"Precisamos fazer com que o parto seja o mais tranquilo e menos traumático possível"

Acompanhado de uma equipe composta por duas enfermeiras, que são a mulher e a nora, e um filho ginecologista, a história de Anzai é composta por momentos de alegria, vínculo e amizades com as famílias atendidas e raros momentos de lazer, quando a profissão é o foco e motivo de felicidade

GABRIEL BUOSI • 02/06/2018 10:03:29

Ademar Anzai: "Precisamos pensar sempre que estamos lidando com o ser humano". Foto: Marcio Oliveira

Ele é conhecido não apenas por moradores de Presidente Prudente, mas por toda a região. O motivo? Ademar Anzai, 65 anos, é responsável por quase 12 mil partos ao longo dos 40 anos de profissão, completos em 2018, que para ele é motivo de comemoração, visto que a ginecologia e obstetrícia são responsáveis por cuidar do momento que antecede o nascimento e representa a geração da vida.

A profissão, conforme o médico, precisa ficar inúmeras vezes à frente da família, já que “não há hora para ser médico”. No dia que antecedeu a entrevista, por exemplo, às 2h, Ademar participava de um parto normal, com disposição e sorriso no rosto, como ele mesmo afirma. O cansaço, no entanto, é visto por ele como o lado negativo, já que a profissão não o permite ter uma rotina estipulada.

Acompanhado de uma equipe composta por duas enfermeiras, que são a mulher e a nora, e um filho ginecologista, a história de Anzai é composta por momentos de alegria, vínculo e amizades com as famílias atendidas e raros momentos de lazer, quando a profissão é o foco e motivo de felicidade.

 

O Imparcial: Como foi a decisão de cursar Medicina?

Ademar: Há diversos fatores, mas em termos familiares, meus pais sempre foram do sítio e somos cinco irmãos. Eles vieram do sítio de Santo Anastácio para Presidente Prudente e sempre nos falavam que aquela não era uma vida que tinha futuro, pois era muito reservada, e, por isso, nos incentivavam a estudar e buscar o melhor para nós.

Com isso, meu irmão mais velho fez Odontologia e, depois dele, optei por cursar Medicina, pois entendi que naquele momento esse seria um pulo muito grande na minha vida, ainda mais pelo fato de poder ajudar as pessoas. Sou o primeiro da família a me tornar médico, depois veio meu irmão e há muitos sobrinhos.

 

E a área da ginecologia e obstetrícia, como chegou até a especialidade?

Estudei na Universidade Federal de Valença, no Rio de Janeiro, entre 1972 e 1978, pois saí de Presidente Prudente com 17 anos. Durante o curso você tem contato com várias disciplinas e especializações. Dentro da área da pediatria, que é o desenvolvimento da criança, vi que algo a mais tinha que ser feito, algo que vinha antes mesmo do ser humano vir ao mundo, e, por isso, optei por trabalhar com a obstetrícia.

 

Após formado, como foi o início da profissão?

Até chegar ao status de formado, você passa por diversos degraus na medicina. Primeiro há o curso de graduação, em seguida você precisa realizar uma residência médica, fiz a minha em São Paulo, enfrentar especializações, para aí sim estar preparado para o mercado de trabalho. Me formei em 78, mas desde o quinto ano da faculdade eu já estava em contato com essa área que atuo.

Retornei em 1981 para Prudente e sinto que fui muito bem recebido, já que tinha amigos, familiares e por ter já um conhecimento sobre a região.

 

Quais são os lados positivos da profissão?

O benefício que tudo isso traz para o nosso lado humano, pois ficamos ligados 24h por dia, e estamos sempre prontos para quando as pessoas necessitarem de nós. Temos uma formação que é voltada a ajudar e gerar vidas, se toca o celular meia-noite, ou uma hora da manhã, você tem que atender com bom gosto e estar sempre à disposição, e isso não é difícil. Muitas vezes temos que colocar nossa vida profissional na frente da família.

Além disso, tem aquelas ocasiões em que somos reconhecidos na rua, ou em festas como quermesses, isso é muito gratificante e ainda somos convidados para festas de aniversários das crianças.

 

E o lado negativo?

Acredito que, como toda profissão, posso destacar o cansaço com esses 40 anos de profissão que completo neste ano. Não tenho hora para ser médico. Ontem, por exemplo, às 2h eu estava fazendo um parto normal e não poderia deixar para outra hora. Então, penso que o cansaço é o lado negativo.

 

E qual o segredo para tanta disposição?

O otimismo. Precisamos estar motivados pela profissão, pensar sempre que estamos lidando com o ser humano, a maneira com que ele vem ao mundo e precisamos fazer com que esse seja o momento mais tranquilo e menos traumático possível. Lidamos com vidas e isso é uma responsabilidade muito grande.  

 

Quais são as histórias que marcaram ao longo desses 40 anos?

Existem histórias positivas e negativas. Não é sempre que noticiamos coisas boas, pois há ainda os percalços da vida e sabemos que nem tudo é um mar de rosas. Já nas histórias positivas, posso mencionar, por exemplo, as experiências que tive com quadrigêmeos, foram cinco vezes em toda a minha carreira.

É difícil mencionar uma ou outra história, mas me pergunte de qualquer uma delas que eu saberei informar, pois nunca nos esquecemos. Eu aprendo diariamente com cada uma das vidas geradas, é uma situação que me faz amadurecer, ainda mais por saber que fiz quase 12 mil partos. É uma grande lição.

 

Há contato com a família após o parto?

Sem dúvidas, criamos um vínculo muito próximo de amizade com cada uma dessas famílias. Hoje, eu tenho em mãos algo que sonhava há 40 anos, mas que não era possível, que se trata da tecnologia a nosso favor. Acompanhamos as famílias via celular, por meio das redes sociais, trocamos fotos e informações das crianças e eles até nos fazem visitas. Então, sem dúvidas, há o contato e é fundamental.

 

“Para todos os partos a gente tem que ter um preparo mental e psicológico, pois é o ato do nascimento do neném. Já estamos educados em nunca falar em outro assunto que não seja a cirurgia, nada de futebol, pescaria ou comentários que fujam do tema, pois precisamos de foco no nascimento”

ADEMAR ANZAI,

ginecologista e obstetra

 

Qual é a rotina que você segue?

Eu tenho horário apenas para acordar, que normalmente é 6h. O que vier depois é imprevisível, mas normalmente eu vou para o Hospital e Maternidade Nossa Senhora das Graças na parte da manhã, onde faço visitas, atendo emergências e faço cirurgias. De tarde eu atendo no consultório e raramente tenho momentos de lazer no período noturno. Vou de 15 em 15 dias para São Paulo, onde encontro amigos, debatemos políticas médicas em todo o Estado e vejo isso como um lazer.

Minha alimentação é feita, normalmente, por um lanche no almoço e uma refeição completa no jantar.

 

Sua família é conhecida no meio médico. Como é trabalhar com seus familiares?

Minha espora e nora são enfermeiras e meu filho também seguiu a ginecologia. Acho isso muito bom, pois você tem uma equipe, sua equipe e família, 24h por dia, e sabe que pode contar com ela em todos os momentos. Além disso, você não faz o parto sozinho, há o médico, mas toda uma equipe por trás dele, então é prazeroso compartilhar esse momento com pessoas que são sua família.

 

Por falar em parto, como é sua preparação para este momento?

Para todos os partos a gente tem que ter um preparo mental e psicológico, pois é o ato do nascimento do neném e você precisa estar em sintonia com a equipe. Já estamos educados em nunca falar em outro assunto que não seja a cirurgia, nada de futebol, pescaria ou comentários que fujam do tema, pois precisamos de foco no nascimento.  

Há uma oração por si só e pedimos proteção divina, para que tudo transcorra bem, nós deixamos os problemas para fora da sala de parto, e isso é fundamental.  

 

E o ambiente para o nascimento, como é preparado?

Costumo permitir que haja o acompanhamento do pai, por exemplo, ou de alguém que esteja acompanhando. Colocamos música na sala e vemos que isso faz total diferença. O ambiente fica muito mais suave e o casal bem mais tranquilo, quebra aquele momento cirúrgico.

Estilo do Site
  • Luz
  • Alto Contraste