Entidades do esporte se unem para evitar perda de R$ 300 milhões

MARCELO LAGUNA SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) • 12/06/2018 18:24:00

De forma inédita, diversas entidades ligadas ao esporte brasileiro, como confederações esportivas, de clubes e ONGs estão atuando em conjunto contra a medida provisória assinada pelo presidente Michel Temer na última segunda-feira (11), que pretende unificar o sistema de segurança do país. A medida, que irá transferir recursos das loterias para a área de segurança, afeta diretamente o Ministério do Esporte, que tem nas verbas das loterias sua maior fonte de recursos. Cálculos iniciais apontam que pelo menos R$ 300 milhões deixarão de ser aplicados em programas do Ministério, voltados especialmente para os esportes de base.  Mesmo o esporte de alto rendimento será afetado. Seja diretamente, pela redução de verbas, ou indiretamente, com a consequência do fim de investimentos feitos pelo Ministério no esporte escolar e na formação de atletas. "Quando você acredita que nada mais pode piorar no esporte, eis que aprovam uma medida destas. Claro que ninguém é contra o investimento na segurança pública, mas não consultaram os setores do esporte envolvidos. Trata-se de um enorme equívoco", critica o velejador Lars Grael, duas vezes medalhista olímpico e superintendente de relações institucionais do CBC (Comitê Brasileiro de Clubes).  O CBC foi justamente uma das entidades mais afetadas com a redistribuição das verbas das loterias que será feita caso a medida provisória 841, que cria o Fundo Nacional de Segurança Pública, seja aprovada no Congresso. A medida assinada por Temer nesta segunda-feira (11) irá retirar uma fatia da verba do Ministério do Esporte que seria destinada ao CBC, Fenaclubes, ONG's e até esporte militar. Também serão afetadas a CBDE (Confederação Brasileira de Desporto Escolar) e a CBDU (Confederação Brasileira de Desporto Universitário). De forma menos drástica, a medida assinada por Temer irá atingir ainda as duas principais entidades esportivas do Brasil, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) e CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), com reduções de pelo menos R$ 10 milhões anuais para cada. Todas as entidades ouvidas pela reportagem apostam que os efeitos para o setor esportivo brasileiro serão muito graves. "Ainda estamos fazendo os cálculos, que são complexos, mas estamos falando de um corte de pelo menos R$ 300 milhões no orçamento do Ministério do Esporte", afirma Louise Bezerra, diretora executiva da Atletas Pelo Brasil, ONG que atuou na aprovação da modernização da Lei Pelé, com a aprovação do limite de mandato para os presidentes de confederações esportivas. "Segurança pública é sempre prioridade, mas a criação desta medida é a mesma coisa que cortar a verba das vacinas para investir em hospitais. Haverá um reflexo tremendo em toda a indústria do esporte do Brasil", diz Edson Garcia, superintendente executivo do CBC. A inédita união das diversas entidades, que assinaram em conjunto manifestos publicados nos respectivos sites e até anúncios de jornais, já organiza uma força-tarefa para tentar barrar a aprovação da medida provisória. Nesta quarta-feira, representantes do setor do esporte brasileiro estarão em Brasília, quando haverá uma audiência pública na Comissão de Esportes, presidida pelo deputado Alexandre Valle (PR-RJ). A ideia é fazer uma forte pressão nos deputados, para que a medida não seja aprovada. "Acho possível reverter esta situação. Quando o governo sentir o tamanho da impopularidade deste medida, vai acusar o golpe e sentar para negociar. Temos que chamar a atenção o máximo que pudermos e para isso, a união é fundamental", diz Lars Grael. SURPRESA DESAGRADÁVEL Maior atingido com a medida provisória para o sistema unificado de segurança pública, o Ministério do Esporte foi pego de surpresa. "Conversei com a equipe do ministério na segunda-feira e todo mundo diz que não sabia de nada. Pegou todos de surpresa", diz Louise Bezerra, da Atletas Pelo Brasil. O próprio ministro Leandro Cruz não foi consultado pelo governo. "Conversei com ele, que disse não ter sido procurado por ninguém do Palácio do Planalto. Ninguém imaginava uma medida provisória com esta magnitude, que está jogando o esporte nas trevas", afirma Lars Grael. Procurado pela reportagem, Leandro Cruz encontra-se em Portugal, em um encontro com autoridades esportivas do país e não foi localizado pela assessoria de imprensa do ministério para se manifestar a respeito dos efeitos que a medida provisória irá causar no orçamento da pasta. REPERCUSSÃO O COB, CPB e a Comissão de Atletas do COB também se posicionaram a respeito da medida provisória que unificará o sistema de segurança pública do país. "Será uma perda importante, algo em torno de R$ 10 milhões ou R$ 11 milhões por ano, mais a receita anual de um prognóstico da Loteria Esportiva e de dois prognósticos nos anos de Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos. Qualquer diminuição de recursos implica na revisão de projetos. Com isso, alguma parte dessa preparação será prejudicada, sim. O COB atuará com todas as demais entidades esportivas e os atletas no sentido de que o esporte não seja prejudicado por essa MP. " - Paulo Wanderley, presidente do COB "Os recursos das loterias federais correspondem a 95% das receitas do Comitê Paralímpico Brasileiro. O montante que cabe ao Comitê Paralímpico Brasileiro por intermédio das loterias federais, antes mesmo da MP do SUSP, já não nos era suficiente para cobrir todos os custos. Nossos cálculos iniciais dão conta de uma perda entre R$ 6 milhões e R$ 10 milhões anuais. Para o esporte de uma maneira geral, estamos avaliando e recebendo informações das mais diversas entidades e organizações diretamente afetadas, mas lamentamos muito toda perda de recurso para o setor." - Comitê Paralímpico Brasileiro "Todos nós da comunidade esportiva estamos tristes mas principalmente preocupados com as consequências dessa medida provisória. Retirar recursos do esporte não é o melhor caminho para se melhorar a questão da segurança. O governo deveria investir ainda mais no esporte para se obter a médio e longo prazo bons resultados com a nossa juventude. Todo processo de evolução ou melhora social passa pelo esporte." - Tiago Camilo, presidente da Comissão de Atletas do COB
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