SAUDOSISMO

“Se eu não tivesse ido para a ciência da economia, teria sido jogador de futebol”

Aos 82 anos, Antonio Bongiovani lembra com carinho das contribuições para o esporte amador de Prudente

Foto: José Reis / Além de futebolista, Antonio também fez cobertura esportiva no rádio Foto: José Reis / Além de futebolista, Antonio também fez cobertura esportiva no rádio

Embora o aposentado Antonio Bongiovani, 82 anos, tenha dedicado a maior parte de sua vida ao mercado financeiro, uma das experiências que guarda com mais carinho é a sua participação no futebol amador de Presidente Prudente. Apaixonado desde sempre pelo esporte, começou a jogar bola ainda na infância e não demorou muito até entrar em campo para disputar campeonatos varzeanos da cidade. Durante as partidas, o então garoto era responsável por armar as jogadas do time e arquitetar ataques que oportunizassem a marcação de gols. Contribuiu como meio de campo para diferentes times amadores, mas foi no Corinthinha que fez a sua passagem mais memorável e ajudou a conquistar o título de campeão amador em 1959. Dentro do clube, Antonio era o mais jovem entre 18 jogadores e ficou conhecido pelo apelido de “Geleia”, devido ao fato de seu pai ser proprietário de uma fábrica de doces, cujo produto principal era a geleia de mocotó.

A trajetória esportiva do ex-atleta é contada brevemente em seu livro “Lutas & Decepções”, lançado em 2015, no qual discorre sobre a sua história na área de finanças. Saudosista assumido, ele deixa claro tanto na biografia quanto nesta entrevista a O Imparcial a sua preferência pelo futebol de outrora. “Que tempo maravilhoso, no qual se jogava pelo prazer de desenvolver qualidades e amigos”, escreve o autor, que, além de apostar na literatura, também já se aventurou no rádio, atuando como comentarista esportivo junto ao radialista Nilton Mescoloti. Em conversa com a reportagem, Antonio relembra como se deu seu primeiro contato com o futebol e divide suas impressões a respeito do esporte que ajudou a construir. Acompanhe nas linhas a seguir:

 

O Imparcial: Como começou o seu envolvimento com esporte?

Antonio: Eu morava na Rua 7 de Setembro, perto da Avenida Manoel Goulart, onde havia um campo de futebol de frente para a minha casa. Como eu era garoto e o local estava desativado, ia até lá para brincar com os amigos. Na época, fui me interessando pelo esporte e acho até que me tornei um bom jogador.

 

E em que momento você entra para o Corinthinha?

Naquele período, tínhamos vários clubes de várzea e os campeonatos eram muito bons, porque havia campo de futebol para todo o lado. Hoje, não vemos mais isso na cidade. Meu pai era apeano e gostava muito do esporte também, então, não demorei para começar a jogar. Eu estudava e trabalhava durante a semana e, aos domingos, participava dos “rachas”. Com o tempo, entrei para o então recém-criado Comercial Futebol Clube, passei pelo Guarani, fiz testes na Prudentina e acabei no Corinthinha. Lembro que, na ocasião, comecei a trabalhar na Companhia Elétrica Caiuá, atual Energisa. Além do apoio do treinador Tião, eu contava com o suporte do diretor do time, que era o Aurelino Alves Coutinho, um vereador que se dava bem com todo mundo e carregava o clube nas costas. Ele foi à empresa e negociou com o gerente, que era o João Paulo Pratt, a minha saída mais cedo do trabalho, em dois dias da semana, a fim de que eu pudesse treinar. Naquela época, eu estava muito bem, o Corinthinha tinha um ótimo desempenho e até conseguimos o título de campeão amador. Quando fui trabalhar em banco, parei de jogar futebol, porque a instituição não me deixava sair. Fiquei dois anos no Corinthinha, mas foi uma ótima experiência.

 

Se tivesse continuado no esporte, o senhor acredita que se tornaria um jogador profissional?

Sim, eu teria ido além. Há uma passagem no meu livro biográfico em que conto um pouco da minha relação com o Flávio Araújo. Quando ele era locutor e transmitia jogos na Rádio Difusora PRI-5, eu fazia plantão aos domingos e tinha muito contato com ele. Após a publicação do livro, enviei um exemplar para o Flávio, que me deu um retorno assim que concluiu a leitura. Contou que havia assistido muitos jogos meus e que, se eu não tivesse ido para a ciência da economia e das finanças, eu teria sido jogador de futebol.

 

Mas o senhor se arrepende de ter deixado o futebol?

Não, não me arrependo, pois naquele tempo o jogador não ganhava nada e tinha muito menos valor. Hoje qualquer perna de pau consegue ir para a Espanha, Portugal e Inglaterra jogar futebol [risos]. No entanto, depois que saí do amador, não abandonei o esporte por completo. Continuava jogando junto com os amigos e sendo convidado eventualmente para partidas. Houve até um time de Álvares Machado que vinha me buscar e pagava R$ 150 por cada jogo que eu fazia para eles. Era pouco, mas não deixava de ser uma remuneração.

 

Qual foi o jogo que mais marcou a sua carreira no esporte?

Lembro-me de um jogo no qual fizemos a preliminar no estádio da Prudentina, que entraria em campo contra o Palmeiras. Na ocasião, até o Oberdan Catani, que foi uma lenda do esporte, veio a Prudente, mas não jogou. Em seu lugar, estava o Lourenço. Eu já tinha saído do futebol, porém, fui convidado para jogar pela Congregação Mariana, que competiria com a Vila Glória – não me lembro bem quem era o adversário. Fiz dois gols naquele dia. Eu não era muito goleador. Era mais armador, porque jogava no meio de campo. Gostava muito dessa posição.

 

Sente saudades desse período?

Bastante. Como eu gostaria de ter 18 anos para jogar uma partida na Europa.

 

Como o senhor vê a evolução do futebol?

Vou ser sincero. Acredito que, em função da capacidade de raciocínio dos jogadores, o futebol piorou. Quando eu jogava futebol, a gente tinha uma noção muito boa do esporte. Hoje, você não vê mais jogadores desse tipo.

 

Como surgiu a oportunidade de trabalhar no rádio?

Essa é uma passagem que também destaco em meu livro. O Nilton Mescoloti era meu vizinho e muito meu amigo e, em um determinado dia, apareceu com um gravador e me chamou para transmitir um jogo de futebol em um campo qualquer. Fomos. Ele narrava e eu comentava as partidas. O Nilton começou o rádio naquela época e tinha uma voz muito boa e potente. Fizemos isso por mais de um ano e comentamos muitos amadores. Fazíamos principalmente a cobertura do Comercial, com o qual estávamos mais familiarizados. Ou seja, usei a minha experiência no amador para fazer considerações durante as transmissões. Querendo ou não, nunca deixei o esporte, porque continuei acompanhando. Era um apaixonado! Hoje, não tenho mais esse laço. Assisto sem muito interesse.

 

Qual o conselho que o senhor dá para quem está começando no futebol?

Futebol é treino. É preciso treinar muito, levar a sério e usar a cabeça.