Weverson Nascimento

Foto:  Weverson Nascimento

Entrevista

“A mulher precisa acreditar nela, que não é o fim da linha, que o câncer será mais um aprendizado”

Gabriela Souza: ESCRITORA E ENFERMEIRA

  • 17/07/2019 09:10
  • WEVERSON NASCIMENTO - Da Redação

Formada há 10 anos em Enfermagem e com pós-graduação em Oncologia, a escritora Gabriela Souza nem sabia que todo o conhecimento que agregava a mais seria para ela amparo ou um completo suporte. Ela descobriu por si própria, que estava com câncer de mama. E foi diante desta situação que a jovem, hoje com 33 anos, decidiu resumir em relatos a rotina do tratamento, o dia a dia de superação aliado também ao cuidado materno. Hoje, após superar o câncer, a escritora lançará seu primeiro livro “As duas faces do câncer”, a qual reúne relatos de todo o processo de tratamento. O lançamento ocorre no dia 25 de julho, às 19h30, no Euromarket. Toda a renda arrecadada com a venda dos exemplares será destinada ao Hospital Regional do Câncer de Prudente.

Como se deu o processo de escrita?

Após descobrir que eu estava em condições de câncer, todas as quintas-feiras eu fazia sessões de quimioterapia e escrevia um texto nas redes sociais, pois eu sempre gostei de escrever, mas não ao ponto de escrever um livro. Conforme eu ia compartilhando, as pessoas gostando, demonstravam o quanto elas me usavam como um bom exemplo do que eu estava enfrentando. Elas ficavam felizes em ver a forma como eu encarava a doença e, por esse motivo, eu achei legal colocar toda essa história de superação, garra, força e fé em um livro para que as pessoas que tenham alguém ou que estão passando por isso possam ver como uma força, como um exemplo. Afinal, é uma enfermeira com todo o conhecimento que passa pela situação do câncer, por esse motivo eu decidi escrever o livro e colocar a minha história. Esse momento da minha vida seria interessante transpor para que outras pessoas tivessem conhecimento.

Você redigiu enquanto ainda estava em tratamento ou após a remissão? Quanto tempo levou para concluí-lo?

Eu comecei escrevendo às quintas-feiras, relatando os momentos que eu estava passando, ou seja, da realidade do hospital, as pessoas que me acompanhavam e aí quando eu decidi escrever eu estava no meio do tratamento, então eu demorei uns oito meses para escrever o livro. Eu encerro o livro com uma parte de evolução espiritual. Eu tinha feito uma promessa e consegui pagar, e foi muito emocionante porque um ano antes disso talvez eu não imaginava que eu conseguiria estar lá. Eu fiz uma caminhada de 32 km até Santo Expedito, com menos de um ano de finalização de tratamento, algo que é muito difícil porque a pessoa às vezes fica muito debilitada e mesmo assim eu fui, consegui, cheguei lá e cumpri minha promessa. E o processo do livro foi em cima de tudo isso, conforme as coisas iam acontecendo eu ia guardando em relatos para mim e depois eu montei as ideias e fiz a história em si. Mesmo tendo outros acontecimentos na minha vida nesse período, eu foquei bastante na parte da enfermagem, na parte de oncologia, tratamento e a recuperação.  

 

“Uma das coisas que me fez lutar pelo câncer foi saber que meu filho precisava de mim e eu precisava estar aqui para cuidar dele”

 

Gabriela Souza,

Escritora

Que tipo de relato você buscou incorporar em seu livro? O que os leitores podem encontrar ao pegá-lo para ler?

No meu livro, eles vão encontrar uma pessoa que passou por um processo de evolução, que venceu e que, com certeza, vai ter muita coisa boa para mostrar, mesmo o câncer sendo uma palavra e uma doença muito pesada ainda de se falar. A gente ainda tem preconceito em ouvir a palavra, tem pessoas que não gostam e eu consegui tirar, se é que existe coisa boa no câncer, tudo que tinha de bom daquele momento da doença, do tratamento, das pessoas que eu conheci, o quanto eu aprendi, cresci e o quanto a minha fé se renovou a cada dia que eu pensava que eu poderia desistir e não desisti.

Que mensagem você pretende passar por meio do seu livro?

A mensagem em si é em relação à mulher, a vaidade ao passar pela mutilação física e eu continuei trabalhando. Eu acho que a questão da superação de acreditar que não vai ser uma doença ou qualquer outra situação da sua vida que vai te derrubar. É a superação em si de você querer acreditar que tudo vai dar certo, querer e conseguir e fazer. Afinal, mulheres são fortes e eu acho que o livro mostra uma mulher forte em todos os sentidos, como mãe, como a pessoa que deseja trabalhar, vencer e que acima de tudo lutou contra um câncer e venceu.

Qual o momento de maior dificuldade?

A situação de ser mãe foi a única que me fez chorar durante a doença. Meu filho estava com três anos, e eu expliquei para ele, disse que eu tinha um dodói, não sei se ele tem esse entendimento, mas eu contei. Eu acho que o único dia que me fez chorar foi quanto senti que eu estava realmente doente, eu tive os efeitos colaterais da quimioterapia de não conseguir ficar em pé de cansaço, muita dor no corpo e mora só eu e ele. Ele precisava comer e eu quase não consegui fazer um miojo para o meu filho comer. Depois eu deitei no sofá e ele viu que eu estava chorando e perguntou o porquê eu estava chorando. Eu falei que estava com o dodói e o dodói estava doendo muito. Ele parou de comer a comida, levantou da mesa, veio e me deu um beijo. Sentou no sofá e colocou minha cabeça no colo dele e falou: ‘mamãe deita aqui e dorme que eu vou cuidar de você’. Então eu acho que o filho traz para nós uma força que talvez a gente nem imagina que teria. Eu acho que a maternidade faz a gente mãe, mas depois que o filho cresce nós nos tornamos supermães, por querer fazer tudo por eles. Então, uma das coisas que me fez lutar pelo câncer foi saber que meu filho precisava de mim e eu precisava estar aqui para cuidar dele.

Quais foram os desafios encontrados na hora de compartilhar sua história?

Nas revisões do livro que eu precisei ler para poder entregar, todas as vezes eu chorei nos mesmo lugares e ri nos mesmo lugares. É um livro que conta a realidade de pacientes que eu tive contato quando eu fiz a pós-graduação em Jaú. Eu vivi momentos bem difíceis de realidade que eu não tinha conhecimento, como a morte, sofrimento de pessoas que perdem partes do corpo e ali eu chorei porque era um ser humano e a gente não quer que ninguém passe por isso. Mas, também teve momento que eu ri ao encontrar pessoas. Cada um enfrenta de uma maneira diferente um problema. Então, eu acho que não tive dificuldade na escrita, mas na revisão sim. Eu tive momento de ler e relembrar de todo aquele momento e sentir lá no fundo: ‘nossa, foi difícil, mas eu passei’.