Uma nova chance no pé de lata

Papai Educa • 03/09/2018 14:03:22

Esta poderia ter sido mais uma Semana do Folclore no colégio do meu filho João Guilherme, mas não foi. Ao menos para mim. Era agosto de 2017 quando um recado no caderno pedia a confecção de um pé de lata, daqueles com duas latinhas e um barbante que eu mesmo fazia na infância. Achei o máximo e pensei na chance de mostrar ao meu pequeno uma brincadeira de quando eu era criança.

Separei duas latas de conservas, fiz um furo no meio, amarrei os barbantes e enviei à escola. Ele foi todo feliz e eu também fiquei... até ver na rede de compartilhamento as fotos das crianças usufruindo seus pés de lata. Ele estava encostado na parede da quadra esportiva, com duas minúsculas latinhas, descalço, com a marca das conservas à mostra, um barbante fino entre os dedos dos pés enquanto as demais crianças exibiam latas de tamanho maior, customizadas e andavam por todo pátio. 

Mesmo que, naquela imagem, ele ainda trouxesse o sorriso no rosto, sem muita dramatização, eu fui transportado mentalmente para a escola, o imaginei inerte e inferiorizado diante das demais crianças que se divertiam em suas grandes latas coloridas. Coisas de pai e suas reações súbitas de autossabotagem, culpa e superproteção, que lentamente o retornam ao status de plena consciência de que todo investimento naquele projeto cultural tinha, acima de tudo, o seu amor. Talvez tenha faltado a mim a atenção a um trecho do bilhete que dizia “busque inspirações criativas na internet”, enquanto era maior o meu desejo de mostrar que eu sabia fazer sem qualquer consulta.

Quando retornou da escola, fiquei à espera que me contasse sobre aquela experiência, na esperança de que tudo aquilo que imaginei fosse pura fantasia, mas ele demonstrava felicidade e foi breve no relato:

 - Foi legal, pai. Só um pouco difícil de andar, doeu meu pé, mas eu andei.

Não o instiguei a falar mais. Bastava. E, hoje, o relato do pé de lata é só um pretexto para refletirmos sobre nossos erros na tentativa de acertar. E que, em boa parte, os filhos nem se dão conta que erramos. Se fizermos um resgate na memória, podemos identificar falhas e inaptidões que se transformaram em ações positivas com o passar dos anos, mas junto delas muitos acertos, investimento afetivo e doação.

Nesta semana, um novo bilhete anexado ao caderno de recados tinha o mesmo pedido de produção. Não titubeei. Usei duas latas de leite em pó, decorei, fiz uma amarração individualizada nas unidades e, desta vez, acompanhado da mesma alegria do ano passado, ele voltou da escola com uma frase que me conduziu ao êxtase:

- Pai, você acredita que todo mundo queria andar no meu pé de lata de tão legal que era?

Gritei por dentro! Comemorei! Em 2017, minha crença no saber me cegou e me impulsionou a confeccionar o pé de lata da forma que eu sabia enquanto o bilhete me ofertava a chance de fazer diferente. E, assim, tenho feito diariamente no processo de criação e educação dos meus meninos. Me sinto, diariamente, mais atento a esta arte sem manual de instrução, me construo, edifico e também me desprendo de conceitos e estereótipos que fizeram parte da minha formação, mas que contemporaneamente são readaptáveis.

O conhecimento em todos os campos da vida humana é beneficiado com estudos e, hoje, temos um novo modelo patriarcal, que possibilita conexões entre pais e filhos mais modernas, criativas e saudáveis. Estamos vencendo o ciclo do machismo, nos libertando da clausura de sentimentos, não poupamos no falar de amor e tampouco na oferta de toque físico, dos beijos, abraços... O olhar, o diálogo, o afeto, a compreensão das diferenças, a disciplina, o direcionamento dos limites e a comunicação não violenta são novas oportunidades. Longe do autoritarismo e muito menos do permissivíssimo, elas estão à disposição de todos nós para que sejamos, continuadamente, mais participativos!

 

Leandro Nigre é pai, jornalista, especialista em Mídias Digitais, editor-chefe de jornal, e idealizador do Papai Educa www.papaieduca.com.br. Contato: papaieduca@gmail.com

 


 

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