Sobe e desce de preços dificulta aplicações

ANA PAULA RAGAZZI SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) • 11/06/2018 04:20:00

Está difícil manter o sangue frio para quem tem aplicações no mercado financeiro. Maio e os primeiros dias de junho trouxeram pregões de alta volatilidade, tanto para as ações, em que oscilações são esperadas, quanto para os títulos públicos, que não costumam assustar o aplicador. Sem falar no dólar, que apenas na última sexta-feira (8) variou 21 centavos (-5%). Esse sobe e desce é sinônimo de incertezas no cenário -e elas são várias. No exterior, a alta dos juros americanos atrai mais capitais para os Estados Unidos e fortalece o dólar globalmente. No Brasil, a liderança das pesquisas eleitorais está com nomes que o mercado enxerga como descompromissados com as reformas fiscais. E a paralisação dos caminhoneiros agravou as preocupações. "O governo fez concessões e não está claro quem vai pagar a conta. Se houver repasses para os preços, ela ficará com a população e pressionará a inflação", diz Eduardo Eichhorn, diretor da Mapfre Investimentos, lembrando que a paralisação enterrou de vez qualquer expectativa de um PIB acima de 2% este ano. Com tanta incerteza, o melhor a fazer, se o investidor não estiver precisando de recursos para já, é respirar fundo e esperar que a tendência de preços esteja mais clara. Antes da paralisação nas estradas, a bolsa já estava volátil. Em maio, na reta final da temporada de balanços, ações de empresas de grande porte oscilaram para cima ou para baixo às vezes mais que 10%. Os papéis do Ultra, dono dos postos Ipiranga, caíram 10,16% depois de números decepcionantes. E a ação da fabricante de cosméticos Natura subiu 14,65% -o mercado já há alguns trimestres aposta que o modelo de negócio da empresa se esgotou, mas ela surpreendeu com crescimento, mais uma uma vez. Um gestor que prefere não se identificar diz que o mercado falhou em algumas previsões de resultados porque no início do ano trabalhava-se com a expectativa de alta de 3% do PIB, juros ainda caindo e que o dólar só iria estressar, por conta das eleições, no segundo semestre. Mas nada disso se confirmou. E, nos últimos dias, o mercado tem mesmo é visto de tudo. A Petrobras subiu mais de 10% em alguns pregões com resultados positivos e devolveu tudo dias depois, quando o presidente Pedro Parente pediu demissão. Os papéis da Sabesp recuaram por conta da revisão tarifária, que ficou abaixo do esperado. E a TIM desagradou investidores porque passará a pagar royalties pelo uso do nome do controlador. Apesar de haver motivos, as altas e baixas foram muito aceleradas e acentuadas, o que é comum num mercado estressado. Qualquer mexida de um grande investidor, para embolsar lucros ou cessar perdas, acaba gerando o efeito manada, que potencializa as altas ou baixas. A questão desses últimos dias é que essa volatilidade atingiu grandes empresas. "As ações que caíram mais foram as que todo mundo têm, pois os investidores estão procurando as empresas conhecidas", resume Alexandre Póvoa, sócio da Canepa Asset. Em maio, o Ibovespa perdeu 10,86% e isso se refletiu nas carteiras dos fundos de ações -nenhum conseguiu desempenho positivo no mês passado, segundo a Anbima (associação que do mercado financeiro e de capitais). Os fundos, que vinham captando muito em função dos juros baixos no Brasil, tiveram saída líquida de R$ 4 bilhões. Como o mercado, preocupado com situação fiscal, inflação e câmbio, agora já projeta um juro mais alto do que os 6,5% atuais, os títulos públicos também estão sendo afetados: papéis pré-fixados que travaram o ganho a 6,5% estão "queimando nas mãos de grandes investidores". Como há hoje opções mais rentáveis no mercado e não há para quem vender esses títulos, quem está fazendo esse papel de comprador, para garantir a tranquilidade no mercado, é o Tesouro Nacional. O professor do Insper, Ricardo José de Almeida, avalia que chegou a hora de observar o comportamento dos fundos multimercados, que lideram as captações neste ano. "É nessa hora que o bom gestor vai ter que aparecer", diz. Outro ponto de atenção, diz, será os efeitos da paralisação dos caminhoneiros na capacidade produtiva e nos resultados das empresas, também afetadas pelo PIB menor. "Muitas captaram recursos com títulos de dívida e é preciso acompanhar o comportamento desses papéis", diz. A Anbima informa que as empresas levantaram R$ 45,6 bilhões em debêntures neste ano até maio, o dobro do mesmo período do ano passado. Álvaro Bandeira, economista-chefe do ModalMais, ressalta a falta de previsibilidade no mercado. "O pior não é o dólar subir ou cair, mas estar num dia a R$ 3,92 e no outro a R$ 3,71. Isso acaba com o importador, o exportador, a empresa endividada, com quem investe, com todo mundo", diz. Póvoa, do Modal, diz que as empresas estão em melhores condições, em particular de endividamento, do que estavam há dois anos, quando o país enfrentava recessão. "A questão é que nessa falta de previsibilidade, elas só podem atrair o investidor porque seus papéis estão baratos. Não vejo outro catalisador",afirma.
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