"Foi mais difícil perder o cabelo do que retirar a mama"

ANDRÉ ESTEVES - Da Reportagem Local • 17/03/2018 10:15:34

Para a professora Luiza Elizabeth Cintra Soares, 53 anos, o câncer de mama foi um divisor de águas. Na realidade, ela costuma dizer que sua vida é dividida em dois momentos: antes do diagnóstico e após a cura da doença. O intervalo de tempo entre um e outro serviu para que enxergasse sua vida sob um novo prisma. Superado o desafio, decidiu encontrar um novo significado para a sua existência e deixar para trás tudo aquilo que aprisionava a sua liberdade emocional, como seu casamento e a falta de tempo para si própria.

Nada disso teria sido possível se não houvesse o apoio de sua família, amigos, alunos e as mulheres do grupo Amigas do Peito, com sede em Presidente Prudente, onde passou a frequentar e se tornou voluntária. Atualmente, Luiza é uma extensão da entidade. Isso porque ela levou a missão do grupo até Pirapozinho, cidade onde reside, com o objetivo de que as mulheres na mesma situação compartilhassem suas experiências e unissem forças para a superação dos problemas – um verdadeiro exemplo de sororidade, termo utilizado para definir a aliança feminina.

Hoje, Luiza aguarda a aposentadoria para poder se dedicar a si, aos dois filhos e ao neto. Em entrevista concedida a O Imparcial, a professora conta sobre os dias de calvário e seu renascimento como mulher. Acompanhe nas linhas a seguir:

 

O Imparcial: De que forma você descobriu que estava com câncer?

Luiza: A descoberta da doença foi por meio de exames de rotina, quando eu tinha 43 anos. Eu fazia controle de cistos líquidos e repetia os exames a cada seis meses. Foi graças a essa ultrassonografia semestral que detectaram que o que pensávamos ser um cisto era na verdade um nódulo. Ele ficou do tamanho de um feijão e em seis meses já estava com três centímetros.

 

Qual foi a sua reação ao receber a notícia?

É muito impactante, porque nós nunca achamos que isso vai acontecer conosco. A gente ouve falar, mas pensa que isso é coisa de outro mundo e que não está perto de nós. Então foi bem assustador receber o diagnóstico. A primeira ideia é que você vai morrer. Quando descobri, eu estava em estágio dois, o que já não é uma coisa tão simples e requer quimioterapia.

 

No que consistiu o tratamento?

Primeiramente, a médica mastologista tirou um pouquinho do nódulo e enviou para a biópsia. O resultado apontou que se tratavam de células multinucleadas, portanto, o conselho era extirpar. Depois, ela removeu o nódulo inteiro, mandou para a biópsia e veio o resultado dizendo que era realmente um carcinoma. Na semana seguinte, já fiz a retirada da mama. No espaço de 15 dias, passei por duas cirurgias: primeiro o nódulo e depois a mama toda. Isso foi em fevereiro. Em abril, comecei a quimioterapia. Foram seis sessões, então no final do ano eu já tinha terminado. Não consigo dizer que sofri muito, porque foram só seis sessões e não continuei ingerindo nenhum remédio depois, porque tem muita gente que precisa tomar inibidor de hormônios pelo prazo de cinco a dez anos. No meu caso, não, pois o tumor não era alimentado por hormônios.

 

Quais foram os desafios em fazer a quimioterapia?

É muito traumatizante, porque os efeitos colaterais são horríveis. O olfato fica muito aguçado e você não pode com o cheiro de nada. No primeiro dia, eu sempre vomitava. Se não vomitasse, a cabeça não parava de doer. Do primeiro ao quinto dia, eu só queria dormir, dormir, dormir, porque o tratamento vai derrubando a sua imunidade, então eu só piorava. Quando passava o quinto dia, eu começava a melhorar, mas quando eu já estava bem, vinha a sessão seguinte. Não dá para descrever o mal-estar, só quem passa por isso sabe o que é. Mas, hoje, avaliando tudo o que aconteceu na minha vida, acho que nada acontece por acaso e temos que tirar o lado bom de tudo. Hoje eu sou muito mais feliz do que era antes.

Como você distingue a Luiza antes do câncer e a Luiza após o câncer?

A Luiza antes do câncer só pensava em trabalhar. Não tinha tempo para lazer, não tinha tempo para nada. A partir dessa fase, comecei a reagir e reavaliar a minha vida, dar mais valor ao que a gente tem, cuidar mais de quem está perto e valorizar a questão de você existir. Você não está aqui por acaso, então você tem que fazer essa vida valer a pena. Eu era casada e hoje não sou mais, porque meu ex-marido não me deu apoio nenhum. Nos dias de quimio, não me acompanhava e nem se preocupava. Não sei se é porque ele não dava conta da situação, mas, para mim, se tornou insustentável. Em uma conversa com a mastologista, ela disse que quando a gente passa por uma situação como essa, é Deus te chacoalhando e dizendo que é hora de tomar uma decisão diante da vida, colocá-la nos trilhos. “O que você passou até aqui fez com que você tivesse um câncer, mas se você continuar assim, ele vai voltar”. Então levou dois anos e meio para eu tomar a iniciativa de tomar as rédeas da minha vida. Quem não mudou em 26 anos não ia mudar mais, logo, coloquei um basta nisso.

 

Qual foi o papel da sua família neste contexto?

A família foi a chave para a recuperação. A doutora diz que quando a gente tem uma doença dessa, precisamos de três elementos para a cura: amor, fé e alimentação saudável. Eu descobri que tinha amor muito além do que a família me dava. A comunidade de Pirapozinho foi muito solidária nesse momento. Vinha gente me visitar e até mesmo trazer aquelas pílulas de Frei Galvão para eu tomar. O carinho foi bastante grande. Os amigos e alunos que eu tinha na época vinham aqui e faziam oração e louvor, então tive bastante apoio nesse sentido.

 

Qual foi o seu primeiro contato com o grupo de apoio Amigas do Peito?

Eu era professora e tive duas alunas cuja mãe já tinha passado pelo câncer de mama. Na véspera da minha cirurgia, elas trouxeram a mãe aqui para poder conversar comigo. Ela me mostrou que era mastectomizada também e como era o sutiã e a prótese. Foi me mostrando tudo e me preparou para isso. Em seguida, me convidou para conhecer o grupo Amigas do Peito, porque, até então, era a única de Pirapozinho que frequentava o grupo e fazia parte das reuniões. Ela me falou de uma vontade que tinha de fazer alguma coisa pelas pacientes da nossa cidade, mas que sozinha não conseguiria. Então, me pediu ajuda nesse sentido: de entrar em uma parceria para conversar com o prefeito a fim de levar essas pacientes até o grupo. Sendo assim, eu fui. Naquela época, as Amigas do Peito se reuniam em um salão da funerária Athia. Então pensa só: você está com câncer e vai em uma reunião em um salão de uma funerária. É uma situação bem irônica. Como se tratava de um grupo de pessoas com câncer, eu imaginava que chegaria lá e encontraria um monte de mulheres queixosas e derrotadas. O que encontrei foi o oposto. Encontrei mulheres muito otimistas e que não se deixaram levar pela doença. Me espelhei nelas, o que foi um ponto importantíssimo. As reuniões ocorrem mensalmente e o foco é não falar da doença. Você está diante de pessoas que passaram pelo mesmo problema e que superaram, então aquele estigma trazido pelo câncer de que você vai morrer começa a ficar de lado. Você vê esperança. Onde tem esperança, você consegue vencer.

 

Atualmente, qual é o seu trabalho dentro do grupo Amigas do Peito?

Eu comecei junto com essa amiga a reunir mulheres aqui da cidade e a Prefeitura cedeu ônibus para levar as pacientes. Hoje a gente faz parte de lá, mas também temos um grupo específico em Pirapozinho. O Fundo Social realiza uma reunião de vez em quando, traz alguém para falar, faz alguma dinâmica ou artesanato, enfim, junta todas essas mulheres para que elas vejam que estamos vivas.

 

Você sentiu a sua feminilidade atacada em decorrência do câncer?

Para mim, foi mais difícil perder o cabelo do que tirar o peito, porque este você tampa, coloca uma roupa, uma prótese externa, mas o cabelo é visível, não tem como. Sofri muito com a ideia de que ele ia cair. A partir do momento que comecei a puxar o pente molhado e ver os fios saírem, chamei meu filho e pedi para passar a máquina. Sentei lá fora e lembrei daquela novela em que a moça chorava. Mas eu disse: não vou chorar. No final, meu filho virou para mim e disse: “Ah, mãe, até que não ficou feio”. Botei um chapeuzinho de praia e fui para a rua. Foi logo no começo e naquele dia eu tinha que fazer um trabalho com meus alunos, sendo assim, precisei esquecer essa questão do cabelo para poder dar atenção a eles. Daí para frente, foi normal. Não usei peruca, só lenço. Primeiro porque sinto muito calor e a peruca esquenta bastante. Além disso, não me imaginava usando uma peruca e me adaptei bem aos lenços.

 

Você permaneceu exercendo a profissão enquanto estava com a doença?

Fiquei cerca de seis meses usando as licenças-prêmio que eu tinha. Depois passei dois anos afastada com pedido de readaptação. Então voltei a trabalhar, mas ao invés de estar na sala de aula, fiquei na biblioteca, na secretaria, fazendo outras coisas na escola.

 

Hoje você está completamente curada do câncer?

Graças a Deus, nunca mais apareceu. Eu vou à mastologista duas vezes por ano e faço exames com meu oncologista anualmente. No começo, eu o via de três em três meses, depois passou para seis em seis meses e, atualmente, é de oito meses a um ano.

 

A doença deixou alguma sequela?

Quando a gente tira a mama, é preciso esvaziar a axila, então o braço fica comprometido. Você não pode machucá-lo porque a cicatrização demora, já que perde a drenagem do braço. Há casos em que ocorre linfedema. Incha e não desincha mais. Graças a Deus, não tive nada. Somente no começo, eu sentia dor ou formigamento ao erguer o braço, mas, depois de dez anos, isso já faz parte de mim e não tem diferença nenhuma.

 

O que você tira de positivo desta etapa da sua vida?

O momento de repensar a vida e ver o que realmente vale a pena. Tudo tem que ter um sentido e viver é muito bom. Hoje eu me preocupo comigo e com meus filhos, saio para dançar e curto meu neto. Eu li um livro de um médico francês que fala sobre o câncer. Dentre as coisas que ele diz, uma coisa que me chamou a atenção é que todo mundo tem que buscar um sentido para estar vivo. Então eu vejo que a gente passa por fases. Nessa fase que estou começando agora, deixei a personagem professora de lado e entro na personagem filha – porque tenho pais vivos – e na personagem mãe. Quando eu visito as mulheres que têm câncer na cidade, sempre procuro dizer a elas: procurem um motivo para estar vivas, não podemos viver por viver. Nesse momento, o que faz sentido para mim é ver meu neto crescer e meus filhos prosperarem.

 

Tem traçado metas para a sua vida pessoal?

Eu quero viajar e conhecer os lugares que não conheço, porque quando você trabalha, só tem o fim de semana para isso. Também quero estar mais presente na vida dos meus filhos. A gente tem o projeto de fazer uma viagem para Las Vegas [EUA] no final do ano. Além disso, quero conhecer o Nordeste.

 

Qual a mensagem que você deixa para as mulheres que acabaram de descobrir o câncer?

Digo que a doença não é um bicho de sete cabeças e que elas não podem perder a esperança, porque ter esperança é parte da cura. Tudo que você quer com muita vontade, você consegue. Só não pode desistir.

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