"Enquanto meus avós achavam que a mulher precisava cozinhar, eu investia em livros"

GABRIEL BUOSI • 07/04/2018 10:12:44

 Elza atua como pediatra em Prudente desde 1982; hoje atende no HR e em consultório particular. Foto: Marcio Oliveira

Elza Akiko Natsumeda Utino nasceu em Mirandópolis, no interior de São Paulo, e desde criança, motivada pelo padrinho do seu pai, o “grande Senhor Edgar”, sonhava em ser médica. Para chegar ao tão esperado cargo de pediatra, profissão que exerce desde 1982 em Presidente Prudente, quando chegou à cidade com o marido, Elza afirma ter encontrado antes mesmo do início da faculdade o desafio de ser uma mulher com sonhos que fugiam daqueles propósitos idealizados pela família tradicional japonesa.

Os estudos tiveram início em Minas Gerais, na cidade de Itajubá, no ano de 1977, sendo que a trajetória dela contou ainda com a residência médica na capital paulista, seguida por uma mudança para o interior do Mato Grosso do Sul, quando ela casou e decidiu se mudar para Prudente. Na cidade, trabalhou no extinto Hospital São Sebastião e logo que chegou foi convidada para das aulas na Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), onde atua até hoje.

A rotina corrida é conciliada ainda com atendimentos no HR (Hospital Regional Dr. Domingos Leonardo Cerávolo), no consultório particular e atividades extracurriculares. Na entrevista abaixo, a médica comenta sobre o apego com as crianças, dificuldades e conquistas com os quase 40 anos de profissão, além de dar um show sobre o amor ao trabalho prestado para as diversas famílias que passam por suas mãos. Confira.

 

O Imparcial: Como você chegou à decisão de que a medicina seria a sua profissão?

Elza: Eu era bem pequena e me lembro de que o padrinho do meu pai, o Senhor Edgar, era um homem enorme, de tamanho mesmo, e que sempre me carregava nas costas. Eu achava o máximo e comecei a me interessar pela área da medicina, pois era o que ele fazia, sempre quis fazer, e vi que aquilo poderia ser também a minha profissão. No entanto, sou de família japonesa e as mulheres que se aventuravam em escolher essas profissões não eram tão apoiadas pelas famílias, não era algo liberal naquela época, mas, mesmo assim, meu pai e minha mãe nunca foram contra a minha escolha e com isso, consegui conciliar. Enquanto meus avós achavam que a mulher precisava cozinhar direitinho e cuidar da casa e do marido, que era o que minhas primas faziam, eu gastava dinheiro com livros e me dedicava ao estudo. Mas eu até que cozinho bem, viu? Aprendi para agradar os meus avós, não fica igual à comida das minhas primas, mas na hora de comer [risos], o sabor é o mesmo.

 

Você acredita que esse foi o primeiro desafio encontrado na escolha profissão?

Sem dúvidas esse foi o primeiro impasse, pois naquela época, pequena e começando a entender as coisas, precisava lidar com a tradição da família e a realização do meu sonho. Vejo, porém, que tem muita gente que quer ser independente e desafia tal independência, mas o que precisamos, de fato, fazer, é negociar dentro de casa para então trabalhar e respeitar também a ideia da sua família e do seu parceiro, como fiz. Eu tive a sorte de casar com uma pessoa que entende quando estou trabalhando, não implica com meus horários ou com quem estou e isso deu muito certo. Me considero independente, mas é uma independência moderada e negociada.

 

E quando de fato começou o contato com a medicina?

Estudei Medicina em Itajubá, Minas Gerais, e iniciei a faculdade em 1977. Ao terminar, fiz residência na capital de São Paulo, quando fiquei por um ano, e depois me mudei para Dourados, no Mato Grosso do Sul. Foi lá que eu me casei e, por causa do meu marido, me mudei para Presidente Prudente, no ano de 1982. Penso que todo começo é difícil para todo mundo, mas eu soube aceitar as coisas que vieram para mim, bem como as propostas que chegaram. Meu primeiro contato aqui na cidade foi no Hospital São Sebastião, que nem existe mais. Lá eu trabalhava meio período e conciliava, pouco tempo depois, o outro período do Palácio da Saúde. No mesmo ano em que cheguei, fui convidada pela Unoeste para dar aulas no curso de Enfermagem, depois estendi para a Fisioterapia e então a Medicina. Depois tive a oportunidade de trabalhar no extinto HU (Hospital Universitário), que hoje é o HR. Também trabalhei com a Prefeitura, nas escolas e UBS [Unidades Básicas de Saúde], com serviços de conscientização em relação ao cuidado com as crianças. Era um desafio muito grande, pois era muita gente para um tipo de medicina que o pessoal não estava acostumado. Foi no HR que eu comecei a fazer exatamente o que sonhava, na pediatria, e quando tudo começou a melhorar, como a chegada das subespecialidades pediátricas. A trajetória no papel é simples, mas há muita luta para chegar onde idealizamos.

 

Nestes quase 40 anos de profissão, quais foram as principais mudanças?

A medicina, sem dúvidas, mudou muito em todos estes anos, mas a gente precisa estar preparada para mudar, pois costumamos ser muito cômodos e não queremos deixar nossa zona de conforto. Todos os dias aprendemos alguma coisa e isso acaba até rejuvenescendo o profissional. Na pediatria, por exemplo, você não pode jogar fora aquilo que existe desde que o mundo é mundo, como o aleitamento materno, a alimentação correta da criança e a educação. Isso nós temos que preservar, mas não podemos ignorar a presença das tecnologias e que hoje trazem tantos benefícios no momento do diagnóstico. Vejo que essa é uma das principais mudanças, a chegada da tecnologia a favor da medicina, bem como os conceitos e comportamentos das famílias, que mudam conforme a passagem do tempo.

 

Como é sua rotina? São dias corridos ou tranquilos?

Levanto bem cedo e vou direito para o HR. Lá, interajo com os alunos, funcionários, famílias e pacientes. À tarde eu continuo no hospital e quando vejo já são 18h. Nesse meio tempo, eu costumo dar as aulas na Unoeste, entre ambulatórios e atividades extras da unidade, e conciliar algumas consultas no consultório particular, que são poucas. Minha equipe é formada por muitos alunos que estão aprendendo, e que adotei como filhos, já que os meus três se mudaram para São Paulo, e vejo que todos nós temos como principal objetivo o atendimento de qualidade para a criança.

 

Como é o contato com as famílias dos bebês atendidos?

No Hospital Regional, o contato tem início no momento da internação da paciente para ganhar o bebê, pois precisamos conhecer e ter contato com a mãe antes mesmo da chegada da criança. Se tudo ocorrer bem no parto, quando o bebê estiver com 3.5 quilos e sem nenhuma patologia, ele já é encaminhado para o atendimento do município, como em UBS. Só ficam para acompanhamentos mais profundos os que tiverem alguma patologia. Já as crianças que atendo no consultório podem passar pelos meus cuidados até os 18 anos, se necessário, mas vale lembrar que se a família cuidar com todos os cuidados certos, a criança não adoece e as visitas ao pediatra serão apenas para acompanhamento.

 

É comum que haja apego com as crianças ou já virou rotina?

Costumo dizer que os pacientes e as mães são surpreendentes. Pela quantidade de coisas que eu faço e pelo tanto de crianças que eu já atendi, por muitas vezes penso que não “paparico” elas, mas são em momentos como os encontros de corredores, quando elas nos abraçam e contas histórias, na linguagem deles, é que eu percebo a ligação que crio com cada uma delas. Eu acabo sabendo o nome, o que elas gostam ou não, se estão de bom humor ou não e com o tempo vamos entendo as suas personalidades. Sei que não é nada doentio, é aquela ligação dentro do profissionalismo.

 

Seria esse um dos lados positivos da profissão?

Eu diria que essa é a melhor parte da pediatria, não há nada melhor do que o contato com as crianças. Elas estimulam você, falam coisas inacreditáveis e nos fazem crescer a cada dia que passa, tanto na espiritualidade, como no próprio conhecimento. E são coisas que você nunca imagina que elas teriam capacidade de fazer ou falar. Fora isso, penso que o carinho que recebo, tanto das famílias, quanto dos meus colegas de trabalho, seria um ponto positivo. Pois eles demonstram diariamente o carinho comigo, e, gestos simples, como me trazer comida nas vezes que, por causa da correria, eu deixo de comer. Eles cuidam muito de mim, não tenho o que queixar.

 

Mas por outro lado existe o lado negativo da profissão. Quais são esses desafios?

Os desafios são diários, mas todo mundo que sonha com algo e tem um objetivo precisa lutar por isso. Precisamos tem em mente que se começamos algo, precisamos dar um meio e um fim para isso, que já adianto, não é um mar de rosas. Você precisa lutar diariamente e com persistência para alcançar os seus objetivos. E é isso que faço, sempre com respeito às ideias e limitações do próximo. A minha rotina agitada também é um desafio, mas não posso ficar reclamando, pois não quero ficar apenas no meu mundo. Só vou para a minha casa quando termino tudo o que tenho que fazer, mas sei que todos temos uma missão na Terra e, por isso, precisamos fazer com prazer e muito amor, diferente do que muita gente faz como se fosse uma obrigação. Sou pediatra porque tenho prazer e sou muito retribuída por isso.

 

As crianças falam coisas inacreditáveis e nos fazem crescer a cada dia que passa, tanto na espiritualidade, como no próprio conhecimento

 

O Imparcial: Quais foram as histórias que mais te marcaram na profissão?

Posso destacar duas delas, que representam o lado triste e o lado feliz da profissão. A primeira delas foi a história de um menino que tinha 14 anos e foi diagnosticado desde criança com uma doença degenerativa, a Distrofia Muscular Progressiva. Um dia, no hospital, eu estava no quarto dele e fui surpreendida com ele se despedindo e dizendo que estava “indo embora e pronto para partir”. Nisso, eu me despedi, como sempre fazia e saí do quarto dele, quando, aparentemente, ele estava bem. No dia seguinte, quando cheguei, não vi o nome dele no quadro que continha o nome dos pacientes atendidos e naquele momento percebi que ele havia mesmo partido. Sabíamos que isso ia ocorrer algum dia, pois é uma doença que não tem o que fazer, mas foi marcante ver ele se despedindo e tendo certeza de que aquele era o último dia dele. Isso ocorreu há uns 14 anos. Mas também tem a história que marca de maneira positiva, como a de uma mãe que não tinha muitas condições, e teve uma filha que nasceu prematura e desnutrida. Certo dia ela me encontrou no hospital e questiono se eu lembrava da garota, mas, como sempre fazemos, imaginei o pior da situação. Foi quando fui surpreendida com ela dizendo que, por causa de palavras que eu disse para ela, a filha dela foi criada para realizar todos os sonhos e, por isso, encontrava-se na faculdade. Fiquei feliz em ver que uma mãe que não tinha condições e poderia ter dado um futuro diferente aos filhos, optou por oferecer a educação e a partir do que eu disse. Isso faz uns oito anos e ainda me marca.

 

Você tem uma ideia de quantas crianças já passaram pelas suas mãos?

É impossível ter um número correto. Não vou arriscar nem um chute para isso, pois, principalmente no início da minha carreira, atendi muitos pacientes, mas muitos mesmo. Direto recebo um ‘oi’ desconhecido na rua, pois as pessoas me conhecem, e não tenho dúvidas que de eu devo ter passado por aquela família. Por isso, já perdi as contas.

 

Por fim, com toda essa experiência, o que é a pediatria para você?

É o início da vida e de todo o indivíduo. Todos deveriam ter passado por um pediatra, pois é o profissional que cuida da criança, a norteia para o futuro, com ou sem doenças. É você pegar e mostrar que existe o lado difícil da criação, mas há ainda o lado bom de ter um filho. A pediatria vai muito além de cuidar de doenças, se trata da evolução do ser humano.

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