José Reis -  Mario Kaneki, beisebolista, soma 53 anos de carreira, como atleta e técnico

Foto: José Reis - Mario Kaneki, beisebolista, soma 53 anos de carreira, como atleta e técnico

EXPERIÊNCIA

“A primeira vez que fui campeão brasileiro como atleta é uma das minhas principais memórias”

Nascido em Emilianópolis, Mario Kaneki reforça que objetivo do beisebol é promover disciplina e formar pessoas

  • 24/02/2019 10:00
  • THIAGO MORELLO - Da Reportagem Local

Nas regras básicas do esporte, o objetivo do beisebol é ganhar o jogo marcando mais corridas que o adversário. Mas indo além, quando se fala da prática na região, há quem garante que o mote por trás de tudo é promover a disciplina e formar pessoas de bem. Pelo menos é isso que afirma um dos técnicos da Acae (Associação Agrícola, Cultural e Esportiva) - fundada em 1929 -, tradicionalmente conhecida por reproduzir tal modalidade em Presidente Prudente, Mario Kaneki.

Beisebolista, o prudentino enraizado, mas que na verdade nasceu em Emilianópolis, tem ligação direta com o beisebol regional. Isso desde o 7 anos, idade em que realmente praticou o esporte pela primeira vez. Contudo, mal sabia que dali sairia um atleta e, futuramente, treinador da modalidade, que viria até mesmo ganhar vários títulos brasileiros.

Num bate papo com O Imparcial, hoje aos 59 anos, Mário resgatou as memórias do esporte que carregou até aqui, as mudanças que conseguiu visualizar ao longo da carreira, bem como as dificuldades de manter a tradição do beisebol na região, que ao mesmo tempo já foi consolidada, ao menos no nome.

O Imparcial: Como se desenvolveu a relação que você tem com o beisebol até chegar ao patamar atual?

Mário: Por ser antecedente de família japonesa, o esporte meio que já veio de berço, predestinado. Eu nasci em Emilianópolis, num sítio, em uma comunidade nipônica formada por cerca de 15 a 20 famílias. E, na época, montou-se uma associação entre elas, no qual o lazer era o beisebol e a escola da língua japonesa. Eu me mudei para Prudente logo em seguida, mas isso não foi alterado. E foi quando também eu joguei pela primeira vez, aos 7 anos. De lá pra cá, fui me aperfeiçoando cada vez mais na técnica, a ponto de começar a competir. E isso foi deslanchando, eu comecei a representar Prudente na equipe da cidade, como a Sorocabana, por exemplo. Foram 32 títulos de campeonatos brasileiros e uns 45 como vice, mais ou menos. Isso levando em conta o período como atleta, que foi até os 45 anos, quando eu ainda jogava pelo time veterano. Mas com 30 anos, eu já havia assumido também a minha função como técnico de beisebol, disputando aí uma média de quatro campeonatos brasileiros por ano, pensando aí em várias categorias. Mas o beisebol sempre esteve presente na minha vida e ele estaria mesmo se eu não tivesse seguido o caminho profissional. E todos os meus seis filhos são beisebolistas. Cria-se um vínculo com a modalidade, que dentro desses grupos familiares já fica enraizado como uma tradição.

Por falar em família, como foi a sua participação em relação à construção da carreira do Rodrigo Takahashi, o Bô, seu filho?

O Rodrigo sempre fui muito determinado e esforçado. A gente viu isso desde pequeno. Aos 5 anos de idade ele já começou a relação com o esporte, de forma natural também. Eu tive o prazer de conseguir repassar para ele tudo o que aprendi, pelo menos a parte fundamental, pensando no desenvolvimento da técnica, psicológico, corpo, enfim. Mas ele não foi treinado como o intuito de seguir carreira. Porém, chegou a um momento que ele mesmo decidiu isso. E para mim, vê-lo crescendo, ver como hoje ele está bem e jogando firme pelo Arizona Diamondbacks, nos Estados Unidos, é um orgulho tanto como pai quanto treinador. Porque eu participei dessa evolução.

Ao longo da sua carreira, qual foi a diferença de relação com o esporte sendo atleta e depois técnico?

A diferença é que tudo muda, né. Primeiro em relação ao tempo, que ele passa e as coisas vão se reinventando e se adaptando. A educação intrínseca nos ensinamentos do beisebol era diferente. Eu sou de uma época em que, como jogador, a gente lidava com a rigidez dos treinadores, que eram em sua maioria bravos. Hoje a gente vê que isso precisou mudar e continua mudando, no sentido de ter uma relação melhor com o atleta, mas sem perder a disciplina essencial. E também é meu dever, agora como técnico, repassar o que eu entendi do esporte e aprendi com ele. Claro que, sempre reciclando e vendo o que está sendo atualizado no esporte. O Bô me ajuda bastante nisso, me trazendo novidades dos Estados Unidos. Fora a questão da miscigenação, né. Se antes o beisebol, aqui na região, 90% formado por japoneses - fisicamente e familiarmente falando -, hoje isso mudou.

E hoje, com praticamente 53 anos de carreira dentro da modalidade, quais são as principais memórias que você carrega?

A primeira vez que fui campeão brasileiro como atleta é, sem sombra de dúvidas, uma das minhas principais memórias. Eu tinha 12 anos e foi um jogo na capital paulista. Foi legal ver aquilo acontecendo porque era um time praticamente formado por meninos de sítio. E isso foi o gás que deu pra minha carreira. Outra coisa que me marcou bastante também foi conhecer um dos melhores arremessadores que já existiram: Paulo Akiyama. Ele era meu amigo e vizinho e a gente cresceu junto. Ele amava jogar beisebol, assim como eu, e foi responsável também pelas coisas que me ocorreram. Ele sempre foi um fenômeno, um jogador sensacional. Nós dividimos, por um tempo, essas conquistas.

A Acae é tradicionalmente conhecida pelo beisebol já em Prudente. Mas como é manter esse esporte enraizado na região?

A gente pode dizer sim que Prudente é forte no beisebol, sendo até mesmo uma das principais regiões fortes na modalidade no Brasil. Hoje a maior dificuldade nossa é driblar a tecnologia, isso pensando no envolvimento da criança com o esporte. Assim como qualquer esporte, essas novas práticas do mundo virtual vieram para trazer um pouco de dor de cabeça (brinca). Mas de nome, Prudente é sim conhecida pela atividade. A ajuda da Prefeitura e do nosso patrocinador Asteca Hinomoto também é essencial.

Mais do que a prática da atividade, o beisebol tem seu significado?

A gente vê o mundo lá fora hoje em dia, e percebe o quanto as coisas estão difíceis. As pessoas são boas, mas às vezes fazer o mal parece mais fácil. E esse pensamento deve ser trabalhado, pra sabermos distinguir o que é certo e o que é errado. Dentro do beisebol, nós temos uma disciplina muito grande, que vai além da ganância esportiva. O beisebol da Acae busca formar pessoas, antes de qualquer coisa. O modo como ele é aplicado e repassado aos nossos atletas tem muito mais a ver com valores do que plano de carreira.

Fotos: Arquivo Pessoal

1971, primeiro campeonato brasileiro conquistado

A história de Mario e da Acae já foi registrada em livro