Paulo Miguel

Foto: Paulo Miguel

ENTREVISTA

“Faço da literatura e da poesia um caminho de encontro com Deus”

Thiago Calçado, padre e escritor

  • 01/10/2019 08:45
  • GABRIEL BUOSI - Da Redação

Ele nasceu em Presidente Prudente, tem 40 anos, e atua hoje em Rosana, na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes. A mais nova criação dele, intitulada de “O rumo do rio é reza”, tem como abordagem a partilha das belezas naturais da região, mas em especial a cidade em que atua, em uma obra escrita ao longo de dois anos e foi dividida entre a filosofia e a poesia. Conforme o sacerdote, a renda arrecadada com a venda do livro será revertida ao Centro Social de Rosana, cujo trabalho atende pessoas carentes, famílias empobrecidas e mulheres vítimas de violência doméstica. “Isso mostra que a arte nos comove, e nos move também na direção do amor ao próximo, sem isso a religião seria vazia”.

Como foi que o senhor entrou para a vida religiosa?

Sou padre há 10 anos e atualmente trabalho em Rosana na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes. Entrei no seminário nos anos 2000 e meu maior interesse era fazer do segmento de Jesus Cristo, um modo de vida, e, além disso, um modo de encontro com o amor de Deus e o amor ao próximo.

E o interesse pela escrita e literatura, como surgiu dentro da sua vida?

Eu escrevo desde criança, na realidade. Costumo dizer que faço da literatura e da poesia um caminho de encontro com Deus também. Além disso, é importante dizer que Deus se revela tanto através da arte, que é um dos modos mais perfeitos de conhecer a grandeza Dele. Quem encontra a beleza, encontra Deus, mesmo que não o saiba.

Por isso, Deus se revela pelos músicos, pintores e poetas, por exemplo, então eu faço da poesia uma forma também de oração, bem como uma forma de me comunicar com o Senhor.

Qual, na sua visão, é a importância da escrita, da leitura e da literatura para os dias de hoje?

Vivemos em uma época de empobrecimento da Língua Portuguesa, no sentido da vivência da língua, e o povo que se esquece da sua língua, vira as cosas para a sua pátria. Caetano Veloso já dizia em uma musica dele “minha pátria, minha língua” e talvez essa seja a melhor forma de patriotismo para cultivarmos. Defender a nossa língua, é defender um território onde o povo acaba se construindo na sua cultura, sonhos e valores. Quando nos esquecemos disso, nos esquecemos de nos construir enquanto indivíduos. A literatura é um exercício de cidadania também.

Neste novo livro, qual mensagem gostaria de passar aos leitores?

Eu gosto muito de citar uma poetisa mineira, que afirma que “qualquer coisa é casa da poesia”, e, por isso, a verdadeira poesia não tem o compromisso de querer insinuar nada ou mandar indireta a ninguém, ela é uma forma de expressar o sentimento e aquilo que não cabe nos conceitos.

Nesta obra em especial, eu faço uma dedicatória ao povo de Rosana, onde trabalho, em que os fins de tarde lembram que cada segundo da nossa vida é uma promessa. Ali, no entardecer, Deus se manifesta na sua nudez mais comunicativa, seja pelas belezas naturais daquele lugar, seja na beleza do que é o mais bonito da cidade, que é sua gente.

Além disso, o livro trata de paixão, amor, de entender o humano como o lugar mais sagrado onde Deus quis habitar. Nesse sentido, acho que a poesia é uma grande arma contra ódio.

Nesta obra você fala que a poesia transforma o trágico em beleza. Como isso ocorre?

O trágico é o lugar onde conciliamos a tragédia da vida, onde elas deixam de ser um lugar de tristeza, ou apenas de sofrimento, mas os lugares onde as coisas se conciliam. As poesias não precisam conciliar tudo e elas têm essa arte de transformar mesmo o maior sofrimento, em uma expressão de sentimento que pode ser um ensinamento, como o modo como alguém venceu uma luta na vida. Ela vem para dar sentindo, mesmo no sentimento mais sem sentido.

Soubemos que a verba arrecadada será revertida para o Centro Social de Rosana. Qual a importância desse ato?

Todo o lucro da venda será revertido, justamente para a assistência às famílias carentes. Acredito que é de grande importância, para mostrar que a arte nos comove, e nos move também na direção do amor ao próximo, sem isso a religião seria vazia.