Aliança Francesa inaugura sala de teatro paralela com obra de Plínio Marcos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) • 10/10/2018 20:12:00

O ano era 1975. A peça inédita "Abajur Lilás", de Plínio Marcos, estava pronta para estrear no teatro Aliança Francesa, na região central de São Paulo. A direção era de Antônio Abujamra. Faziam parte do elenco Lima Duarte e Walderez de Barros, então casada com o dramaturgo. Às vésperas da primeira apresentação, porém, a obra foi interditada. Os censores consideraram que o texto tinha natureza política e "emitia uma mensagem de incerteza, conformismo doentio e falta de crença num futuro melhor", de acordo com o parecer. Agora, mais de 40 anos após o episódio, as palavras de Plínio voltarão, sem o risco iminente de censura, ao prédio da Aliança, na rua General Jardim, na República. A instituição vai inaugurar, nesta sexta (12), uma nova sala de teatro com a peça "Quando as Máquinas Param". Chamado de ateliê, o espaço terá lugar para 50 pessoas e funcionará no segundo andar -o teatro principal fica no térreo. Diferentemente de outros textos de Plínio, "Quando as Máquinas Param" não mostra a violência de forma tão explícita. A peça conta a história de um casal de periferia aparentemente comum. O marido, Zé, brincalhão e divertido, torna-se agressivo à medida que a situação de penúria se agrava em razão do desemprego. E sua relação com a esposa, Nina, vai se deteriorando. "Os textos de Plínio, e especificamente este, continuam impressionantemente atuais e contundentes", afirma Oswaldo Mendes, amigo e biógrafo do escritor, que fez a supervisão artística da encenação. Segundo ele, a grande qualidade do dramaturgo santista era não ser demagógico. "Ele fazia um retrato da realidade sem colocar legenda. Mostrava as situações como um repórter." Para Mendes, o diretor da montagem, Augusto Zacchi, acertou em não adaptar o texto. "Parece que o Plínio escreveu para pensar nos tempos de hoje. Por isso, não precisa atualizar nada. A história daquele casal fala por si", diz. Tanto Zacchi quanto os atores da peça, Cesar Baccan e Carol Cashie, são egressos do grupo Tapa, que estabeleceu "residência artística" no teatro Aliança Francesa entre 1986 e 2002. O primeiro atuou em "Gata em Telhado de Zinco Quente" (2016) e os outros dois estiveram em "Anti-Nelson Rodrigues" (2013). Comemorando seus 40 anos, a companhia dirigida por Eduardo Tolentino voltará ao local com uma nova montagem em janeiro de 2019. Baccan afirma que o Tapa foi sua grande escola, mas que chegou à conclusão de que era o momento de ter autonomia artística.  Produtor do espetáculo, foi ele quem primeiro vislumbrou a possibilidade de transformar uma sala da Aliança em teatro. Lívia Carmona, coordenadora de programação da instituição, gostou da ideia, que logo foi aprovada pelo comitê cultural. A expectativa é de que a sala tenha programação permanente. Assim, o importante teatro da rua General Jardim, fundado em 1964, e que já recebeu grandes artistas como Antunes Filho, Marília Pêra, Beatriz Segall e Sérgio Cardoso, ganha um par, mais adequado a espetáculos intimistas.
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