"Não trabalhamos de favor, mas sim porque somos prestadores de serviço"

ANDRÉ ESTEVES - Da Reportagem Local • 03/02/2018 12:58:31

. Foto: Marcio Oliveira, Aos 24 anos, Diego Victor tem dois filhos e cuida do setor administrativo da Cooperativa de Trabalhadores de Produtos Recicláveis

A Cooperlix (Cooperativa de Trabalhadores de Produtos Recicláveis) de Presidente Prudente foi fundada em 2003 com o objetivo de organizar os catadores de material reciclável no antigo lixão e garantir a melhoria da qualidade de vida e renda para esses trabalhadores. Entre os cooperados que atuam no local, instalado no Distrito Industrial “Antônio Crepaldi”, está Diego Victor Lopes dos Santos, 24 anos, que iniciou as atividades como garimpador no aterro aos 19 anos. Atualmente responsável pelo setor administrativo da cooperativa, ele recebeu O Imparcial para falar sobre a sua transição de atravessador para cooperado, rotina, desafios, sonhos, aprendizados e a importância do serviço prestado para o município e o meio ambiente. Ele é o primeiro da seção de entrevistas “Personalidades”, que o jornal inicia hoje, com publicação semanal.

 

O Imparcial: Como ocorreu a sua transição para a Cooperlix?

Diego Victor: Desde pequeno eu já fazia os meus trabalhos. Fui criado pela minha avó e ela sempre me ensinou a ter a força de vontade de trabalhar para garantir o meu sustento. Chegou um dia que eu decidi que não trabalharia mais para os outros, mas por conta própria. Fiquei sabendo que no lixão havia bastante catador, então fui até lá para conhecer. A rotina era difícil: ou chovia ou o sol era muito quente. O trabalho também era muito perigoso, porque eu poderia encontrar qualquer tipo de coisa. A gente corria o risco de se furar com uma agulha ou se cortar com vidro. Era uma rotina bem cansativa e perigosa. Trabalhei ali por um ano. Assim que houve o contrato com a Prefeitura, que tinha a obrigação de tirar os catadores do lixão, eu fui incluso na Cooperlix. A Prefeitura assinou o contrato com a cooperativa e, como eu já tinha feito um curso nessa área, eles me deram a oportunidade na parte administrativa.

 

O que mudou na sua vida a partir do momento que passou a trabalhar como um cooperado?

A minha vida mudou totalmente, porque eu sei que aqui tenho uma retirada “fixa”. Às vezes, pode ser mais e, outras vezes, menos. Tenho uma carga horária de trabalho de acordo com a legislação, além de alimentação, transporte e INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], um benefício que eu não tinha lá [no lixão] e que me assegura caso eu sofra algum acidente ou fique doente. Então, a minha saúde e o meu bem-estar mudaram totalmente.

 

Você observa que os catadores de lixo ainda sofrem preconceito?

Nos dias de hoje, eu não vejo tanto preconceito, porque a gente colocou na nossa cabeça que a Prefeitura não é uma assistente social. Não trabalhamos de favor, mas sim porque somos prestadores de serviço. Quando a gente passa isso para a população, ela começa a nos tratar de forma diferente, pois as pessoas veem que somos uma empresa prestando serviço e que estamos recebendo pelo nosso trabalho e não por simples assistencialismo. “Ah, eu vou lá na Prefeitura e ela vai me dar uma cesta básica ou pagar uma [conta de] água ou luz”. A partir do momento que você começa a pedir, a sociedade passa a te ver de uma forma diferente e acaba te excluindo. Mas quando você mostra que trabalhou e que está conseguindo as coisas com o seu próprio dinheiro, ela já te inclui.


Quais são os maiores desafios enfrentados pela cooperativa?

Há bastante desafio. Aqui ainda não é o local adequado para a gente trabalhar, mas já vimos que a Prefeitura está construindo um novo barracão. Às vezes, a chuva é uma dificuldade e, como o nosso trabalho é no dia a dia, temos de trabalhar na chuva. Têm também os moradores que não separam o material corretamente. Nós somos bastante cobrados para prestar um serviço de qualidade, mas, muitas vezes, falta o bom-senso dos moradores, porque misturam restos de comida, fraldas e folhas e isso acaba prejudicando o nosso trabalho, já que, quando o material vem incorretamente, acaba indo para o lixo.

 

E quais foram os seus maiores aprendizados dentro da Cooperlix?

Termos uma oportunidade e sabermos aproveitá-la, porque eu não tenho uma faculdade e só fiz um curso básico após terminar os meus estudos. Mesmo assim, eles me deram a confiança de mexer com o dinheiro de todo mundo. Essa confiança foi a melhor coisa que me aconteceu, além de conseguir provar para eles que sou uma boa pessoa e consigo administrar o dinheiro da cooperativa de uma maneira correta. Vejo que a Cooperlix é um local muito bom para trabalhar e penso em fazer uma faculdade ou alguma coisa específica nessa área para ajudar as pessoas que trabalham aqui, pois muitas delas não têm estudo nem conhecimento. Então, gostaria de fazer uma faculdade para ajudar os meus colegas de trabalho.

 

Qual a importância da figura do cooperado para Presidente Prudente?

Eu vejo uma importância muito grande, porque somos a maior cidade do oeste paulista e conseguimos realizar uma coleta que atende 220 mil habitantes. Coletamos de 220 a 250 toneladas de um material que poderia estar sendo descartado de maneira incorreta, mas que estamos contribuindo para que isso não aconteça por meio da reciclagem. Então, a gente está ajudando o planeta, o bem-estar do município e também a parte financeira, porque se esse lixo continuasse sendo enterrado, a cidade poderia nem ter lugar para descartá-lo. A cooperativa tem ajudado a Prefeitura a administrar o município, sendo assim, nos sentimos muito importantes para Prudente.

 

Como funciona a rotina de um cooperado?

O cooperado faz de tudo: coleta, triagem, trabalha na prensa, então não tem um cargo fixo. No dia a dia, nosso trabalho começa na rua, depois os caminhões descarregam o material, que é enviado para as prensas e, em seguida, para a comercialização. Depois disso, recebemos pelo material vendido. No lixão, alguns tiravam R$ 300 por mês, mas aqui pode ter a certeza de que a retirada vai ser suficiente para conseguir sustentar a família.

 

O aterro sanitário ainda não é um problema solucionado em Prudente. Em contrapartida, você acredita que a coleta seletiva está bem encaminhada na cidade?

Ainda há alguns problemas na parte de logística, como a falta de caminhões, que é o que mais atrapalha. Mas creio que consertando isso, dá para melhorar o serviço muito mais. A Prefeitura precisa disponibilizar cinco veículos para a gente, porém, pelo tamanho do município e a quantidade de material para a coleta, esse número não é suficiente. Teria que ser mais. Temos um cronograma para atender todos os bairros da cidade, mas por conta do déficit de caminhões, não conseguimos contemplar todos, porque o município cresceu, o volume de material aumentou, mas a quantidade de veículos continua a mesma.

 

Quem é o Diego Victor fora da cooperativa?

Sou casado, tenho um filho e minha mulher está grávida de quatro meses do segundo. A Cooperlix é minha fonte de renda e, com o nosso esforço e a colaboração da população, consigo ter uma retirada boa para conseguir pagar as contas e sobreviver.

 

Quais são os seus maiores sonhos hoje?

Fazer uma faculdade, me especializar na minha área para conseguir desenvolver o meu serviço com mais qualidade, ajudar para que a cooperativa seja bem vista no nosso município e que os nossos serviços sejam prestados com mais excelência para que a população e o meio ambiente fiquem satisfeitos com o nosso trabalho. Eu já tenho bastante planos, agora é só colocá-los em prática e eu creio que serão realizados. Para o futuro, eu pretendo que a Cooperlix cresça e que a gente vá atrás de novas tecnologias, equipamentos e caminhões, para que a cooperativa se expanda e seja reconhecida na cidade.

 

Qual a diferença entre o Diego Victor que trabalhava no lixão e o Diego Victor que atua como um cooperado da Cooperlix?

Não estou querendo me achar, mas sempre me considerei uma pessoa boa. Tanto lá [no lixão] quanto aqui, sempre ajudei as pessoas, mas pela confiança que recebi nesse lugar, pude notar que sou alguém importante para todo mundo. Ao ver que algumas pessoas daqui são muito sofridas, consegui ser mais solidário, ajudá-las a mudar de vida e dar uma oportunidade àquelas que são excluídas da sociedade. Porque, na cooperativa, a gente não vê se a pessoa já foi presa ou se já foi usuária [de drogas]. Para nós, isso não importa. A gente dá a oportunidade de trabalho e uma nova chance de ser inclusa na sociedade, mostrar o seu trabalho e ter a possibilidade de não voltar ao que era antes.

 

Foto: Marcio Oliveira, “Pretendo que a Cooperlix cresça e que a gente vá atrás de novas tecnologias”

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