"Cuido do meio ambiente porque me sinto bem e para não ficar parado"

GABRIEL BUOSI • 09/06/2018 09:39:57

Em meio à semana voltada às ações de conscientização e cuidados com o meio ambiente, muito se pergunta sobre a participação dos mais interessados em viver em um mundo melhor, limpo e cuidado: a população. Comemorado na terça-feira, o Dia Mundial do Meio Ambiente conta, no entanto, com atividades que percorreram toda essa semana e seguem pelo mês de junho. Antes de apresentar a personalidade desta edição, vale lembrar que, conforme o Ministério do Meio Ambiente, a data foi estabelecida em 1972, com o objetivo de sensibilizar a opinião pública para a necessidade de proteger e valorizar nosso espaço. Antes mesmo da década de 70, contudo, o aposentado João da Rocha Teixeira já liderava o bairro em que vive, em Presidente Prudente, à frente de ações que pensam, justamente, no meio ambiente e nas causas populares.

No seu legado ao longo dos 60 anos em que habita a Vila Maria/Vila Nova Prudente, “seu João”, como é conhecido, coleciona duas pastas com documentos que tratam dos interesses públicos, principalmente no que diz respeito ao meio ambiente, ações que renderam ao munícipe, em 2015, a denominação de uma praça, área de lazer, com seu nome, por meio da Lei 8.893/2015, que, para o aposentado, é sinônimo de responsabilidade, cuidados, e dedicação, ainda mais por carregar a sua marca. A praça fica entre as ruas Manoel Dias Pimentel Júnior e Cícero Bispo e conta, desde então, com os cuidados, inclusive financeiros, do morador. Confira abaixo o bate-papo com o líder comunitário, de 88 anos, como ele mesmo gosta de ser chamado, que garante não medir esforços quando o assunto é cobrar a administração pública por cuidados com seu bairro.

 

O Imparcial: Como começou a história de João Teixeira?

João: Eu nasci em Anhumas, em 1930, em umas terras que eram chamadas de Pamitalzinho. Ali eu tinha minha mãe, meu pai e meus irmãos que foram chegando ao longo dos anos. Minha mãe, infelizmente, morreu muito cedo, com 26 anos, e fez com que minha história ganhasse novos rumos logo ali. Ela faleceu após um parto e deixou quatro filhos para trás, mas, ao contrário do que ela pedia, meu pai contrariou as vontades dela, se mudou para uma chácara, conheceu uma mulher que havia ficado viúva e foi quando se amigou com ela e partiu para Pirapozinho.

 

E como foi esta nova fase da sua vida?

Para você ter uma ideia, meus dois irmãos mais velhos, logo no início dessa nova fase, morreram de fome e judiação e, por isso, minha avó materna logo recebeu uma carta de um tio meu, dizendo que dos quatro filhos da minha mãe, apenas dois ainda estavam vivo, e era uma carta acusatória dessa situação. Meus avós pegaram aquele documento, deram para o Juizado de menores, que mandou nos buscar e nos levar para a Santa Casa de Misericórdia de Presidente Prudente, onde ficamos por mais ou menos dois meses até nossa recuperação. Nessa época eu tinha seis anos e minha irmã pouco mais de um ano. Fiquei na casa da minha avó até cerca de 20 anos, quando conheci minha esposa [Jandira Rodrigues Rocha, já falecida há oito anos].

 

“Cuido com muito carinho [da praça], e logo quando ela foi construída, em 2015, cheguei a colocar minhas próprias mãos para realizar a limpeza do local e plantar algumas mudas de árvores”

JOÃO DA ROCHA TEIXEIRA,

aposentado e líder comunitário

 

Sua saída de casa marcou um novo período da sua história?

Sem dúvidas, pois foi quando eu casei com a filha de portugueses, minha esposa, e temos hoje quatro filhos, dois casais. Mas até chegar lá, tenho que dizer que trabalhei muito com minha avó, o que não era nada mole. Não cheguei a me diplomar, pois tinha que conciliar com serviços, e trabalhava com ela no negócio de lavar roupas para demais pessoas. Era um serviço que demandava força e por isso a ajudava, mas também trabalhei com a venda de frutas, mexi com gado e era essa a vida que eu tinha. Quando eu tinha 20 anos, próximo de quando conheci minha mulher, tivemos que sair de casa, por termos vendido o terreno, e nos deparamos com a morte do meu avô, que faleceu 20 dias após a entrega do imóvel. Tive um relacionamento que inicialmente durou 10 meses e resultou no nosso casamento. Conheci minha esposa na escola conhecida como Colégio Agrícola e oficializamos nossa união em 1951, quando fomos trabalhar na roça.

 

Como ocorreu a chegada aqui no bairro?

Depois que me casei, vim parar em uma casa que fica há algumas ruas de onde habito atualmente. Fiquei lá por 32 anos e estou nessa nova casa há 25 anos, sendo quase 60 anos de amor por este lugar. Me considero um líder comunitário desde 1958 e, desde então, tenho buscado soluções para que todos os moradores sejam ajudados e vivam de maneira melhor. Já solicitei, por exemplo, a retirada de árvores que estavam tombando e atrapalhando os moradores, já pedi o recapeamento e prolongamento de vias e a substituição de árvores que não estão em boas condições para pequenas e novas mudas. Tenho duas pastas [que apresentou para a reportagem] com todos os ofícios, documentos, leis e solicitações que já fiz para a Prefeitura ao longo de todo esse tempo.

 

Soube que há uma praça com seu nome no bairro, como isso ocorreu?

Como todos sabiam que eu estava ligado aos interesses do público, e por cuidar do meio ambiente, o então prefeito de Presidente Prudente em 2015, Tupã [Milton Carlos de Mello], autorizou a medida que dava meu nome para o espaço público. Ela ainda está muito crua, por ser recente e precisar de cuidados, mas o prefeito disse que queria me homenagear enquanto eu tivesse vida, pois depois não adiantaria mais. O que antes era uma pastagem, então, se tornou um ambiente de lazer e com meu nome.

 

Qual é a sua relação com a praça?

Me sinto muito feliz, ainda mais por saber que mereci essa homenagem e isso é muito bom. Cuido com muito carinho, logo quando ela foi construída, em 2015, cheguei a colocar minhas próprias mãos para realizar a limpeza do local e plantar algumas mudas de árvores. Inclusive já cheguei a gastar do meu próprio dinheiro no local, cerca de R$ 1,5 mil ao longo desses anos, com limpezas, por exemplo, pois vejo que a Prefeitura está lenta no serviço, mas o investimento vale à pena e só ocorre quando ela precisa muito. Costumo dizer que vou lá para meu lazer e cuidados de carinho com o local, pois quem deve cuidar, oficialmente, é a administração, por isso costumo ter um contato direto com os secretários, pois quando a situação não está boa, tiro fotos, faço a impressão delas e levo para que estejam cientes da situação. Por causa da minha idade [88] está um pouco mais difícil de comparecer na praça todos os dias, ou constantemente, mas passo e vou sempre que posso.

 

E como surgiu a vontade de cuidar do meio ambiente?

Sou aposentado, minha esposa faleceu já há quase oito anos, então preciso realizar algumas atividades, como o cuidado com nosso meio ambiente, não apenas porque eu gosto, pois eu realmente gosto, mas como uma forma de não ficar parado. Se eu deixar de lado essas atividades, posso aparecer qualquer dia com alguma doença e não quero isso, por isso fico me exercitando, isso me ajuda a ficar bem. Não vou trabalhar mais, pois tenho problemas na coluna e não preciso mais, então, desde 1958 sigo como um líder comunitário que corre atrás das vontades do povo.

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