ENTREVISTA

“O que você deixa é a tua lembrança e teu legado; com o livro, ele [Jorge] queria deixar uma mensagem”

Fenando Antônio Nunes Carvalho, médico veterinário, responsável pela nutrição animal da Matsuda e autor da biografia de Jorge Matsuda

  • 19/01/2020 05:15
  • MARCO VINICIUS ROPELLI - Especial para O Imparcial

O médico veterinário Fernando Antônio Nunes Carvalho é, além de funcionário da Matsuda, grande amigo do empresário e diretor-presidente do grupo, Jorge Matsuda, falecido em 1° de janeiro deste ano. Fernando é autor do livro que conta a história e traz as mensagens do homem que construiu um império do agronegócio na região. A “Biografia Jorge Matsuda”, nas palavras do autor, é uma obra humana, tanto em sua produção, quanto ao seu destino final. Foi desejo de Jorge que seu legado fosse passado adiante, e mais que isso, que ele continuasse a render bons frutos, é por isso que toda a renda da venda do livro é revertida totalmente ao HRCPP (Hospital Regional do Câncer de Presidente Prudente).

Comente sobre a sua relação com Jorge Matsuda...
Conhecia seu Jorge Matsuda há 36 anos, tive a honra de trabalhar para ele 34 anos, trabalhei para o pai dele, trabalhei para ele e hoje trabalho para os filhos. Sou responsável pela nutrição animal da Matsuda. Quando nos conhecemos, o forte da Matsuda era só semente e havia um vazio, porque a semente é sazonal, existe uma época do ano que ela não tem atividade, tinham que mandar gente embora, não tinha como manter uma equipe.
Eu era veterinário das fazendas dele, e aí eu dei a ideia para ele de montar a nutrição animal para poder ocupar esse período que ficava vazio de semente. Seria a perna direita a semente, a perna esquerda o suplemento mineral e vamos caminhar juntos, e ele aceitou a ideia, levou para família, isso foi no final de 1986. Em fevereiro de 1987, seu Jorge montou o departamento de nutrição animal, todas as formulações são minhas responsabilidades, a gente hoje tem mais de 100 técnicos, todos passaram pelas minhas mãos.
Seu Jorge era muito mais que um patrão, era um grande amigo, era um visionário, eu me coloco na posição de escudeiro, ele era o cavaleiro e eu o escudeiro.

O senhor acompanhou-o nos últimos momentos?
Eu havia o visitado na UTI [Unidade de Terapia Intensiva], uma semana antes dele falecer, nós conversarmos e relembramos mais de 30 anos juntos e falamos do futuro, mesmo ele mal, tomando morfina, sofrendo muito, mesmo assim ele mantinha a força, o corpo dele estava debilitado, mas a mente cada vez mais aguçada, idealizando projetos, temos vários projetos que vamos tocar para frente, para as próximas gerações que virão.
Conversamos, não de doença, não de morte, mas ele vendo para frente. Eu tive a honra dele me chamar de irmão no final, essa sem dúvida foi a maior honra que eu recebi na Matsuda, ele me via como um irmão, um irmão de vida, isso me deixa emocionado. Ele confiava muito na nossa conversa, nos nossos projetos.

Em relação aos livros que escreveu, como surgiu a ideia de fazê-los?
Um foi “A Saga da Matsuda”, que o Jorge queria dar um presente para os pais, porque eles sofreram muito, eles eram camponeses, Matsuda quer dizer campo de árvore, eles começaram pobres, e eles não negavam isso, se tornaram multimilionários, construíram um império e o Jorge continuava sendo uma pessoa simples. Uma pessoa que acredita nas pessoas, de uma inteligência emocional que eu nunca vi na minha vida. O livro tem vários depoimentos, inclusive da concorrência, que tem um enorme respeito.
Sobre a “Biografia Jorge Matsuda”, o seu Jorge passou por três momentos muito difíceis, ele tinha câncer há um tempo já, vinha lutando. No primeiro, há cerca de dois anos, minha filha tinha 31 anos e tinha problema renal crônico, ela fazia diálise, ela estava na UTI e o seu Jorge também estava na UTI, ele gostava muito da minha filha.
Nós já tínhamos combinado de escrever um livro, ele já tinha receio de morrer, o câncer dele era muito agressivo, ele lutou muito, muito mesmo, até os médicos se surpreendiam, nunca vi uma pessoa tão forte para viver. Minha filha faleceu em agosto de 2018, ele foi muito generoso. Passados uns dez dias, ele me ligou, e falou que iria pedir um grande favor, que não é favor de amigo, é de irmão. ‘Eu não sei se vou chegar ao meu aniversário [12 de novembro]’, eram os 70 anos dele e os 70 anos da Matsuda, estava marcada uma festa, e ele disse: “Fernando eu quero que você escreva o livro, que seja meu, mas que seja de todos”.
Então fizemos o livro que ficou pronto quatro dias antes da festa, no dia 12 de novembro eu entreguei esse livro para ele, lá em São Paulo, choramos igual crianças. Ele sempre foi um cara grande, mas se tornou maior diante da morte porque ele entendeu que tudo é pequeno, o que você deixa é a tua lembrança e o teu legado. Com o livro, ele queria deixar uma mensagem.

Como foi o processo de produção do livro?
Eu fui pegando cada personagem que foi importante da família dele e fui colocando ou uma pintura, ou uma foto, poemas que represente esse sentimento, foi feito dessa forma, esse livro é muito mais humano do que empresarial, ele falava “eu quero que meus netos, meus bisnetos, meus tataranetos, saibam quem eu fui e que os funcionários que virão saibam como se construiu essa empresa”.

Toda a venda do livro Jorge Matsuda foi revertida ao Hospital do Câncer, como também o último pedido de Jorge foi para que não mandassem flores ao seu velório e sim revertessem o valor em doações ao HRCPP. Como você vê isso?
Ele gastou uma fortuna no combate do câncer, e ele sabe que uma pessoa que não tem condições é muito difícil, uma pessoa que depende do SUS [Sistema Único de Saúde] encontra ainda mais dificuldade, então ele sente isso, ele quis que a doença dele servisse para sensibilizar que tem gente que precisa de ajuda, a grandeza dele é isso, por isso que ele é altruísta. Eu não lembro em momento algum ele reclamando da doença. O Jorge sempre ajudou, não como doador que aparece, mas sempre ajudou. O livro foi mais uma forma.
No dia 1º de janeiro, data de sua morte, a família se reuniu, eu tive a honra dele ter ligado para mim antes de ser sedado, e ele falou assim: “Nada muda!” Aí ele foi sedado às 7h para que não sofresse tanto e faleceu às 18h15.

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Aos interessados

Para comprar o livro “Biografia Jorge Matsuda” e ajudar o HRCPP (Hospital Regional do Câncer de Presidente Prudente), basta ir à loja localizada no HRCPP e o adquirir. Outra opção é fazer um depósito com o valor do livro, R$ 100, diretamente na conta do HRCPP (Fundação Hospital Regional do Câncer, Banco do Brasil, Ag. 2958-0, C/C 40404-7) e enviar o comprovante ao e-mail aline@matsuda.com.br ou juliana@matsuda.com.br, informando também o endereço para entrega do livro.
Para mais informações, o número da sede da empresa, em Álvares Machado, é (18) 3226-2000.

PERFIL
Nome:
Fenando Antônio Nunes Carvalho
Idade: 60 anos
Esposa: Isabel Alice Balizardo Carvalho
Filhos: Lívia Marina Balizardo Carvalho (in memorian), Júlia Marina Balizardo Carvalho, 29 anos, João Gabriel Balizardo Carvalho, 25 anos
Profissão: Médico Veterinário
Cidade onde nasceu: Rio de Janeiro (RJ)
E-mail: fernandoancarvalho@uol.com.br