Ficção sobre busca de identidade exalta cultura cabo-verdiana

) • 11/10/2018 08:12:00

HAPRESS - Primeiro longa-metragem de ficção dos documentaristas portugueses Filipa Reis e João Miller Guerra, "Djon África" é uma narrativa clássica de busca de raízes, de identidade, que acaba se transformando. Apesar de ficcional, a história tem pequenos elementos da vida de Miguel Moreira, o ator não profissional que dá nome ao filme e interpreta o personagem principal. Nascido em Portugal, de origem cabo-verdiana, Miguel Moreira (que se apresenta como Djon África) foi criado pela avó e nunca conheceu o pai, deportado para o país natal quando o filho era pequeno. O jovem de 25 anos leva uma vida apagada em um subúrbio de Lisboa cortado por viadutos. Não estuda, vive de expedientes -furto em uma loja de roupas, bico como pedreiro-, mas tem ginga, desenvoltura com as moças. Um dia decide viajar para Cabo Verde para tentar encontrar o pai. Com as poucas informações dadas pela avó, Miguel se lança à aventura. Lá, mergulha na belíssima natureza e no mundo de cores vivas da festiva cultura cabo-verdiana, marcada pela culinária e pela música vibrante, que o filme exalta constantemente. O hedonismo já é prefigurado durante a viagem de avião, na cena onírica em que Miguel vê bailarinas surgirem dançando no corredor, enquanto as poltronas são ocupadas apenas por mulheres, que o provocam com o olhar. No avião Miguel faz outra constatação: não é considerado cabo-verdiano pelos nativos, por causa do sotaque e por não conhecer o país. Percebe com certa irritação que é sempre um estrangeiro, pois em Portugal tampouco se sentia português. Mas isso não o refreia. Sem deixar de procurar pelo pai e de ser considerado estrangeiro, Miguel perambula pelas ilhas do arquipélago e vai conhecendo gente e paisagens diferentes -cidades, praias e montanhas-, valorizadas pela fotografia de Vasco Viana, que trabalha a luz com muita sensibilidade, distante de qualquer exotismo. O encontro mais enriquecedor de Miguel é com uma senhora que vive sozinha nas montanhas e lhe oferece casa e comida em troca de ajuda no trabalho do campo. Falante e cheia de autenticidade, ela encarna a sabedoria antiga, a cultura africana ancestral. O final é aberto, permite várias interpretações, enfatizando assim que o mais importante da jornada de Miguel é o processo e não o resultado. Um processo de autodescoberta e aprendizado, necessariamente complexo e arriscado, e não um resultado tranquilizador. A beleza desse processo é realçada na última cena, em que Miguel cruza com o pai no meio da multidão na cidade, mas não o vê -a busca talvez era apenas um pretexto ou talvez tenha perdido o sentido-, ao som de uma canção que diz: "Aleluia, alegria, vamos construir um futuro africano". DJON ÁFRICA ELENCO Miguel Moreira, Isabel Cardoso, Patricia Soso, Bitori Nha Bibinha PRODUÇÃO Portugal, Brasil, Cabo Verde DIREÇÃO Filipa Reis e João Miller Guerra QUANDO Estreia nesta quinta (11/10) CLASSIFICAÇÃO 12 anos AVALIAÇÃO Bom
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