugares carentes no país. Eu mesmo continuo fazendo trabalho voluntário nas regiões mais pobres de Prudente.

O senhor pretende regressar para o continente africano?

Costumo dizer que metade do meu coração ficou na África. Tenho contato com as pessoas de lá até hoje. Elas ainda me mandam mensagens e me dão um feedback sobre o trabalho. Futuramente, pretendo voltar, sim.

Quais os aprendizados que trouxe da sua expedição?

Me transformei em um ser humano mais humano, preocupado não apenas com a saúde física do paciente, mas com todo o aspecto psíquico-emocional. O médico não deve só tratar a doença e receitar o remédio, como também ouvir o que o paciente tem a dizer. Ele deseja ser escutado.