Josefa Cordeiro do Nascimento Souza • BENZEDEIRA

"O médico possui a sabedoria do estudo e eu a sabedoria de Deus"

ANDRÉ ESTEVES - Da Reportagem Local • 28/04/2018 08:49:51

Por muito tempo, a benzedeira Josefa Cordeiro do Nascimento Souza, 75 anos, encontrou resistência para aceitar este título. Prefere ser tratada como alguém que ajuda outras pessoas por meio da oração. Também não concorda que atribuam a ela o poder de cura. Em suas próprias palavras, quem faz isso é Jesus – ela é apenas sua interlocutora. O dom de falar com Deus a acompanha desde a infância, mas floresceu após um acidente que fraturou sua coluna. Na época, Josefa afirma que Cristo foi até ela e pediu para que se levantasse. Desde então, o chamado atrai centenas de pessoas à varanda de sua casa, na Vila Real, em Presidente Prudente, onde uma rede lhe serve de suporte quando os dias demandam repouso.

Não há nada que a impeça de cumprir a sua missão. Até mesmo nas ocasiões em que precisou ser internada por problemas de saúde, aproveitava o tempo para benzer os médicos e pacientes no hospital. Josefa transpõe diariamente a descrença do marido para manter viva uma tradição que se torna cada vez mais rara diante dos revolucionários avanços da medicina. Aliás, não se preocupa em reconhecer que a prática do curandeirismo parece não deixar um legado. Enquanto Deus lhe permitir, pretende prosperar um conhecimento que não se encontra nos livros, mas na fé. Na sua atividade, é esta fé a sabedoria para si e o remédio para aqueles que recorrem à sua casa. Pessoas estas de diferentes regiões e religiões.

Em entrevista a O Imparcial, Josefa compartilha a experiência de abrir, há aproximadamente 48 anos, as portas de sua casa para que amigos e desconhecidos possam entrar e confiar a ela os seus problemas, sem nunca serem cobrados por isso. Este é, a propósito, seu maior princípio enquanto benzedeira: o que Deus concedeu não pode ser remunerado, mas irradiado. Acompanhe a seguir:

 

O Imparcial: Uma pessoa nasce ou se torna benzedeira?

Josefa: Quando ela tem o dom de benzer, nasce com ela. Eu não aceitava benzer e não queria, porque via que as outras benzedeiras sofriam muito. Eu morava em um lugar, em Anhumas, onde havia oito benzedeiras velhas que eu conhecia, então levava lá meus filhos. Mas era para eu benzer, pois já tinha o dom desde criança. Um dia, eu estava trabalhando, sofri um acidente e quebrei a coluna. Fiquei 16 dias internada e médico nenhum quis me operar, porque Deus não deixou e eu tinha que ser curada por Ele. Fui para casa numa terça-feira, três da tarde. Passados dois dias, eu estava chorando, quando Jesus chegou ao lado da minha cama e disse: “Minha filha, não chora. Você vai ser curada agora. Levanta e anda”. Eu não andava, só com cadeira de rodas. Então respondi: “Jesus, não posso andar”. “Levanta e anda, filha”. Levantei, andei e estou aqui até agora. Na mesma manhã, fui ao banco e todo mundo ficou admirado que eu estava em pé. Quando foi meio-dia, passei na igreja, conversei com o dom Agostinho [Antônio Agostinho Marochi], que falou: “Filha, que milagre. Que poder grande você tem agora. Mas há uma coisa: Você não vai negar [o dom] em nenhuma hora, seja de noite ou de dia. É tudo sim”.

 

Foi a partir daí que a senhora percebeu que não poderia mais recusar o seu dom?

A minha casa encheu de gente naquele momento. Antes, eu benzia escondidinho, mas tinha vergonha de atender com tanta benzedeira ali pertinho. No entanto, quando Jesus pediu, tive que fazer. Na época, eu via que essas mulheres se sentiam muito cansadas, porque atendiam durante o dia inteiro, mas não sinto canseira, porque foi Jesus que mandou. O movimento aqui era das 7h até perto da meia-noite, então os médicos estabeleceram um horário. Está ali o papel [diz apontando para um sulfite afixado na parede, no qual consta o atendimento em horário comercial]. Agora é até 18h, porque tive dois AVCs [acidentes vasculares cerebrais] recentemente e o médico mandou eu reduzir o horário. Mas, aqui, até sete da noite tem gente.

 

Quantas pessoas a senhora atende diariamente e como elas chegam até você?

Atendo, em média, até 100 pessoas por dia. Elas vêm de todo lugar: Campo Grande [MS], Paraná. Ficam sabendo de mim pelo boca a boca, um fala para o outro. Na semana passada, houve um dia em que atendi 20 famílias pela primeira vez. As pessoas vão chegando e nem sei quem são, mas Deus atende a todos.

 

Como o seu dom se manifesta?

O meu dom está no meu coração e, por conta disso, não esqueci mais. Jesus mandou eu me levantar daquela semana, orar pelos irmãos e não dizer “não”. O dom Agostinho falou a mesma coisa: não dizer “não” para ninguém. Já atendi às 2h da manhã, mas nunca falo “não” para uma pessoa, porque esta é uma palavra muito feia e doída.

 

O que a senhora sente ao benzer alguém?

Eu sinto prazer e alegria de ajudar. Não sinto canseira, não sinto nada, não sinto nem fome. Tem gente que pergunta como eu aguento. Respondo que estou aqui com o poder de Deus. Nossa Senhora já apareceu três vezes para me ajudar, então estou aqui com os poderes de Deus e dela. Sou muito devota, porque ela já me ajudou muito. As pessoas chegam aqui com seus problemas e há aqueles que sinto, mas não sou vidente. O que faço é ajudar no coração e na mente das pessoas. Peço para Jesus, faço o sinal da cruz, rezo três Pai-Nosso e vou benzendo. Com isso, Deus vai tocando no coração das pessoas.

 

O seu trabalho independe de religião?

Na minha casa, vêm pessoas de qualquer religião. Aqui não tem qualidade e nem quantidade. Atendo quem chega. Para mim, é tudo a mesma coisa, sem distinção. Quero ajudar as pessoas em seus problemas. Muitas vezes, vem alguém afirmando que recebeu macumba. Não acredito muito nisso, mas atendo, a pessoa começa a tremer, faço as orações e logo passa. Acabou, nunca mais. O Espírito Santo pousa. Enquanto eu benzia nessa rede [aponta para a rede instalada na varanda da casa], vieram oito pessoas com cirurgia marcada, Nossa Senhora apareceu e “operou” todos eles. Há 20 dias, havia mulheres aqui chorando porque levaram a criança no médico e descobriram que não tinha cura. Nossa Senhora de Fátima apareceu ao lado da rede. Quando temos confiança nela, ela aparece. Tem gente que chora quando a vê. Meu marido não acredita e fala que é mentira. Mas eu a sinto. É uma bênção.

 

Mesmo nos momentos em que adoeceu, a senhora manteve o atendimento?

Durante quatro anos, eu tive problemas com varizes e precisei ficar deitada na rede para continuar atendendo. A melhor coisa que procurei foi esta rede, porque pude atender com carinho, sem cansar a perna e com conforto.

 

Quais são as causas que leva uma pessoa a lhe procurar?

Eu atendo todos os problemas por igual, mas aparece muita gente pedindo emprego ou porque foi desenganada pelos médicos. Eu não sou nada, nunca fui a uma escola, então os médicos me perguntam: “Como a senhora passa remédio?” – porque eu ofereço remédios caseiros, são chás que mando fazer com as plantas que cultivo no quintal e possuem propriedades medicinais. Eu respondi: “Porque, doutor, não é saber ler que cura alguém. É Deus no coração. Você tem a sabedoria do estudo e eu tenho a sabedoria de Deus. Ele mostra o remédio”.

 

A senhora acredita que a figura da benzedeira está em extinção ou as gerações posteriores devem manter o legado?

Está acabando. Você não acha mais ninguém. O médico me proibiu de atender, mas não teve jeito de parar, porque não tem mais benzedeira lá fora. Quando vem gente de outras regiões, eu pergunto: “Mas lá não há ninguém que benza?”. Me dizem que não tem, só se pagar. Benzimento [sic] pago não vale nada. É um dom de Deus, então tem que ser de graça. Tem quem chegue aqui e pensa que vou curar. Não, eu não sou Jesus para curar, Ele cura quem acredita Nele. Se eu estou confiante em Deus e Jesus fala aqui dentro, a outra pessoa também precisa estar. Quando vem algum evangélico, pergunto: “Você é de outra igreja, por que está me procurando?”. Ele responde: “Porque você está curando muitas pessoas”. Então eu digo: “Você me desculpa falar, mas quem está curando é Jesus”. Hoje, não sei dizer se sou uma das últimas benzedeiras. Quando cheguei a Prudente, conhecia em torno de cinco, mas a maioria foi morrendo. E eu estou no mesmo caminho [risos]. Todos nós temos a hora certa.

 

Como a sua família reage ao seu trabalho?

Eu tenho 75 anos, tive nove filhos, sendo sete vivos, e nove netos. Meu marido está ali fora. Tenho apoio dos meus filhos, mas não dele. Benzo ele também para ver se o acalmo, só que ele não acredita que Nossa Senhora aparece aqui. Meu esposo é católico, tem muita fé, mas é aquela fé doentia: acredita e não acredita. Tem horas que ele fica no portão e manda as pessoas embora. Quando chega carro, tenho que ir atrás para evitar que ele mande embora. Nunca deixei que isso me impedisse. Eu digo a ele que temos que aceitar o que Deus nos deu. Uma vez, deixei o hospital e ele disse que eu não iria mais benzer. Falei: “Vou benzer até morrer. Deus me deu o dom e eu não posso negar. Foi Jesus que mandou e vou continuar”. Enquanto eu estiver andando e falando, não vou parar.

 

Qual o maior ganho que a senhora tem com a sua atividade?

Eventualmente, as pessoas me ajudam com leite e açúcar, mas eu nunca pedi nada. Conversar já é ajudar. Eu estou aqui conversando com você e isso já está me ajudando. Então a gente dá risada, mas cobrar jamais. Aqui eu me divirto e rio, mas é uma conversa sincera, porque posso fazer uma brincadeira e a pessoa achar que estou brincando ao invés de rezar. Então eu me controlo. Quem vir com fofoca pode deixá-la ali no portão.

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