Onde os caipiras se encontram

Charanga Domingueira • 23/04/2018 08:25:24

As cidades, todas elas, tem os seus pontos de encontro que com o tempo ganham nome e status. A “pedra” em Prudente, na Praça 9 de julho é ponto de referência para corretores e vendedores de generalidades. Quando me mudei para São Paulo a grande referência para os interioranos era o Bar do Jeca, esquina famosa da Avenida São João com a Ipiranga. Paulo Vanzolini e Caetano Veloso a cantaram anos depois. Os “caipiras”, interioranos como eu, ali encontravam seus conterrâneos. No outro lado da avenida ficava outro ponto de encontro que também ficou famoso. Foi onde nasceu a frase “Chama o Lima”. Nessa esquina, próxima ao famoso dancing Maravilhoso reuniam-se os músicos e artistas de circo que estavam sem compromisso para aquela noite. Então, se alguém necessitava de um saxofonista ou de um palhaço ia ao local e chamava o Lima. Todos os artistas disponíveis e à espera de um convite para trabalho eram Limas. Bastava o empresário de um baile gritar “tem algum Lima que toca piano?” que logo supria a necessidade que faltava em sua orquestra. O Bar do Jeca, porém, foi o ponto marcante para o caipira prudentino no final de 1957. Logo ao lado ficava o cine Ipiranga e depois o hotel Excelsior. Lembro-me que em 1959 fui à noite postar-me em frente ao hotel para conhecer, sabe quem? Fidel Castro! O comandante da revolução vitoriosa em Cuba fazia sua primeira viagem ao Brasil e saiu do hotel onde se hospedava, Veio sozinho até a frente do cinema papear com os que o aguardavam e na verdade o admiravam pelo seu feito de derrubar um ditador sanguinário e assumir o comando de um país. Depois virou sanguinário também. Fidel ainda não era comunista e nada sabia de marxismo. Isso só aconteceu pela frustrada invasão da Baia de Porcos. Sem o dinheiro americano Fidel foi buscá-lo na União Soviética. Lembrando ainda do local: em seguida estava a famosa Salada Paulista, ponto infalível de parada para os locutores que terminavam de transmitir jogos noturnos no Pacaembu. Ali era servida uma salada de batatas com um molho especial junto a um pedaço de linguiça ou salsicha, ao gosto do freguês e se não me falha a memória foi o primeiro local de São Paulo onde se comia em pé, em volta do balcão. Da “pedra” prudentina, do Senadinho, do Bar Cruzeiro, pontos de encontro em nossa cidade a esses locais de São Paulo minha memória me conduz quando a voragem dos anos permite que vivamos um período onde é até possível estarmos cruzando em nossa caminhada com um robô tão perfeito que não lhe negamos um bom-dia sonoro e afetuoso. Se o chamarmos de Lima é até possível que ele toque uma viola que lembre a do Paulinho. E vamos em frente.

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