Arquivo Pessoal - Larissa afirma que é necessário dialogar sobre racismo

Foto: Arquivo Pessoal - Larissa afirma que é necessário dialogar sobre racismo

ENTREVISTA

“É essencial que tenhamos mais professores negros”

Larissa Costa, advogada, professora universitária e presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB de Presidente Prudente

  • 20/11/2019 06:49
  • GABRIEL BUOSI - Da Redação

Alunos e professores negros, a cada dia que passa, estão ocupando cada vez mais seus espaços – que por muito tempo lhes foram retirados – dentro das instituições de ensino. Um exemplo disso é um levantamento recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o qual revela que a população negra cursando o ensino superior em instituições públicas chegou a 50,3% em 2018, sendo, pela primeira vez, a maioria.

Abaixo, uma entrevista com a professora universitária, advogada e presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Presidente Prudente, Larissa Costa, sobre um panorama das discussões sobre o racismo e a importância da discussão sobre tais temas em unidades de ensino, desde o nível básico ao superior.

O Imparcial: O racismo, em pleno 2019, ainda é uma realidade?

Larissa: Ainda é uma problemática muito presente no nosso dia a dia em todos os setores. Voltado também para a advocacia e Poder Judiciário, por exemplo. No campo da educação, vemos o quanto é difícil a presença e permanência de professores negros e o quanto precisamos caminhar muito em direção a melhorar esse cenário. Infelizmente, o racismo ainda faz com que negros sejam excluídos e percam as oportunidades e vagas de emprego. Como se a cor pudesse ser um fator limitante.

Qual a importância do professor negro nas instituições de ensino?

A representatividade é algo muito marcante quando falamos do racismo estrutural. É neste momento que os estudantes terão alguém em quem se espelhar e de ter novas esperanças. Esses professores dentro do ensino, desde o nível básico, é uma forma de trazer uma inspiração e falar sobre o assunto. Digo que é essencial que tenhamos mais professores negros em todos os níveis, pois nossos números ainda são bem restritos e espero que possamos agregar nossa vivência nesse cenário para fomentar discussões dentro de sala de aula. Tal representatividade é essencial, ela não basta, mas é o primeiro passo para reverter práticas racistas. Isso porque, quando o professor tem voz, ele pode influenciar no sentido de inspiração e inclusão.

Como enxerga essa democratização do ensino superior para a população negra?

Hoje temos novos números de um panorama que mostra que há efetivamente mais negros no ensino superior público e isso é uma conquista civilizatória, bem como um ganho para toda a sociedade. Isso porque, os negros são maioria e estão na base da sociedade, e quando conseguimos mudar e inserir essa base, vemos uma mudança na desigualdade e no processo de distribuição de renda. É preciso considerar políticas publicas que possibilitaram a inserção dos negros no ensino superior, mesmo ainda havendo uma defasagem, já que os salários continuam mais baixos, por exemplo.

Há desafios em ser uma professora negra? Quais?

Existe sim. Carrego duas questões que são decisivas: o fato de ser mulher, o gênero, e de ser negra, a raça. Muitas vezes você tem que provar que é bom o suficiente e mostrar que está ali por merecimento. Além disso, você é sempre desacreditada, por de alguma forma, carregar esse estereotipo. O desafio é reverter essa imagem, pois em vários lugares que chego, as pessoas me olham de forma diferente, com o questionamento de saber se tem ou não algo de bom a oferecer. O grande desafio é de o professor negro reverter essa ideia de que a raça o limita.

Como a discussão sobre o racismo e a necessidade de combatê-lo está sendo levada para as salas de aula?

Atualmente a gente tem até leis que colocaram como obrigatória essa discussão, seja no ensino básico ou superior. Para o racismo, no entanto, esse debate ainda é muito restrito, pois as pessoas não gostam de falar sobre isso. Encontramos até situações em que muitos dizem que não existe o racismo, que essa é uma forma de se vitimizar. De fato, é necessário dialogar sobre esse tema, e não vejo de forma profunda como deveria ser, ou um estudo amplo sobre isso. Algumas escolas e cursos superiores fazem, mas de forma pontual.

PERFIL

Nome: Larissa Aparecida Costa

Natural de: Presidente Prudente

Idade: 26 anos

Formação: Graduada em Direito, pós-graduada em Direito Penal e Processo Penal e mestre em Direito

Atividade profissional: Professora universitária e advogada

Contato: Larissac.adv@gmail.com

GABRIEL BUOSI

GABRIEL BUOSI

Jornalista

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