"A gente teve que aprender a viver novamente com a ausência da Mariana"

THIAGO MORELLO • 31/03/2018 09:14:20

22 de fevereiro de 2003. Apesar de parecer um dia como qualquer outro, Mario Braga jamais pensaria que a data que mudaria sua vida para sempre. Para ser mais exato, como ele mesmo diz, o dia do seu renascimento. Pai, cristão, professor e precursor do Movimento Mariana Braga, ele revive ano após ano o dia em que sua filha morreu e, desde então, deu início à entidade que tem o intuito de evangelizar, promover o bem social, combater o uso das drogas e, principalmente, a violência.

Naquele mesmo dia de fevereiro, Mario dava adeus a sua filha e iniciava uma nova trajetória. Mariana Braga da Costa, 18 anos, foi morta por um disparo de arma de fogo durante uma festa de calouros na FCT/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista). Ingressante no curso de Engenharia Ambiental, campus de Presidente Prudente, ela foi com as amigas até o local, sem saber que teria os sonhos interrompidos. Mas infelizmente teve. O caso chocou a comunidade, não só prudentina, mas de uma mobilização nacional, por conta da barbaridade.

Hoje, 15 anos após sua morte, Mario vive quase que integralmente destinado ao movimento que foi iniciado após a morte da filha, mas que até hoje atinge pessoas na cidade e até no país todo. Se colocar na ponta do lápis, ele aponta que cerca de 1milhão de pessoas já foram, de alguma forma, tocadas pela comunidade, perante a evangelização praticada diariamente, seja em grupos de oração, acampamentos, cursos de formação, retiros, encontros, missas, shows e demais eventos.

Aos 57 anos, em entrevista exclusiva ao O Imparcial, Mario conta um pouco de sua rotina, das mudanças que enfrentou após o ocorrido trágico, e como conseguiu encontrar sentido na vida para continuar lutando, seguindo em frente e não deixando que a morte da filha fosse mais um caso que apenas entraria para as estatísticas. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

 

O Imparcial: Descreva exatamente o que mudou na vida do senhor a partir do dia 22 de fevereiro de 2003.

Mário: Realmente foi uma nova etapa que se iniciou em minha vida. Quer dizer, não só eu, mas toda a minha família, os amigos a nossa volta e a comunidade que convivíamos e estamos inseridos até hoje. A gente teve que aprender a viver novamente com a ausência da Mariana. Eu e ela sempre tivemos uma cumplicidade muito grande, um diálogo familiar constante. Porém, infelizmente, isso não existe mais, não com a presença dela. Receber a notícia não foi fácil, principalmente por ela ser uma pessoa de boa índole, destinada à igreja e com muitos, mas muitos, sonhos. Sonhos esses que foram interrompidos, assim como nossa vida. E, desde então, nós tivemos que nos adaptar, criar forças e seguir em frente de alguma forma. Ainda bem que já estávamos inseridos em uma comunidade religiosa, que nos deu suporte para termos o que temos hoje e começarmos a evangelização que deu o pontapé inicial para o movimento.

 

O senhor sempre esteve inserido na vida religiosa. Com a morte da Mariana, isso se fortaleceu?

Sim, muito mais. Depois desse momento, dessa provação, foi ai que veio a prova da força que a igreja católica tinha, teve e continua tendo em minha vida. A força dos irmãos, propriamente dita. Naquela situação difícil, naquele momento em que você percebe que seu mundo desabou e o chão caiu, é quando tudo desmorona. Então, ter aquele apoio da religião foi essencial e digo que, talvez, se eu não tivesse inserido, teria sido mais complicado. É um luto que a gente não passou sozinho e continua assim. Tudo que a gente passa até hoje é junto com a comunidade, dos amigos, do restante da família. Além do que, a Mariana sempre esteve inserida no meio religioso, foi catequista e amava frequentar a igreja e os eventos que faziam parte dela. Estar ainda mais próximo desse mundo nos fez estar próximo dela. Então sim, esse lado se fortaleceu mais ainda.

 

O senhor tem outra filha, a Marina. Sendo assim, por falar em fortalecimento, como pai o seu instinto protetor ficou mais forte?

Sem dúvida a minha relação com a Marina mudou completamente. Eu costumo dizer para as pessoas nos lugares que a gente vai para realizar palestras, que isso é uma questão que origina a sensação de impotência. Eu falo isso no sentido de que eu, como pai, como homem, como ser humano, muitas vezes quero fazer algo e não posso. Eu passei por isso, eu experimentei e vivi isso com a Mariana. Então ai começa a reflexão do que nos restou em vida, dos nossos laços, não só com a Marina. A gente percebe a necessidade e quer abraçar mais, estar mais perto, ser mais presente na vida dos outros. É a partir dessa sensação de impotência, não culpa, que nos sentimos muito tristes. E quando você passa por uma situação como essa, você começa a olhar o mundo com uma maneira diferente, um novo olhar. E aí você começa a fazer essas coisas, no intuito de promover algo de bom. O lema no movimento é mais amor e menos dor, a fim de proporcionar isso, no aspecto de realmente fazer mais e melhor.

 

Se encontrar com o autor do disparo da arma que atingiu a Mariana e conseguir dar a ele o perdão, foi um momento difícil?

Na verdade esse é um assunto que eu não gosto muito de comentar, porque eu acredito que o melhor de tudo é tirar proveito do lado bom que essa tragédia acarretou, que é o que o Movimento Mariana Braga realiza hoje em dia. Mas, eu entendo que o ato de perdoar é uma ação divina. O feito que ele cometeu está totalmente perdoado. A questão do perdão é algo que eu vejo como uma obrigação. Porque veja bem, já que estamos procurando algo melhor, um mundo melhor, temos que começar bem. Não adianta eu dar início a um movimento que prega o bem, o amor, e dentro de mim ter rancor, mágoa, raiva ou ódio. Eu tenho que começar pleno, livre de tais sentimentos. Já que é para ser cristão, eu tenho que ser integralmente, 100%. Não tem como ser cristão pela metade. E isso só poder ser iniciado a partir e por meio do perdão.

 

Como o movimento foi iniciado a partir da tragédia e como, desde então, isso impactou a sua vida e sua rotina?

A ideia do movimento nasceu por meio de um amigo da comunidade, o padre Antônio Sério Girotti (Tuti). Naquele momento de indignação pelo ocorrido, em meio a toda nossa sociedade, ele teve uma ação digna, que foi de criar o Movimento Mariana Braga. A intenção era e sempre foi de promover algo para combater a violência em Presidente Prudente. Desde então, a gente começou a fazer caminhadas, que levou cerca de cinco mil pessoas. Foi crescendo, crescendo e ganhou a proporção que chegou hoje. E, com esse crescimento, nós fomos dividindo com as pessoas, até com a imprensa mesmo, a mídia. Não imaginávamos que ganharia essa repercussão tamanha que existe hoje. Para nós estávamos fazendo nossa missão de cristãos, que é prevenir a violência. Minha filha foi vítima de um ato muito violento dentro de uma faculdade, um local que não deveria ter esse tipo de coisa, com duas gangues de traficantes. A ideia era ir de encontro com algo para diminuir isso. O movimento se faz presente dentro da comunidade da Igreja Maristela, mas está atuando no Brasil inteiro. Atualmente, mais de 200 pessoas, ou até mais, fazem parte da ação. Com isso, nós subdividimos as funções. Eu posso dizer que em meio a esses 15 anos de atuação, por meio de grupos de oração, acampamentos, cursos de formação, retiros, encontros, missas, shows e demais eventos, já conseguimos atingir mais de um milhão de pessoas.

 

Falar da morte da Mariana, apesar de todo esse movimento que foi criado e tem ajudado pessoas, ainda é difícil?

Sempre é. Isso nunca será fácil para qualquer um que passe por esse tipo de situação na vida. Mas eu costumo falar que quanto mais a nossa fé foi aumentando, o peso foi diminuindo. Hoje a gente ainda sente muito, porque é uma dor que não passa nunca, mas felizmente digo que a saudade é maior que a tristeza, porque a dor é menor. E isso é ainda mais fortalecido, aos termos a certeza que, de lá de onde ela está, a Mariana sabe e está nos olhando, vendo que estamos fazendo por onde e tirando algo de bom disso. Ela vê que estamos fazendo o nosso papel de cristãos, pra poder ajudar o ser humano e nos ajudar espiritualmente. As comunidades, as pessoas, os grupos que visitamos, a gente vai para falar de Deus. É muito bom falar e Deus.

 

Uma vez que você está inserido nessa prática diária com a comunidade, você acredita que a violência atual continua grande, de modo que movimentos como o Mariana Braga precisam estar mais presentes no dia a dia?

Sim, realmente. Eu cito um exemplo atual, como a morte da vereadora do Psol, Marielle Franco, no Rio de Janeiro, assassinada a tiros como minha filha, apesar de ser uma situação diferente. Quando passamos por isso, tanto eu quanto a mãe de Marielle, e outras no mundo, começamos a olhar as coisas de maneira diferente. Em minha opinião, estamos preocupados com outras coisas e esquecendo-se do ser humano. Temos que dar as mãos e estar mais presentes. O contrário disso mostra a falta de Deus no coração. O amor ele é atitude, por isso, se a gente se preocupar em um ajudar o outro, tudo será diferente.

 

Como professor, qual a mensagem que você deixa aos seus alunos sobre violência, amor e solidariedade?

Quando estou em sala de aula, eu tento, sempre que possível, tratar desses assuntos com eles. A ideia é promover uma reflexão. Eu digo a eles que a gente precisa começar a refletir para entender o que estamos fazendo aqui, em vida. Nós estamos aqui pra algo, para uma missão. Com os alunos, eu frequentemente valorizo esse momento, que é para fomentar o amor. Ensino a eles a valorizar as pessoas, principalmente as crianças. A mensagem de tudo isso é a de fazer a prevenção. Internar pessoas depois de algo que aconteceu, depois que os problemas surgirem, não é o caso. O certo é investir na prevenção e não remediar. Educação é o caminho para isso. A espécie humana é boa, a gente só não pode deixar a maldade chegar aos corações. E, infelizmente, o avanço da informática tem possibilitado o fácil acesso as coisas erradas também. Trabalhar isso desde cedo é o certo para não acabar de uma forma ruim.

 

Qual a mensagem do senhor para as pessoas que conhecem o movimento, mas principalmente para os pais?

Eu costumo falar que no final de tudo, se for parar pra pensar, eu tenho a certeza de que vale a pena. Se Deus colocou a gente aqui é porque temos uma missão de vida. É muito triste passar por aqui e não deixar nada. O Zeca Pagodinho fala na música “deixa a vida me levar”, mas não é assim (brinca). A gente tem que falar de Deus, fazer a diferença e deixar uma marca positiva. Os pais devem conversar com seus filhos, abraçar, ter momentos juntos, enfim, realmente ser uma família. No entanto, eu fazia tudo isso com a Mariana, e isso prova que só o diálogo familiar não basta. O que aconteceu com minha filha eu não poderia evitar. Infelizmente isso não tem como evitar, porque o mundo hoje em dia está muito complicado. São 15 anos após morte e as coisas continuam do mesmo jeito, as festas estão do mesmo jeito. Melhorou? Melhorou! A gente fazendo já está difícil, agora imagina se ficar de braços cruzados? Então, a gente não pode impedir que um disparo de uma arma acerte novas pessoas, que serão vítimas como minha filha foi, no entanto nós podemos evitar que as crianças, jovem, adultos, enfim, que todos se tornem pessoas boas a ponto de não precisar e nem ter coragem de atirar em alguém. A minha mensagem é que precisamos transformar esse mundo em um lugar melhor.

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